O
SHOW DO “CALCINHA PRETA”
Afonso Carvalho
Tenho, aqui em Monlevade, um amigo que é o exemplo de
marido e pai de família. Dedicado, amigo, amante perfeito, o Didi
confidenciou-me, na sauna do clube que freqüentamos que, em alguns
domingos, chega a assumir todas as tarefas domiciliares, arrumando a
casa , lavando e passando a roupa, até o almoço cuidadosa e
carinhosamente preparado para o deleite da esposa e das duas filhas,
usando avental e touca na cabeça.
Isso poderia até ser natural se não fosse o Didi um
encarregado de manutenção de uma empreiteira da Belgo, trabalhando em
uma das áreas em que as atividades mais exigem do operário, sendo
trabalho pesado, agressivo, que o deixa extenuado ao final da jornada,
que acontece de segunda a sexta feira, em todas as semanas.
Um marido normal preferiria descansar aos finais de
semana e se preparar para a próxima, principalmente nosso amigo, que
mede pouco mais de 1,50 m e pesa 50 kg. Mas Didi ainda se dedica a estas
tarefas caseiras para descansar a esposa, auxiliar de enfermagem em um
dos postos de saúde da Prefeitura. Enfim, um marido perfeito e sonho de
qualquer mocinha que pensa em se casar.
Mas apesar de tamanha perfeição, o nosso amigo tem um
ponto fraco e, lógico, totalmente desconhecido pela esposa. É a
admiração por bailarinas de bandas de forró do Norte e Nordeste do país.
Ele me disse em certa ocasião, que chega a ficar arrepiado quando, aos
sábados, assistindo o programa do Raul Gil, vê a apresentação de uma
dessas bandas, com bailarinas exibindo formas exuberantes dentro de
minúsculas peças íntimas, o que o deixa em êxtase. Falou também que
gosta de todas estas bandas, mas que tem uma admiração especial pelo
Grupo Calcinha Preta que, segundo ele, durante as apresentações em
cavalgadas ou eventos similares, suas bailarinas atiram aos fãs peças
intimas.
O sonho do nosso amigo era assistir a um destes shows,
apesar da limitação financeira que possuía. Acalentou durante muito
tempo este sonho, até que há cerca de um mês atrás, ouviu de um colega
de trabalho que na cavalgada de São Gonçalo do Rio Abaixo o grupo
abriria o evento com um show memorável na sexta feira e que o mesmo
aconteceria gratuitamente. Desde esse dia, o nosso amigo começou a
imaginar formas de comparecer. Como sua esposa não gosta deste tipo de
festa pensou: “vou aumentar ainda mais a minha dedicação em casa para
receber o passaporte e realizar este meu sonho”, ainda mais indo
sozinho, posso exteriorizar toda esta emoção reprimida. Passou a
realizar todas as tarefas de casa, independente do dia da semana,
visando o alvará de soltura na sexta feira do show. Combinou tudo com a
esposa e a mesma incentivou a ida do marido apenas com um porém: ela e
as meninas não iriam, pois não gostavam deste tipo de evento.
Interiormente, segundo me disse, nosso amigo viveu um dos
momentos de maior alegria de sua vida; vou sozinho, me esbaldar e tentar
ganhar uma calcinha da Nina, uma das bailarinas mais famosas e
formosas da banda. Durante a semana que antecedeu ao evento o Didi quase
não dormia tamanha a ansiedade que tomou conta dele. Os dias
transcorriam vagarosamente e á medida que se aproximava a sexta feira ia
aumentando sua expectativa. Tudo ia muito bem até que na quinta feira,
que antecedeu ao show, quando chegou em casa encontrou a esposa e as
filhas aguardando-o para contar-lhe a novidade: meu bem: “companheira é
companheira” e nós resolvemos que vamos com você ao show, mesmo não
gostando, pois afinal tudo que lhe pedimos você não mede sacrifícios
para nos atender e nós não podemos fazer isso com você. Iremos todos.
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Bailarinas do Calcinha
Preta. Nina, Amanda e Meire. |
Nessa hora, me confidenciou o Didi, ficou tudo escuro a
minha volta e pensei: foi embora a minha diversão. Naquela noite não
dormi pensando numa forma de ludibriá-la. Na sexta, pela manhã, fui para
o trabalho tristonho e imaginando o que fazer para não perder a minha
diversão. Após conversar muito com o meu colega de trabalho Baiano, que
apesar de pouca dedicação aos estudos é muito criativo, e contar a ele
todo o meu drama, o mesmo me deu algumas dicas que achei interessantes e
planejei o que fazer.
