Tiruliro: nosso ditoso amigo

 

Ana Teresinha Drumond Machado

 

 

 

Tiruliro

 

“Os animais foram criados pela mesma mão

caridosa de Deus que nos criou. É nosso dever

 protegê-los e promover o seu bem-estar".

- Madre Tereza de Calcutá -

 

Quem disser que todo vira-lata nasceu para  ser rejeitado ou desarrimado cometerá um ledo engano. Prova disso é um cachorro – puro na estimação - de nossa Alvinópolis que soube criar laços de amizade e perpetuar-se na história de muitos daqui.

 

Seu histórico começou trágico: ainda filhote, quando estava sendo levado para uma moradia na zona rural, junto a sua mãe e o restante dos filhotes, saindo da cidade caiu da carroceria de um caminhão no Bairro do Souza e logo encontrou uma mão generosa que o acolheu, alimentando-o em mamadeira.

Deste modo cresceu o cachorrinho de nome ignorado. Era um cão sem raça, aqui entendida como linhagem. Porque a outra que caracteriza os destemidos, essa ele a tinha. E muita! Vira-lata, muito simpático, pequenino, de pelo curto e originalmente branco – por um tempo encardido de tanta terra vermelha - cativava de imediato a todos que dele se aproximavam, todo charmoso, o rabinho espalhava no ar toda sua alegria.

 

Depois de crescido, começou arriscar uma passiadela do Bairro Souza até o bar do Pedro. Por muitas vezes, segundo contam, esse trajeto se repetia. De repente, o cachorrinho de rua, arriscou uma caminhada mais distante e chegou até o Gaspar, onde encontrou outros amigos e o “bom filho não voltou mais à casa materna”. Virou morador do Gaspar. E, logo, novas conquistas foram acontecendo, dessas amizades que amadurecem igual fruto – lentamente.

 

O primeiro a fazer-lhe agrado foi Maurício Lima. Batizou-o com a alcunha de Tiruliro – inspirado por um filme que acabara de assistir, cujo personagem, dentre outros,  era o cão Tiruliro.

 

 

Independente, boêmio e conquistador, Tiruliro aparecia e desaparecia a intervalos ditados por seus desejos caninos. Era imprevisível. Sempre bem-humorado e dotado de uma doçura única, só dele. Tiruliro era recebido com carinho e alegria por todos do bairro. Vez por outra, uma fugida. Um vacilo, todavia, trouxe ao cãozinho aventureiro o segundo acidente: atropelado por um automóvel, teve uma patinha  traseira quebrada e  recebeu o socorro voluntário e carinhoso dos jovens Maurício Lima ( Bife) e Tarcilo, este último,  até então, apenas um sonhador com a carreira de veterinário, mas já empenhado na recuperação daquele cãozinho, os dois juntos conseguiram colocar uma tala em sua perna traseira direita - e em poucos dias, mesmo que manquitolando foi aos poucos retornando ao convívio  das amizades que, a cada dia conquistava.

 

Como aquele simpático cãozinho viera, por um lado fadado à morte por um acidente, por outro, com o carisma de cativar as pessoas, carinho e  atenção  não lhe faltavam: no bar do César, ele quem era a majestade. Lá, eram-lhe reservadas regalias pouco comuns – no canto do bar uma manta ficava a mercê de sua hora da cesta, esta infalível. Além disso, participava das rodadas de bate-papos, das partidas de campeonatos, fazia caminhada com César e o levava, como fiel amigo, sempre depois de fechar o bar, até sua residência, portando-se como seu amigo guarda-costas protetor. Porém Tiruliro não entrava, pois ficava à espreita de uma “paquerinha”, haja vista, segundo estatística, feita por seus protetores, deixou uma descendência de setenta e dois herdeiros.

 

De vira-lata Tiruliro só trouxe consigo um legado: a autonomia... a alforria ... a liberdade.

 

Zé e Enaura como César e Lena, tornaram-se os mais fidos amigos, além deles havia aqueles confrades dos bastidores. Do convívio com Zé, há também passagens interessantes: logo de manhãzinha, Tiruliro chegava à casa de Zé e arranhava a porta. Enaura colocava-o para dentro, tomavam o café e ele acompanhava Zé até a sapataria. Quando chegava o horário do almoço, Zé dizia: “Tiruliro já vou almoçar e vou trazer seu  “papá.Conforme relato de Zé, tiruliro punha a mãozinha na cara e cochilava até chegar seu almoço. como uma criança entendida e obediente.

