Casos  inesquecíveis do futebol em Alvinópolis.

 

O árbitro que apitou apenas o minuto de silêncio.

 

Afonso Carvalho

 

AFC 1964 - 2º Quadro - Com o goleiro e futuro juiz, João Ribeiro.

Em pé : Dadico, João Ribeiro , Zé Piula, Duducho, Pedroca, Célio e Babucho (Técnico).

Agachados : Noé, Dojão, Hudson, Loló e Vidrilho.

 

 

Final da década de 60.

Futebol de alto padrão em Alvinópolis, com equipes que davam gosto de ver, além de uma rivalidade sem precedentes entre as torcidas do Alvinopolense e o Industrial.  

Ia passando a semana e já dava aquela ansiedade de chegar o domingo.  

Sempre torci pelo Alvinopolense, mas gostava muito de ver os jogos do Industrial, pela técnica e pelos bons jogadores que a equipe possuía. Além disso, tinha um ótimo relacionamento com o pessoal da Baixada, pois tocava sempre nos conjuntos do Industrial, mas ainda assim, torcia contra.

Mesmo contra o gosto do Papai e quando os jogos do Alvinopolense eram com equipes de menor expressão, eu o ludibriava, passava pelos eucaliptos próximos da casa de Francisquinho, hoje bar do Jairinho, e saia no campo do Industrial para ver os jogos.

 

Naquela época, o Industrial tinha uma equipe imbatível dentro dos seus domínios e lá já iam mais de dois anos sem conhecer derrota no Estádio da Fábrica, para alegria do Tio Caetaninho, Jucazinho, Diogo, Paulo Andrade, Juvêncio e outras figuras folclóricas e torcedores apaixonados do alvianil do Bairro da Fábrica.

Em um destes domingos, o Alvinopolense não jogava, fui ao campo do Industrial para assistir um jogo em que o adversário seria o Vila Nova, do Bairro Vila Tanque de João Monlevade.

Fui ao campo na esperança  de ver um bom jogo, já quê, de João Monlevade, vinham sempre ótimas equipes, com jogadores de alta qualidade que pertenciam ao Belgo Minas, Vasquinho ou Metalúrgico, que “enxertavam” as equipes menores, principalmente aquelas da Vila Tanque.

 

Estes jogos eram sempre precedidos de uma preliminar dos mesmos times, mas como o Vila Nova veio meio que um “junta-junta”, não trouxe o cascudão, pois mal tinham 11 jogadores para integrar o time principal.

Me lembro, perfeitamente, estava sentado do lado do barranco bem próximo do gol da cidade e a primeira pessoa que vi entrar em campo foi o Juiz, de roupa comum, pois àquela época, os juízes eram sempre pessoas escolhidas pelo time visitante, um leigo sem formação específica em arbitragem.

- Olhei, reparei bem e vi que o Juiz era o João de Zé Ribeiro,  que em Alvinópolis era conhecido como “João Tlêis” pois sempre trocava o “r” pelo “l”, por isso o apelido.

 

Conhecíamos muito bem o João, cidadão Alvinopolense, que há pouco tempo havia se mudado para João Monlevade, e um torcedor, além de ex-atleta, apaixonado do AFC.

Ele era goleiro, que nunca passou do cascudo e tinha como característica, jogar todo de branco.

Pensei: isto não vai acabar bem...

 

 

Começou o jogo e vi, decepcionado, que o Vila Nova não passava de um amontoado de jogadores e que seria mais uma goleada do Industrial.

entrou a figura do João, que com o apito na boca parou, literalmente, o Industrial. O jogo transcorreu todo no meio campo defendido pelo Vila Nova e o Industrial dava um sufoco tremendo, com chutes na trave, goleiro pegando tudo e 6 penalidades máximas a favor do ISC que o João só mandava tocar a bola, dizendo que não foi nada e que futebol era pra macho.

