O Baile hippie

 

Ana Maria Magalhães Barreto


 


 

A semana tinha começado animada,
O tão esperado baile hippie seria no próximo sábado.
A calça Lee já estava a caminho, era caríssima!!!
Tive que redobrar meus trabalhos na mercearia do meu pai e adular minha mãe pra sair a grana, mas desta vez teria a tão sonhada calça jeans.
 

À noite, segunda, terça, quarta, quinta e sexta, encontrava a turma pra gente fazer os planos, juntar os sonhos, encher de expectativas nossos corações adolescentes.
Bem em frente da minha casa, morava a costureira, Alaide (Lala, para os íntimos). Ela adorava ver a gente chegando com os cortes de tecidos, onde com seu bom gosto, inventava cada roupa... parecia o Clodovil.
 

Pra esse baile tinha bolado um colete todo de franja, em couro preto. Adorei a ideia!
Meu Deus! Onde vou conseguir o couro?
Lembrei de Sô Raimundo Nazário.
Ele fazia arreios de couro.
Vai ser lá mesmo que vou conseguir um pedaço com ele.
Quinta-feira consegui convencer Seu Raimundo.
Ele, que estava acostumado a lidar só com cavalos, custou pra entender que um pedaço de couro daria um colete.

Resolvi ficar calada, queria ser a única no baile a usar um colete de couro com franjas, pra isso, contei com o silêncio também da Lala.

Faltava uma coisa: as botas!!!

 

 

Nunca tinha usado botas, nem dinheiro tinha pra comprar.

Lembrei que tinha visto algo parecido no Sô Raimundo Nazário.
Ganhei foi xingo, afinal aquela guria, meio maluca, atrevendo-se a usar uma bota de vaqueiro, ainda por cima, pra ir dançar?
Saí de lá com a bota, ele deu até um arremate com franjas, pra combinar com o colete.

Ai!!!! Que aflição gostosa!
De sexta pra sábado nem consegui dormir direito, só pensando
no baile hippie.
Sonhei que fiquei tão linda, tão doidona, tão hippie que aquele garoto, por quem eu estava me desmanchando , ficou de queixo caído por mim.

Sábado! Dia lindo!
Lavei meus cabelos encaracolados, sequei-os ao sol, pra ficar com muito brilho (nem tinha salão por aquelas bandas, ainda), fiz as unhas, passei esmalte vermelho pra combinar com o batom morango da Avon. 

Lá pelas sete horas da noite fizemos uma concentração na praça.
De longe, estava a galera masculina, de olho na gente. 
Só com o olhar, já dava um sinal que estaria nos esperando no clube. 

 



Dez horas da noite...
Esqueci de dizer que o Industrial (esse era o nome do clube) ficava de frente da minha casa, do outro lado da pracinha.
E que era a primeira vez que minha mãe deu carta branca pra eu ir sozinha num baile, era demais! 
Dez horas da noite...
Atravessamos a praça, coração na goela, qual foi meu espanto!
Não tinha nem mesas, nem cadeiras dentro do clube.
Só o palco, onde o conjunto "Os Morcegos" botava pra quebrar!

Espalhamo-nos pelo chão do clube, que nem hippie.
Também, com minha calça jeans, senti-me livre, leve e solta.

Bebi meu primeiro HI-Fi, dei o primeiro trago no cigarro, e beijei muiiiiiiiiiiito.
Saiu todo o batom.
Tem, até hoje, gosto de "quero mais".

 

Ana Maria é alvinopolense e escritora.

Contato : anamagnunes@yahoo.com.br

Blog : http://anamineira.blogspot.com