VINHOS E MEDITAÇÃO

 

Antônia Neves

 

 

Estamos na Quaresma, tempo de meditação, reflexão, penitência, jejum,.....

Sim, ainda existem este tempo, estes termos, esta crença, este olhar pra dentro.

Para muitos não passam de dias comuns, mas para outros tantos, ela é presente.

Pelo menos em mim, mesmo não praticante, tenho uma forte lembrança deste tempo de silêncio, de roxo cobrindo as imagens na igreja, das orações e jejum da minha avó, que eu ainda pequenina era também obrigada a fazer. Tempo bom, tempo de quietação!

Mas talvez para os dois grupos acima, uma coisa pode ser igual, comum: vinhos de meditação!

 

Mas o que é um vinho de meditação?

 

É aquele vinho agradável, complexo, misterioso, que nos leva a degustá-lo devagar, com atenção para descobrir, aos poucos, o que nele existe, quais os aromas mais intensos até os mais sutis, quais os sabores que nele estão entranhados, que fazem dele uma bebida divina, da quaresma e de todas as outras épocas do ano.

O vinho simboliza desde a época de Jesus Cristo, ou antes, uma bebida sagrada. O vinho ainda é a bebida das bodas, desde Canaã, que Jesus fez a partir da água, foi utilizado na Santa Ceia, e ainda hoje é usado nas celebrações eucarísticas, simbolizando o sangue de Cristo, só para citar alguns fatos importantes da história. Sem falar na antiguidade onde era usado pelos deuses do Olimpo, nas bacanais (reuniões de Baco, onde as donzelas serviam vinhos aos senhores mais ilustres e pensadores da comunidade), pelos faraós, pelos exércitos que o levavam para os campos de batalha, bebida dos heróis e dos soldados e também dos médicos antigos, que acreditavam que ele curava várias enfermidades.

 

Já diziam os sábios como Hipócrates (460-370 a.C.)

"O vinho é bebida excelente para o homem, tanto sadio como doente, desde que usado adequadamente, de maneira moderada e conforme seu temperamento.”, e

Platão: "Moderadamente bebido, o vinho é medicamento que rejuvenesce os velhos, cura os enfermos e enriquece os pobres."

 

Neste momento estou a olhar as montanhas verde-azuladas ao longe, pensando na vida, meditando.... olhando pra dentro, e sentindo o vinho que me acompanha neste momento de paz, intimo, silencioso. 

 

 

Sentir o vinho. ...... Sim, pois o vinho é uma bebida viva. Desde o momento em que o caldo da uva é transformado em vinho, através da fermentação, o vinho passa por diversas fases até agonizar em nossa boca, nos fazendo suspirar, em alguns casos, de prazer. Isso não é para meditar?

Sentimos o vinho através da cor, que nos diz se ele é jovem ou envelhecido, pelos aromas fragrantes, frutados, florais, minerais de sua juventude ou etéreos de sua maturidade e pela sua presença na boca com os sabores que nos mostram seu equilíbrio, qualidade, persistência e sua evolução. Sentimos o vinho por todas as sensações que ele nos proporciona, física e quimicamente, aliviando o peso de nossos ombros e fazendo a alma flutuar lentamente, até chegar numa fase de meditação, de desapego, de profundidade com nosso eu interno.

Busquemos um vinho que possa nos levar a pensar, refletir no ontem e no hoje para enfrentar o futuro e crer que Deus existe. Talvez ele esteja guardado n’algum lugar dentro de nossa casa, esperando para ser descoberto e libertado e......  sentido.

Se ainda assim não encontrar um vinho que te faça meditar, tome um copo d’água e fique com Sócrates (470-399 a.C.):

 

"O vinho molha e tempera os espíritos e acalma as preocupações da mente... ele reaviva nossas alegrias e é o óleo para a chama da vida que se apaga. Se você bebe moderadamente em pequenos goles de cada vez, o vinho gotejará em seus pulmões como o mais doce orvalho da manhã... Assim, então, o vinho não viola a razão, mas sim nos convida gentilmente à uma agradável alegria."

 

Mas se as palavras deste filósofo te aguçaram os sentidos e quer iniciar esta experimentação, comece provando algum destes:

- Crios de Suzana Balbo Torrontés - Argentina : vinho branco leve da uva Torrontés, pouco conhecida aqui, muito agradável e aromática.

- Cabernet Franc Premium - Casa Valduga, Brasil - vinho tinto da uva Cabernet Franc, de bom corpo, com aromas frutados como amora, cassis, ameixa, de violeta, especiarias e capim cortado, além de baunilha, ...., só pra começar, ou

- Terra Andina Carmenère - Chile - vinho tinto da uva Carmenère, variedade emblemática do Chile, de cor rubi (pode ser de sangue), vinho macio, fresco e frutado, taninos maduros, muito agradável;

e descubra seus mistérios.

 

Antônia Neves é alvinopolense.

Contato : alvinews14@gmail.com