Seu Flor, um barbeiro que se vira

Romildo Guerrante

 

 

"Seu Flor é barbeiro desde garoto em São Fidélis, no norte do Estado do Rio, mas na sua barbearia ele vai muito além de barba, cabelo e bigode. É um faz-tudo conhecido na cidade inteira, onde nasceu há 69 anos. Já foi sapateiro, paneleiro, bombeiro, técnico de televisão, mas nunca abandonou a tesoura e a navalha. Por isso é eclética a fila na porta da Barbearia São José, no bairro da Penha: tem gente de mãos vazias, esperando a vez pra cortar o cabelo por R$ 4,00 ou fazer a barba por R$ 2,00, mas tem gente carregando ventilador, ferro elétrico, guarda-chuvas, toca-discos, despertador, bola de futebol, todo mundo esperando que ele dê um jeito em coisas que outros já tentaram consertar e desistiram. Ele sempre dá um jeito, freqüentemente desmontando aparelhos velhos para aproveitar peças que não se acham mais no comércio. E aí pingam mais alguns caraminguás no caixa único da barbearia de muitas faces.

 


Televisão ele não conserta mais, porque, diz, "estão fazendo uns bichos enormes, não cabem aqui". Outro problema: embora haja um aviso de que os aparelhos podem ser vendidos se não forem procurados em 60 dias, ele nunca vendeu nada para recuperar o custo do seu trabalho. Por isso, a pilha cresce.
Seu Flor atende a todos com enorme paciência e bom humor. Critica os políticos e, como bom repentista, improvisa versos engraçados a propósito de tudo.

-Posso tirar uma foto, Seu Flor?

A resposta vem rápida:

"Pra que quer essa foto
É pra botá no jorná?
Cuidado com esse negócio
Pode me prejudicá!"

 



No princípio vai respondendo às perguntas de modo cauteloso. Mas logo o sr. Flor dos Santos Palagar conta a história de sua vida, driblando a montoeira de eletrodomésticos que ocupa todos os cantos da barbearia. "Se eu acho as coisas aqui? Acho sim senhor. Eu sei onde está cada coisa". E sabe mesmo.

É sábado. O movimento está pesado.

-Seu Flor, eu vim saber se o ferro elétrico da dona Zezinha pronto.
-Momentinho - responde.
Esquivando-se da barafunda, vai lá no fundo buscar um ferro elétrico desses modernos, que ninguém mais gosta de consertar, e cujas peças são "muito fraquinhas". Mas, enquanto isso, deixa na cadeira o cliente com a espuma de barba na cara. Quando volta, a espuma secou. É preciso lavar o rosto do freguês e começar de novo. Mas ele não se atrapalha.
E ninguém reclama."

 

 

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São Fidélis é sede de um município de 47 mil habitantes, no norte fluminense, à beira do Rio Paraíba do Sul, que já foi rico tanto no ciclo do café quanto no da cana-de-açúcar.  Hoje, a economia entrou em declínio e apenas a produção de laticínios e as lavouras esparsas de arroz, milho e feijão, além de algumas fruteiras, sustentam a vida dos munícipes. A cidade, durante alguns anos, experimentou a fama por sua Festa da Lagosta, mas a pesca predatória quase liquidou com esse crustáceo raro, durante muitos anos confundido com o pitu, mas hoje já dicionarizado como lagosta-de-são-fidélis. Sucessivos derrames de produtos tóxicos no Rio Paraíba do Sul estão fazendo o réquiem da pesca na região, e por conseqüência dos que vivem dela. Resta pouco a contemplar na cidade, exceto a bela ponte metálica trazida da Inglaterra no século 19 e a imponente igreja matriz, construída no século 17 com ajuda de escravos e decorada por padres capuchinhos italianos.

 

*Texto e Fotos : Romildo Guerrante

Romildo Guerrante é jornalista e reside atualmente no Rio de Janeiro.

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