Na luz da memória

Ana Teresinha Drumond

 

 

                                                                              À Família Vasconcellos Barcellos

Consternada, recebi a notícia do falecimento de Dona Judith Vasconcellos Barcelos. Lamentavelmente poucos alvinopolenses, de hoje, têm consciência do expressivo valor e representatividade daquela criatura – uma das criações mais divinas advinda para nossa Alvinópolis. Excelente professora de Matemática, ela soube dedicar sua vida ao ensino com sabedoria, envergadura  e benignidade.

Como as irmãs, D. Diva - querida professora de Português – e D. Judith souberam lutar com desprendimento e desambição para trazerem à nossa cidade o Curso Normal!  Quantas viagens à capital mineira elas laboraram, por conta própria, em um tempo em que estrada não havia praticamente! Quanta negociação foi necessária para convencerem políticos da época que o Curso Normal seria benévolo a Alvinópolis!  Vale lembrar que naquela época não se falava em democratização de escola. A escola era para poucos que tinham poder econômico para fazer o Curso Normal em Mariana ou Ferros ou em outros colégios internos que ofereciam o curso, em regime de internato,  por alto custo.

Diante disso, pelas mãos delas; e claro, endossadas por outros compatrícios plenos de espírito de cidadania, na década de 60  inicia-se o curso Normal em Alvinópolis cuja primeira formatura foi celebrada em 1965.

Ressalto, aqui, as eternais ações sociais perpetradas pela família Barcellos, além dessas, o legado de exemplo, de sabedoria, de cultura e simplicidade é imensurável, é memorável aos parentes, amigos e à  própria cidadania alvinopolense.

Mas a dupla não parou por aí, em outra jornada, com a mesma intrepidez, seguem as irmãs Barcellos para Belo Horizonte em busca de outro sonho - como boas mestras da educação: plantar o primeiro “jardim de infância” em Alvinópolis. A Escola Infantil “Dona Edith de Vasconcelos” – denominação escolhida por elas -  teve seu início de funcionamento na “garagem” da família Barcellos, mais tarde em uma casa de aluguel e, depois, no prédio atual. Ainda cumpre salientar que, em Minas Gerais, a Escola Dona Edith de Vasconcelos era uma das poucas amparadas pelo Estado.

 

A participação de D. Judith não se restringiu apenas no âmbito educacional. Lembro-me, quando criança, ouvir as “Ave-Marias, os Tantum Ergum Sacramentum  solados por Dona Judith no  harmônio, durante as missas festivas e de domingo na Igreja Matriz e a regência do coral  ( composto pelas cantoras Darquinha de D. Tita, Maria de Durica, Zinha de D. Alina, Maria Izidora, Pitita, Neném e Naná Batista, Maria de Micaré, Tina de Leonídio e Neca de Seo Tunico Alves). Além disso, D. Judith preparava e ensaiava a criançada para as magníficas coroações durante todo o mês de maio – de 1º a 31- a cada dia um canto diferente. Trago, na lembrança, como se fosse hoje, uma das canções mais belas que, eu e tantas outras crianças, aprendemos com ela sentadas nas escadas da entrada da Matriz em plena 1:00 hora  vespertina:

 

”Como velo de ouro/ velo de ouro e neve

Leve, leve, bem de leve/ cai a graça lá do céu”

 

Quero, outrossim, dizer do meu sentimento aos seus familiares e que a passagem de D. Judith por este mundo ficará para sempre - por tudo o que fez, criou e deixou à posteridade. Seus amigos, colegas e ex-alunos não a esquecerão em suas memórias e preces. Que Deus lhe dê as luzes do Paraíso para que, lá, possa ela continuar exercitando as artes que tanto soube amar!

A despedida a D.Judith foi marcada pela simplicidade que ela sempre viveu. Antes de concluir a celebração de exéquias, Ir. Ilda abriu espaço para aqueles que quisessem se manifestar. Ir. Helena, com emoção, lembrou-se da importância de D Judith para o crescimento do ensino em Alvinópolis. Sua sobrinha Lucília declamou uma estrofe de um dos poemas de seu pai, Dr.Geraldo V. Barcellos, irmão de D.Judith :

 

“Não temo, escolhos, soalheira

Mesmo que eu ande de rastro

Meu corpo vai ser poeira

Mas minh’alma vai ser astro.”

 

Também alguns dos presentes ressaltaram a importância de D. Judith. Para Alvinópolis, além da extraordinária professora de Matemática que foi, a musicista excepcional, a cidadã consciente e ativa. Enfatizou-se ainda que a cidade “devia” e agradecia a alguém, muito especial, que participou na construção da história educacional e cultural de nossa amada terra.

Quando Fernando Pessoa disse:

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas/E se tornar um autor da própria história./É atravessar desertos fora de si,/Mas ser capaz de encontrar um oásis/No recôndito da sua alma./” E termina  o  poema : Pedras no caminho?/ Guardo todas, um dia vou/ Construir um castelo”.

D. Judith já encontrou seu castelo, construído não de pedrarias duras, mas das riquezas de alma que soube edificar em sua morada terrena e “foi enfeitar a coroação de Maria no céu”.

Ana Teresinha Drumond Machado é alvinopolense, professora e escritora.

Email : anmchd@robynet.com.br

 

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