A viagem insólita

 

 

Afonso Carvalho

 

 

 

Janeiro. Sinônimo de férias, descanso, alívio do stress, viagens, praias, enfim, a liberdade que buscamos depois de um ano inteiro de muito trabalho e correria neste mundo louco em que vivemos.

Assim, como em todas as cidades onde as pessoas esperam e buscam este período, em Monlevade não é diferente e todo mundo, limitado pelo seu poder aquisitivo, busca de alguma forma esta saída da rotina para aliviar as tensões.

 

Um bom local para ouvirmos estas histórias é a sauna do clube que frequentamos, onde todos, sem ter muito o que falar, vão contando suas preferências. Uma delas me chamou a atenção e vou tentar descrevê-la neste espaço.

 

Temos aqui um sanfoneiro, de nome Domingos, apelido Domingão, de voz estridente, gosto musical duvidoso e de habilidade no trato do instrumento musical inversamente proporcional ao amor que tem pela sua sanfoninha.

 

Só consegue tocar razoavelmente uma música (Beijinho Doce), mas ainda assim, insiste com o instrumento e com a voz horrível pelos butecos de Monlevade, onde normalmente se apresenta “chapado”.

 

 

 

Ouvi dizer que de uma certa feita, estando ele em Itaoca, praia do Espírito Santo, alojou-se em uma das barracas mais procuradas daquela estação de veraneio e começou a executar seu instrumento, cantando com aquela voz esganiçada. A barraca, que até aquele momento, se encontrava cheia, foi ficando vazia e o dono foi imediatamente até o Domingão e perguntou:

 

- “Meu amigo, quanto você cobra para tocar”?

O Domingão respondeu que qualquer duas cervejas pagariam a sua apresentação.

O proprietário imediatamente retrucou:

- "E para não tocar?"

- "Quero que o Senhor deixe imediatamente a minha barraca ou vou chamar a polícia, pois se continuar a cantar e tocar, vou perder todos os frequentadores."

O Domingão jogou sua sanfona nas costas e abandonou o local.

 

Todos os anos o Domingão organiza uma viagem à praia com amigos, preferencialmente aqueles que suportam o som estridente de sua sanfona e o conjunto catastrófico que a mesma forma com sua voz.

Na última terça feira, encontrei o Domingão na sauna, apressado fazendo a barba pois, a meia noite, sairia a sua “embaixada” mais uma vez para o balneário de Itaoca.

Me disse, todo feliz, que o ônibus já estava cheio, com todos os 44 lugares ocupados e que desta vez, iriam ele e mais 3 sanfoneiros seus amigos (imagino que do mesmo nível dele), levando ainda 3 sanfonas reservas para, no caso de alguma “pifar”, imediatamente outra entra em ação.

 

 

Disse também que durante todo o percurso, tanto na ida como na volta, toca o tempo todo a sua sanfona. (Um amigo, de apelido Pimentão, me disse que em determinada ocasião aceitou o convite e participou da caravana (uma das piores experiências que passou na vida) mas, ainda antes de Vargem Linda desceu do ônibus e voltou para casa pois não aguentou o suplicio daquelas sanfonas tocando em sua cabeça).  

 

Puxando ainda mais sua boca, ele me informou que todos  da “embaixada” se alojam na mesma casa (um casarão enorme, isolado, de dois andares, com 15 quartos, 3 salas, duas cozinhas e outros aposentos. Disse também que tocam as sanfonas a noite inteira no casarão e que na praia, ficam juntos tocando e cantando (normalmente longe das barracas pois ninguém aguenta aquela agonia).

Após nossa conversa e terminar de fazer a barba, pegou apressadamente seus apetrechos de sauna e saiu para mais uma viagem à praia.

 

Pensando bem, vejo que alguns amigos e frequentadores do clube, participantes contumazes da embaixada do Domingão, estão durante todo o ano com um nível de stress bem acima do que considera razoável  a Organização Mundial da Saúde, notadamente no princípio do ano, quando retornam da praia.

 

Fica aqui o convite para os leitores: Não gostariam de participar da embaixada do Domingão?

 

Afonso Carvalho é alvinopolense, reside em João Monlevade e trabalha como consultor de segurança do trabalho.

Contato : afonsodesouzacarvalho@yahoo.com.br