Sensatez ou insanidade?

 

Ana Teresinha Drumond Machado

 

Sim, somente um louco pode se dispor

a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos ...

                                                (Mário Prata)

 

           

            Depois de prazerosos e alongados dias em Zamora - província situada na parte oeste da comunidade autônoma de Castela e Leão, no oeste de Espanha, cheguei a nossa histórica cidade – minha e de Juscelino Kubitschek – e em casa encontrei uma carta meio indecifrável, mal fui capaz de ler a assinatura do amigo, mesmo com a  intimidade que nos unira por tantos anos.

            Depois de uma aflitiva leitura ao que era exposto, exclamei: estou mesmo resoluto! Hoje me disporei a desvendar o mistério da estranha doença que acometera meu particular amigo. Vesti a camisa. Decisão tomada, Elvirinha! Estou de partida.

            Determinado, estendi o mapa de Minas sobre o escaninho, dei um rodopio com a mão sobre a localização da cidade onde encontraria meu grande amigo – Ponte Nova, zona da Mata nas Minas Gerais. Fechei os olhos e pensei comigo mesmo: hoje o meu norte é menos distante que a Europa,  não preciso ser um desbravador, apenas chegar lá.
            Parece-me um tanto amedrontadora esta deliberação, descer todo o Jequitinhonha, de Diamantina até uma pensãozinha em Ponte Nova.  Sei que muita “poeira” ficará para trás, mas sem objeção, o meu escopo já está mais para uma psicose.

            Acordei junto com o Sol. Convicto, reuni meus apetrechos: mala nas costas. Conferi o carro e desci pelo Vale do Jequitinhonha. Mesmo sentindo aquele friozinho percorrer-me pela espinha, não recuei, mantive-me irredutível. “Afinal de contas, o que sou eu? Um homem ou um saco de batatas?” – perguntei-me a mim mesmo.

            O calor estava estonteante, quando vi a Igreja de São Miguel e Almas, fiz o sinal da Cruz e supliquei: São Miguel, leve esta pobre alma até seu destino!

            Apertei a aceleração. As serras enfumaçadas ficavam para trás. A lua prometia uma noite aos apaixonados, o que me trazia um prenúncio de uma viagem alongada até alta madrugada. Não foi de outra maneira! Quando de surpresa, já me aproximava dos saborosos café e queijos do Serro. Feito o lanche e logo de saída da Padaria “Pão Mania”, escutei uma voz forte, possante, chamando por mim:

            - Fernando! Fernando! Caramba! Há quanto tempo não nos encontramos?

            - O trabalho quando muito, Fausto, consome a gente e os amigos.

            - E a nossa turma da UFMG de 80 em Psiquiatria?

            - Sumiram todos. Cada um abarbado com seu fardo de preocupações próprias e alheias.

            - E você, Fausto, como está?

            - Agora sou fazendeiro, deixei o consultório e passei para o comando de minhas coisas: exporto gado. Você continua atendendo na  Psiquiatria?

            - Sim. Há quase vinte e oito anos. Gosto do que faço!

            - Bem amigo, foi ótima esta “carona”, assim, acertamos as agendas pessoais, porém fico por aqui, porque tenho um grande negócio para fechar em Governador Valadares. Apareçaem Guanhães. Será com grande prazer que irei recebê-lo em minha casa..

            - Oportunamente irei, saudações à família!

            Continuei viagem. A noite desceu e o cansaço tomou conta de mim. Providenciei o primeiro hotel – Hotel Ipatinga Pálace – nem o intenso calor daquela noite roubou-me o sono. Despertei cedo, logo desagüei em João Monlevade, Rio Piracicaba – terras do minério – até chegar a Alvinópolis.

            Lá me perdi plenamente. Não sabia o sentido que deveria tomar para encalçar meu destino. Como o empenho para  encontrar meu amigo superaria quaisquer obstáculos e,  suspeitando estar por um caminho errado, parei, recuei o carro alguns metros até ficar  diante de um senhor, negro, de baixa estatura, semblante pacífico, sentado a tomar sol à porta do prédio da cadeia pública e indaguei-lhe:

            - Aqui mesmo é que vai para Ponte Nova?

            - As  vez  vai, as vez  num vai ! –respondeu ele, abaixando a cabeça gauchescamente.

            - Alguns metros à frente, eu avistei outro senhor: alto, magro, moreno, cabelos grisalhos, e repeti a mesma pergunta:

            - Aqui vai para Ponte Nova?

            - Tá doido, minino, bebeu garapa do Zé Cota? Tá doido, Antônio, tá doido? -disse-me com indignação.

            Arranquei o carro. Logo abaixo, vi a figura de uma mulher que subia hilareamente, o morro que era conhecido como de D. Pitu e refiz a pergunta:

            - Aqui mesmo é que vai para Ponte Nova?

            - Oba, tá danado de bão, tá danado de bão, tá chegano home de Monlevade pra nós !

            Obstinado em minha idéia, a esta altura já nem sabia onde me encontrava, indaguei, de forma auspiciosa,  à primeira pessoa que vi:

            - Aqui mesmo é que vai para Ponte Nova?

            - Contrariamente ao que eu esperava ouvir, canta o homem:

            - “Hoje o Dalua não veio, hoje o Dalua ficou..hiiiiiiii .”

            De forma conturbada, como a querer sair de um pesadelo, acelerei o carro e apavorado exclamei: Ufa! Esta cidade só tem doido! Ao que uma voz contrapôs à minha exclamação:

            - Doido nada, moço! Mais doido fica quem ouve e medica um insano, um lunático como eu.

            Neste momento ri, ri muito. Mais feliz do que Napoleão depois de uma batalha ganha, procurei voltar à minha casa, pois minha turnê à Espanha fora menos implexa que esta, posso regressar nesta cidade, porém só para me capitalizar...

            Presentemente, só sei que nada sei. Sei que apenas que sou um peregrino místico no sagrado caminho da obscuridade.

 

 

 

Ana Teresinha Drumond Machado é alvinopolense, professora e escritora.

Email : anmchd@robynet.com.br