O falar do silêncio

 

 

Ana Teresinha Drumond Machado

 

 

 

 

Um domingo parecido com outro qualquer!

Para mim bem dessemelhante em amplos sentidos.

Como habitual procedimento de herança familiar, renovei a alma com as palavras santas do Evangelho deste domingo. Café da manhã com Júnior, Flávia e o netinho, visitas amigas, passatempo com João Pedro...

De súbito vi-me só. Totalmente só. Vi-me diante de um longo, longo vazio. Era o silêncio acordando imagens decorridas, pensamentos presentes e projetos futuros. E para dizer a verdade não tenho queda para melancolia, nem para solidão. Então ficamos ali: eu comigo e a natureza. Saboreei a fala dos pássaros – uma orquestra alada em cima de meu amarelo ipê, das folhas bailarinas podia-se ouvir o contra canto... Lá fora, só anda o vento.

 

Confesso que fiquei estremecida com a dor do silêncio, mas a vida ensinou-me a ser rodopio: “desatar os nós”, dar a volta por cima. E dei!

Diz-se que depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música. Lembrei-me dela como abrigo para a solidão. Cheguei até ao meu “devedeoteca”,   -   permita-me o neologismo – separei alguns DVD’s especiais: Bocelli, Chico, Sosa, Djavan, Renato Teixeira, Gal, Bethânia.

Ouvi Renato, Gal, Chico e finalizei a tarde tendo como companhia Bethânia cantando “Maricotinha” – presente amigo de Delinda. Meu Deus! Que maravilha! A música tornara poesia e a poesia tornara música. Aí, sim! Minha imaginação se enfeitou e ideias coloridas tornaram minha alma fértil, lembranças floradas de amigos que, como eu, degustaríamos este momento como se a beber um "Les Trois Puechs". Omitirei nomes para não acender despeito, mas você amigo(a) está aqui, sabe disso.

 

 

Tecia uma guirlanda natalina – já estou preparando o artesanato “RitaeNina” para o final de ano – mas como dizia, tecia ponto a ponto cada palavra de Maricotinha. Um show é pequeno demais como denominação! Um musical... um sarau ... Um encanto de música, poesia e interpretação povoavam a minha feliz solidão. Em silêncio, conversei com um aglomerado estelar de primeira grandeza: Fernando Pessoa, Caymmi, Edu Lobo, Chico Buarque, Chico César, Caetano, Gil.

 

A tarde andou leve, serena, musicada. Cingida de arte! Somente esta contemplação artística seria capaz de ocupar o vazio pela ausência de quem a gente ama. Como nos diz o mestre da arte literária em Escutatória:  “E aí quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio”.

 

Vale ressaltar que faz aproximadamente dois anos que não concentro o pensamento para nem riscar ou desenhar um texto. E assim, “o bonito desta vida é poder bordar sonhos, costurar histórias e desatar os nós de nossos dias”.

Esbocei minha história! De volta , bordarei o final da guirlanda natalina.

 

Ana Teresinha Drumond Machado é alvinopolense, professora e escritora.

Email : anateresinhadrumondmachado@gmail.com

 

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