 

Assim foi todo o jogo e o Industrial não conseguiu vazar a meta no Nego Velho, arqueiro famoso em João Monlevade, mas que já contava com mais de 45 anos de idade e estava parado, voltando apenas para atuar naquele jogo, visto que não conseguiram outro goleiro. No finalzinho da partida, em um dos pouquíssimos ataques do Vila, o árbitro marcou um penalty absurdo contra o Industrial, o que aumentou ainda mais a revolta dos atletas e da apaixonada e orgulhosa torcida.

O jogo foi paralisado, muita discussão e depois de algum tempo o João chamou o capitão do Industrial, Tito Ossada, e informou a ele que já havia combinado com o jogador do Vila, que iria bater a penalidade, que chutasse para fora, somente para que a partida terminasse bem.

 

Para isso, acrescentaria ainda mais 10 minutos para que o industrial pudesse empatar e até virar o jogo. Depois de algumas conversas entre os atletas e até alguns torcedores, ficou combinado que o penalty iria ser cobrado.

Feito isto, o grande (literalmente) goleiro Tito se postou debaixo das traves aguardando a cobrança do penalty que, imaginava, seria chutado para as nuvens.

 

Naquela época, não havia alambrado e o campo era aberto. A ponte de madeira, que dava acesso ao campo era bem próximo da bandeirinha de escanteio fazendo com que a saída do campo fosse bem rápida. Escolhido para bater o penalty foi o Piu, mulato forte, acostumado ao pesado trabalho de mecânico de manutenção de Ponte Rolante na Belgo Mineira, e que possuia um verdadeira petardo no pé esquerdo.

 

Antes de autorizar a cobrança, o João foi se encaminhando para o lado da ponte, ficando a poucos metros da mesma. Autorizou a cobrança e o Piu soltou um verdadeiro foguete, que entrou no ângulo, para a surpresa do Tito e dos outros jogadores que participaram da negociata com o presepeiro do Juiz.

 

Assim que a bola entrou, o João já foi encerrando o jogo, pulando de alegria e correndo em direção à ponte para sair do campo e ir embora, com todo o time do Industrial e a torcida, correndo atrás dele. Quando o João chegou na rua, próximo à casa que hoje mora a Dona Cindinha, um carro já o aguardava ligado e assim que o João entrou, já saiu em disparada no sentido bairro da fábrica, levantando poeira, sob os gritos de alegria do “Juiz” que conseguiu terminar com a longa invencibilidade do Industrial.

 

Na foto, o João com o tradicional uniforme branco.

Lambari do Sr. Orlando Lima – 1956
Tone – Assist. Técnico.
Adair, Tatim, João Ribeiro, Fabinho, Pedroca, Fernando.
Renato, Dinho, Joel, Vidrilho e Chico.

 

Esse fato chocou tanto os jogadores quanto os torcedores do Industrial, que viram a invencibilidade de 2 anos terminar, numa partida contra um adversário fraquíssimo, onde o juiz foi o responsável, ainda mais sendo o juiz um torcedor e ex-atleta do “pouca roupa”, como era chamado o Alvinopolense.

 

Durante meses, a Diretoria do Industrial tentou, sem sucesso, marcar novo jogo, que poderia acontecer em Monlevade ou em qualquer outro campo que o Vila escolhesse.

Ocorre que aquele time não existia, foi só um junta-junta de amigos da Vila Tanque, que queria se divertir no final de semana.

Mas para o Industrial, aquele osso atravessado na garganta não saia e a Diretoria não descansaria enquanto não conseguisse nova partida.

 

O “seu” Alonso Carvalho, cidadão alvinopolense, torcedor do Industrial, comerciante e morador em João Monlevade no Bairro Vila Tanque, depois de muito tempo, conseguiu localizar um dos jogadores do Vila, que participou daquela trágica e inesquecível tarde esportiva (para a torcida do Industrial) no Campo do Industrial.