 

Outro detalhe interessante no elo de amizade do cão que não precisava virar latas, foi o de contrair o direito de tomar um banho periódico no Agrovitor – os amigos íntimos se responsabilizavam pela “vaquinha” e efetivavam o pagamento. Tiruliro andava sempre de pelos alvos e brilhantes.

 

 

A vida de Tiruliro não foi só de mimos, entretanto. Muitos infortúnios, seja por lapso dele, seja de outros, fizeram dele um cão azarão. Foi atropelado por várias e inumeráveis vezes: por moto, por automóvel, por bicicleta e, o pior, foi envenenado por duas vezes. Como o leque de amigos admiradores de Tiruliro era extenso, logo surgiam outras almas generosas e conseguiam livrá-lo do veneno com medicação doméstica.  Porém Tiruliro ficou doente, e muito. Como ele estava com muita diarréia e vômito, protegeram-no por debaixo de algumas tábuas na marquiz do Agrovitor com muito cuidado. Fraco, muito fraquinho ficou ele lá, sem reclamações. Pela meia noite, chega Maurício Lima e o encontra. Toma-o e o abriga em casa com mil cuidados. Medicado, Tiruliro luta e resiste à morte novamente – parece até que tinha fôlego de sete gatos!

 

 Alguns dias depois, ao amanhecer, Tiruliro já não gemia tanto e parecia sofrer menos. Foi quando dirigiu aquele olhar para mim Maurício Lima que disse: Santo Deus, quanta amargura! Parecia que sofria mais por estar confinado em um quarto do que pelas consequências do envenenamento. Acho que Tiruliro quer retomar a liberdade! – pensou  Maurício. É isso que ele quer. Vou deixá-lo ir – pensei comigo. “Se tiver que morrer que seja na rua, onde sempre viveu independente e livre”. Assim Maurício procedeu. Logo que Tiruliro viu a porta aberta, levantou-se com dificuldade e foi-se embora, lentamente, mas com os olhos brilhando de contentamento. Naquele momento Maurício diz ficar tomado por dúbio sentimento, mas com a certeza de que havia feito a coisa certa.  E, assim, Tiruliro retornou à boemia, à vida feliz, livre e independente que sempre vivera.

 

Os anos passaram... Tiruliro também passava e passeava pela cidade – o Gaspar tornara-se a sua casa.

 

Foi nesse acolhimento que o ilustre cão, charmoso e de estimação; como disse anteriormente, nunca precisara ser vira-latas, viveu bons anos sob a custódia de seus César e família  e Zé e Enaura, entre outros alvinopolenses anônimos.

 

Igualmente como o seu início foi trágico, o fim também: no dia vinte e cinco de dezembro deste ano, 2009, uma estrela apagou para muitos alvinopolenses - Tiruliro foi atropelado mais uma vez na Avenida Antônio Carlos, perto do Gasparzinho Lanches. O seu fim trouxe tristeza aos moradores do Gaspar, principalmente aos seus tutelares. Até Xerife - pessoa simples e morador na zona rural - procurou Zé e manifestou o seu pesar e indignação pela morte de Tiruliro, e concluiu dizendo: Zé, pra falar a verdade, se existe uma “pessoa” que eu gostava, aqui em Alvinópolis era Tiruliro.

 

Como se vê, Tiruliro tornou-se personagem da história de Alvinópolis. Queiram desculpar-me se omiti algum fato ou o nome de alguma pessoa envolvida nesse elenco. A história de Tiruliro não cabe somente em uma crônica como esta, mas, sim, em um livro a ser editado com merecida noite de autógrafo.

 

São merecedores de parabéns todos esses corações generosos que partilharam a pessoal humanidade com um cão de rua, humanizando-o como fiel amigo. E companheiro dos moradores do Gaspar. A Tiruliro a nossa saudade! Ao César e Zé de tio Inhozito meus agradecimentos pelos relatos.

 

Ana Teresinha Drumond Machado é alvinopolense, professora e escritora.

Email : anmchd@robynet.com.br