Homenagem a Lourdes

 

Para Maria Helena

 

Ana Teresinha Drumond Machado

 

 

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que

nada do que vivemos
Tem sentido,

se não tocamos

o coração das pessoas.

(Cora Coralina).

 

 

Lembrei-me deste trecho para epígrafe desta crônica pelo testemunho de doação, de amor recíproco e ocular vividos desde menina até o dia nove de abril de 2010, durante os momentos finais de vigília em despedida da tão querida ML, Lourdes ou Tia Lourdes - como a chamávamos.

 

Tia Lourdes se foi, foi sim. Todavia é mais do que esperável, àqueles que crêem, que ela tenha o seu espaço celeste pela Glória de um Pai de Misericórdia. Mas, permita-me Deus dizer – Tia Lourdes preparou a sua estrada e reservou seu cantinho desde criança: soube servir, soube ter serenidade, soube viver a fé e soube, sobretudo, exercitar o mais casto amor. Ainda criança foi para a casa de Vovó Nhanhá e por lá foram anos de dedicação e participação exclusiva naquele seio familiar. Depois de meus avós, Zózimo e Nhanhá, falecerem, tia Lourdes foi morar com uma das filhas da família, - Nita - que era naquele momento, quem mais necessitava de apoio, uma vez que Joãozinho acabara de nascer. Ao chegar lá, disse-lhe Nita: Lourdes, você foi escolher justamente a casa mais pobre? Aqui vai trabalhar muito! ... Mas... se é o que quer, vem cá pra dentro! Assim, por lá Lourdes ficou mais uma vida – quase 56 anos.

 

“Ó Fulô! Ó Fulô!”

 

Felizmente, mesmo de morada na casa de Tia Nita de João de Vina, os demais frutos de vovó Nhanhá tiveram a graça também de usufruírem dos casos, da alegria e da bondade de Lourdes. Foram anos de convívio diário. Lavou roupas na casa de mamãe, na de Ritinha de Darcy , em cujas passadas semanais Tia Lourdes deixava suas histórias saborosas.

 

Meio ao documentário tecido por ela, há muitas passagens memoráveis - o que por economia e respeito para com o leitor elucidarei apenas algumas.

 

Como pombos a catar migalhas, em uma daquelas visitas semanais, nós, rodeados em volta dela, Tia Lourdes disse:

 

- Ah! Titinha. Eu não casei não, mas se eu tivesse de casar eu ia escolher ou um soldado, ou um circulista, ou um cigano.

 

Mamãe logo a arguiu:

 - Porque esta preferência, Lourdes!

 

Com aquela risadinha, que lhe era peculiar - branda– assim como vivia, respondeu:

 - Ah!!! È só pra passear muito! Cada dia eles tão num lugar...

 

Outra boa de Tia Lourdes: ela não podia ver um congado que abandonava qualquer trouxa de roupa, pegava-me pela mão e íamos atrás do tambor... Rua São José, Rua do Rosário, Rua Melo Viana ... abaixo e acima ... íamos, íamos nós.

 

 Mesmo diante de total  humildade vivida, Lourdes teve uma riqueza de vida,  um velório e um sepultamento dignos de uma rainha, o que representava para todas famílias as quais tiveram  o privilegio de conviver com pessoa simples e ao mesmo tempo tão cheia de nobreza.

 

Padre Flávio e Lourdes.

 

Foi de causar comoção aos presentes na cerimônia de exéquias quando Pe.Flávio, além de suas ricas palavras evangelizadoras, abriu espaço entre os presentes, a darem seus depoimentos de convivência com tia Lourdes. Naquele momento, com singeleza e humildade, Maria Helena agradeceu a oportunidade de seu crescimento como pessoa adquiridos nestes últimos anos de vida com aquela pessoa tão simples, mas que, com um mix de sabedoria centenária soube ensinar-lhe tantas coisas como as ditas entre palavras embargadas de dor: “eu quero agradecer a Lourdes pelo o que ela me ensinou, principalmente,  a ser resignada, saber esperar, ter  paciência ... diz Maria Helena.

 

É certo que brincadeiras, risadas e exemplos deixados por Tia Lourdes não cabem aqui,  cabem e moram em nossos corações pela grata e santa convivência com ela.

 

“Essa negra Fulô!
 Essa negra Fulô!

 Essa negrinha Fulo!”

 

Ah!!! Esta negra (do que tanto se orgulhava) permanecerá em nossas memórias pela forma que soube viver!

 

Sabemos que a morte faz cicatriz de ferro quente dentro do peito. Mas nesses quase cem anos de vida de Tia Lourdes, principalmente, à família de Nita, a tatuagem negra será indelével e só aplacará a ausência física; neste sentido, há um vazio sim. Porém usando de um silogismo a partir do filosófico Sartre cuja premissa maior era “o nada é em oposição ao ser”, que é o existir de algo ou de alguém”. Lourdes se tornará viva em vários corações. Logo, ela é um ser especial para os Carvalho e tantos amigos, cuja perpetuação ficará em nossas lembranças.

 

Encerro esta crônica com as últimas estrofes de um poema que dediquei a ela pelos 98 anos, quando escrevi:

 

  

As divas são perenes.

Tia Lourdes é e sempre será perene

em nossas famílias, em nossos corações.

Dádiva de Deus.

Turmalina negra? Esmeralda? Topázio?

Sim, pedra preciosa da mais

profunda  sabedoria, proteção,

equilíbrio e amor.

 

Tia Lourdes! Negra diva da família.

Proteção e Bênçãos nós

rogamos  por você à nossa

SENHORA  MÃE  DE  LOURDES.

 

E agora, profundamente agradecidos, somente podemos lhe dizer: você fez sua história, conquistou sua glória, então, como filhos, continuamos a pedir-lhe:

Rogue a Deus por nós.

 

Ana Teresinha Drumond Machado é alvinopolense, professora e escritora.

Email : anmchd@robynet.com.br