Deixei o trabalho, naquele dia às 2 horas da tarde para
me preparar e fui para casa. Minha esposa estava de folga e já me
aguardava. Assim que cheguei combinei com ela que iríamos cedo para São
Gonçalo visto que, como o show era de graça teríamos problema de
estacionamento e localização dentro do parque de exposições. Saímos cedo
de casa, próximo de 4 e meia da tarde, mas um acidente na estrada
atrasou um pouco nossa viagem. Consegui estacionar o carro a cerca de 4
km do parque e com muita dificuldade chegamos no local. Dificuldade
maior ainda foi ficar próximo do palco, pois devido a minha baixa
estatura tomei muitos esfregões, empurrões, chutes, até conseguir chegar
onde queria.
Minha esposa demonstrava extremo desconforto em meio
aquela multidão, mas estava firme segurando as minhas mãos e das
meninas. À medida que se aproximava à hora do inicio do show fui
arquitetando o plano, todo traçado pelo Baiano e quando faltavam 15
minutos para começar, o coloquei em prática. Ao ser ligada a iluminação
e o som do palco, alguns flashes e batidas da bateria davam a impressão
de raios e trovões. Disse à minha esposa: acho que vai chover (no céu
não cabiam mais estrelas, a noite era linda). Paralelo a isso, as
meninas pediam insistentemente um hambúrguer e um refrigerante. O meu
amigo Baiano, no alto de sua sabedoria e experiência em shows desta
natureza já havia me alertado para isso.
Nesse momento, pedi à minha esposa que fosse até o carro
e apanhasse o guarda chuvas pois se chovesse, estaríamos protegidos, uma
vez que o mesmo é do tipo barraca, podendo proteger umas 4 ou cinco
pessoas sem se molharem, apesar de todo peso que possuía ( cerca de 10
kg). Disse também a ela que passasse numa dessas barracas de sanduíches
e comprasse dois X Tudo (demora em média 30 minutos para ser preparado e
mais 30 para ser degustado) e uma coca cola para cada uma, mas tomada no
canudinho (para demorar mais) pois estes barraqueiros não lavam direito
estas latas e aproveite as leve ao banheiro (havia uma fila quilométrica
nos banheiros femininos). Imediatamente minha esposa foi cumprir sua
missão. Lembrei-me do meu amigo Baiano: quanta sabedoria!
Não passaram nem 5 minutos e eis que surgem no palco,
para o delírio dos fãs embevecidos, a banda com suas bailarinas envoltas
em sumárias peças íntimas e à medida que dançavam iam atirando-as ao
publico. Didi não conseguia nem de longe pegar uma daquelas peças, mesmo
tomando chutes, pescoções, cotoveladas. De tanto insistir e gritar
freneticamente foi percebido por uma das bailarinas, exatamente a NINA,
com quem chegou a sonhar várias noites. Apontando para ele, e só para
ele, a Nina pediu ao publico que se afastasse e atirou sua peça ao nosso
amigo. Ao recebê-la Didi quase se enfartou ficou olhando para a peça,
beijou-a passou no corpo e gritava e sorria como uma criança quando, de
repente, o mundo caiu sobre sua cabeça.
Aliás, não era o mundo, mas sim o enorme guarda chuvas
que havia pedido sua esposa para buscar. Para seu azar, o tempo levando
pela esposa e filhas foi muito menor do que o esperado (esta o Baiano
não previa). Após o ocorrido, puxou o Didi pelas mãos e saíram
apressadamente do local, com o nosso amigo ainda arriscando uns olhares
furtivos para a bela Nina que se rebolava no palco.
O retorno para Monlevade se fez no mais absoluto silêncio
e até hoje Didi não conseguiu trocar uma palavra com a esposa.
Ontem, na sauna, me perguntou:
- Afonso, o que eu faço para conseguir o perdão da minha
esposa?
Apenas balancei a cabeça e lhe disse:
- Pergunte para o Baiano...
Afonso Carvalho é
alvinopolense, reside em João Monlevade e trabalha como
consultor de segurança do trabalho na ArcelorMittal.
Contato :
afonso.carvalho@arcelormittal.com.br