Metamorfose
Ana Baptista Alves
Os últimos raios de sol timidamente fulgiam no horizonte. Os
passarinhos, saltitando
de galho em galho, procuravam ansiosos o repouso de seus
ninhos.
Podia-se
ouvir, vindos de longe, do alto das frondosas palmeiras, o
arrulho dos pardais que em sinfonia habitual,
anunciavam alegremente que a noite estava prestes a
chegar.
Da varanda da grande e velha casa de campo, onde passara sua
infância, contemplava em
êxtase a magia do momento.
"A
vida é bela! infinitamente bela e digna de ser vivida!
Seria maravilhoso se pudéssemos vivê-la intensamente em toda
sua profundidade,
sem temores, receios e sem nos recuarmos diante do amanhã e
seus insondáveis
mistérios."
Pensava, enquanto evocava recordações longínquas do tempo em
que vivera em companhia dos pais, no grande elo de amor que
os unira e no trágico
incidente que os banira para sempre de sua vida, deixando-a
na mais completa solidão.
Arremessada à própria sorte, sem entender como nem porquê,
vira-se sob
proteção de pessoas com as quais jamais tivera qualquer
vínculo afetivo, que a
tratavam com indiferença e desigualdade em relação a tudo e
a todos.
Assim, crescera sempre relegada a um segundo plano. Excluída
de todosprojetos
e eventos familiares, tornou-se um ser tímido, vulnerável,
sem iniciativa vontade
própria.
Aprendera a sorrir e sempre dizer sim na tentativa de
agradar,
ira nunca o tivesse conseguido. Como um animalzinho ferido,
vivia pelos cantos da casa
sem manifestar a sua presença.
Envolvida por estas lembranças, mecanicamente abriu o livro
que trazia
mãos e que em cujas páginas, como por uma incrível
coincidência, estava
escrito:
“Para viver em plenitude é preciso estar em perfeita
sintonia com a e suas
eventualidades.
E seguir sempre em frente sem medos e sem receios, sobretudo
saber sorrir, sonhar, sofrer; sem temer a própria vida e
suas vicissitudes. “
Envolvida por estas filosofias que tocaram profundamente o
seu interior e os encantos emanados pelo entardecer,
deixou-se levar por mais um de seus
frequentes devaneios,
transportando-se pelos longos caminhos da imaginação.
E aí
começou a caminhar sem um determinado destino. Após muito
andar, parou para meditar, e de repente,
não sabia quem era, nem o que esperava da vida.
Olhou os prados verdejantes, a estrada que parecia não ter
fim e seu olhar se
perdeu em um pequeno riacho que,
mansamente, corria em seu curso natural, deixando
deslizar águas límpidas e cristalinas.
Não saberia dizer por quanto tempo permaneceu naquele lugar,
nem conseguiria traduzir
o turbilhão de pensamentosque
se passaram em sua mente. Só se
sabe que, quando voltou à realidade, uma ternura imensa
invadiu seu coração,
transbordando dentro de si uma infinita paz...
Finalmente, encontrara o seu eu, que há muito procurava,
inutilmente.
Sentiu
não ser mais a mesma pessoa e sim um ser dotado de valores e
essências, até então, adormecidas
dentro de si. Percebeu naquele momento que também era
capaz de prosseguir como o curso daquele riacho.
E assim, como aquelas águas
são sinônimas de vida a
muitos seres, também ela, era um pequeno fragmento que
fazia
parte da humanidade e que em qualquer momento que sua
presença se fizesse
necessária, deveria estar sempre firme, para que se
cumprisse o plano traçado
para sua vida, realizando assim, a missão que lhe fora
confiada.
Com a alma cheia de alegria, viu-se invadida por uma
felicidade imensa, pois
havia descoberto, entre outras
coisas, que nada, nem ninguém, está aqui por
acaso e que todos temos uma missão a cumprir.
Depende de nós torná-la importante, ou uma simples
incumbência rotineira, mas é sempre nobre diante daquele
que nos confiou.
Segura e confiante, prosseguiu sua caminhada impulsionada
por uma força
que jamais conhecera. Iniciou-se uma nova etapa em sua vida
e com ela, a difícil e
árdua tarefa da concretização do encontro consigo mesma e da
realização de seus
ideais.
Sabia que os caminhos eram longos e sem desvios, mas era
necessário percorrê-los com a cabeça erguida
e os pés no chão. E assim fez...
É certo que sofrera. Não fora uma caminhada fácil. Por
várias vezes,
entre conquistas e derrotas, sentiu-se desanimar, mas
impulsionada pela força da transformação, sempre encontrava
a coragem para prosseguir.
Hoje, alguns anos após aquela milagrosa mudança, juntando
retalhos de
sua vida em uma pequena retrospectiva de tudo o que viveu,
sofreu e conquistou,
sentiu com alegria que nada fora em vão.
Pois de tudo o que conseguiu realizar até
agora, o que mais a satisfaz é olhar o velho casarão e vê-lo
totalmente restaurado, bem estruturado e em suas
dependências, abrigando crianças, filhas do abandono
ou das
adversidades da vida. Crianças que adotara e acolhera para o
aconchego
do seu coração.
Crianças que riem, brincam e vivem em nível de plena
igualdade com os seus filhos e que deixam
em cada canto, cada espaço da casa, uma réstia
de luz e esperança.
Respirou, profundamente, fitando o horizonte. O espetáculo
era magnífico!
A paisagem era a mesma de
outrora, mas, vista por um prisma diferente,
emitia-lhe
mensagens de confiança e a certeza de que a vida é realmente
bela e digna de ser
vivida em toda a sua plenitude.
Então, sorriu para si mesma, sentindo-se como uma pequena
larva que ao se desprender do casulo triste e solitário de
onde apenas contemplava os encantos
da vida,
sem conseguir vivê-la. Transformou-se numa borboleta livre,
feliz, e conquistou
o universo.
Ana Baptista
Alves
Nasceu em Alvinópolis no dia 24 de junho de 1939.
Filha de António
Basílio e
Efigênia Catarina Alves.
Trabalhou na fábrica de tecidos da Companhia Fabril
Mascarenhas em Alvinópolis até aposentar-se.
Na
terra natal fez o curso de magistério na Escola Estadual
Professor Cândido
Gomes.
Sua diversão predileta é a leitura.
Tem como “hobby” escrever contos.
Chama-se Ana Baptista numa homenagem ao Santo do dia em que
nasceu,São João
Batista.
Foto :
Beneficência Popular de Alvinópolis. Gjunior 2011
Do livro Literatura
Alvinopolense - Terceiro Movimento
Numa excelente inciativa de José Afrânio Moreira Duarte
e Ana Maria Terrôla de Menezes, este livro foi lançado em
Alvinópolis no ano de 2004.
No livro são citados os vários escritores, da nova e antiga
safra de Alvinópolis, relembrando contos e poesias. Pequenas
lembranças de uma terra rica em cultura.
O Alvinews irá citar alguns poetas do livro, procurando
mostrar pra você um pouco da nossa literatura.
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