O tão sonhado Jardim do Éden

 

Ana Teresinha Drumond

 

 

 

Flor de Laranjeira

Sou o símbolo da casta virgindade,

Sou a grinalda que as noivas vem coroar...

Levando-as vou, tão cheias de saudade,

Do lar humilde até a cruz do altar.

(Alphonsus de Guimarães)

 

Embora tenha eu a firme convicção de que somos nós os arquitetos de nosso cotidiano e, por meio dele, criamos e vivemos nossos respectivos céus e infernos; alguns lugares nos assessoram a trazer a realidade como moldura  dos  olhos. Hoje vivi mais uma cena de  uma riqueza natural que vai além do esplendor!

 

Estou  aqui,  neste 15 de  agosto  de 2011, escrevendo esta  crônica,  entre raios de um sol,  ainda apagado pela  friagem  da  manhã,  lembrando-me  dos meus virginais    tempos   de   ainda   criança,   lá...  ...  na Rua de Cima, Rua do Rosário 177.

 

Nenhuma nuvem no céu - um dia perfeito de inverno a quase  despedir-se  de nós. As orquídeas se preparam para  vestir  com  sua  graciosa   e  delicada  beleza  o  jardim. O canto  do  bem-te-vi,  bem  na  pontinha   da  jabuticabeira, faz a marcação de boas vindas: ao sol? À natureza? A mim? Pouco importa a quem ele deseja dar Bom Dia! Formidável é ver-me abraçada por uma tranquilidade ímpar.

 

 

Todavia o cenário natural dá-me de  presente  muito  mais: escondido  por entre  a  singeleza  das  flores da laranjeira, o cochichar entre os pássaros  prenuncia  a imediata  aterrissagem  sobre  o  tabuleiro do matutino “breakfast”.

 

 

Ensaiam...  Uns descem apressados, outros com receio, de soslaio, ainda outros destemidos e pelo tamanho acreditam (que tamanho é poder... Só que quando o poder sobe à cabeça, o desrespeito desce ao coração).

 

O bailar dos canários-da-terra é calmo e eles se vêem íntimos daquela usança diária.  Os papas-arroz... Esses, coitadinhos!  Com humildade embicam grão por grão de alpiste, entrelaçados às abusadas rolinhas que se valem do  tamanho  para uso da   autoridade.  Poderosas!  Comandam o espaço – quando elevam as asinhas como a dizer: “quem manda aqui sou eu”. Sanhaços, flamengos... Cada qual se incumbe de salvar seu bocado. A vozearia dos pássaros compõe a orquestra em sons de alegria tecida pela alada meninada.

 

 

 

Fácil, então, sentir que Paradaise is Hear”! Fácil descobrir que o paraíso não se  encontra, apenas, no além. Fácil sentir que ele mora também aqui, no quintal da minha casa.

 

Então, acordei que aquele paraíso foi vestido devagarzinho, cativado com o frescor da água, nutrido com rica misturinha de sementes, composto por cada árvore assentada no quintal, plantada pelos próprios frequentadores (uma altiva palmeira imperial foi  plantada  por  uma dessas aves    - parceira ecológica).

 

Diante de mim, a imagem é de fascinação. Meu Ipê se encarrega  de  descer o cortinado amarelo como adorno ao  cenário. Somente uma ingênua natureza  bucólica pode impelir-me a repetir como Pessoa:“Às vezes ouço passar o vento... e só de ouvir  o  vento  passar,  vale a pena ter nascido”.

 

Mergulhar nesta paisagem é algo indescritível, mas real! Inenarrável! Quando os anos se multiplicam as virtudes, a aprendizagem, os valores tomam uma nova grandeza, uma outra correnteza  e a gente  passa  a priorizar, de fato,  valores  vinculados à qualidade de vida, passa a ser  grato  a  cada  dia  que  amanhece, a cada segundo neste planeta tão agredido.

 

Todavia não basta apreciar, urge conservar e cuidar para que outros venham herdar também  a  graça  do paraíso terrestre.  Eduque em casa.  Eduque seus filhos, netos.  Eduque.   Eles aprenderão.  Assim como eu aprendi com a minha querida mãe, Dona Ritinha Drumond, – como a chamavam - cuidar das plantas; e com papai também amado, Zé Drumond, gostar dos pássaros. “Eu passarei.... Eles passarinho.”

 

Neste  momento  penso e  ainda cogitar:  por  que  as  pessoas dispensam tanta energia e tanto dinheiro em guerras? Por que tanto esforço inaudito por bens materiais, por disputas, por poder? Por quê? Se o bem-estar e o equilíbrio podem estar presentes em um espaço de singeleza, diante de nós mesmos a ponto de colacioná-lo ao paraíso?

 

A descoberta do paraíso reforçou-me a convicção de que a busca pelos conceitos inerentes à poesia, às artes, à natureza - cuja beleza penetrante poderá ser acessível e próxima (se construída) – são formas de apregoar a paz, viver sadia e saudavelmente.

 

Ana Teresinha Drumond Machado é alvinopolense, professora e escritora.

Email : anadm5@hotmail.com

 

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