 

Fez o convite para nova partida mas o atleta informou que aquele time simplesmente não existia e que foi só um grupo de amigos, que havia “surrupiado” as camisas do Vila Nova, que eram lavadas na casa de sua mãe. Mas o Alonso insistiu, insistiu e ouviu do atleta que tentaria reunir novamente o grupo para novo jogo.

 

Este jogo deveria ser jogado mesmo em Alvinópolis, mas em condições especiais, com o Industrial pagando o ônibus, oferecendo um almoço de primeira e ainda certa quantia em dinheiro que seria usado para juntar novamente os amigos para o retorno a Alvinópolis.

 

Assim que ficou combinado o atleta procurou novamente o João para que ele apitasse o jogo.

O João disse a ele: - “Não doido”.

 

 

Há oito meses não ia a Alvinópolis pois estava prometida uma surra sem precedentes.

Ele ainda comentou :

- Fui lá neste final de semana, mesmo assim, saí daqui na sexta feira meia noite e voltei na segunda, às “tleis” da manhã para que ninguém soubesse. Fiquei os tlês dias sem sair de casa e ainda assim deixei crescer barba e cabelo e bigode para mudar o visual. Mesmo assim estou na dúvida.

 

Mas o atleta insistiu com o João, que era um tremendo de um cara de pau, que aceitou sob as seguintes condições:

 

1º  - A metade da grana que seria oferecida iria para seus bolsos, para pagar dois amigos lutadores de judô, que fariam sua segurança.

 

2º - Precisaria de algumas semanas para se preparar.

 

Assim foi feito. Quatro semanas depois, Alvinópolis estava em festa para a grande revanche. O Industrial estava embalado e preparado para a partida.

O estádio lotado e a torcida frenética aguardavam o início do jogo.

Faltando 10 minutos para o chute inicial, para um carro na porta do campo (aquele mesmo que meses atrás saiu dali levantando poeira) e dele desceu uma pessoa toda vestida de branco, com vasta barba e cabelos que tornavam quase impossível sua identificação, além de dois companheiros que mais pareciam "guarda roupa" abertos.

 

 

Na portaria do Campo, Zé Nosso, porteiro, perguntou: quem é este senhor que passou sem pagar?

O motorista do carro informou: é o árbitro do jogo que veio de Belo Horizonte, da Federação Mineira para apitar a partida.

Acompanhado de dois amigos (duas torres) entrou o árbitro no campo com a recomendação de que deveria ser dado um minuto de silêncio antes do inicio do jogo.

Ao redor do campo as pessoas comentavam: que juiz esquisito, cabeludo, barbudo e ainda de chapéu? Outro respondeu: é da Federação Mineira e dizem que é muito bom.

 

Alinhadas as equipes, do lado do campo onde ficavam os bambus, lado oposto ao barranco, ficava a torcida composta pelos velhas guardas: Caetaninho, Jucazinho, Diogo e outros que se agacharam durante o minuto de silêncio.

Neste momento, um deles falou:

- Eu conheço aquele juiz. Reparem bem. Não será aquele  filho de Zé Ribeiro que apitou o último jogo?

Diogo entre gritos de incentivo e palavrões bradou:

- É ele mesmo.

E dito isto, invadiram o campo, agrediram o pobre do João “Tlêis” e o jogo terminou por ali, sem a revanche tão esperada.

 

Todo amarrotado, o João foi parar no Hospital onde Irmã Eva Veiga o esperava com injeções dolorosas para livrá-lo de tétano que poderia adquirir depois de tantos chutes, pescoções e ferimentos por todo o corpo, que lhe doíam até a alma.

 

Esta ficou para os anais, como um dos casos interessantes do futebol da nossa querida Alvinópolis.

 

Afonso Carvalho é alvinopolense, reside em João Monlevade e trabalha como consultor de segurança do trabalho na ArcelorMittal.

Contato : afonso.carvalho@arcelormittal.com.br