O  país da Copa no copo

 

Antônia Neves

 

Vinícola em Caledon, na rota do vinho de Walker Bay, na província de Western Cape. (foto South African Tourism).

 

Diz-se popularmente que “o Brasil é o país do futebol” (será ainda?) e que “futebol vai bem com cerveja”, eu não sou tão crédula assim. Pra mim hoje, existem muitos países que mostram no futebol uma arte, sem violência, um esporte de qualidade, bonito de se ver. Assim como não comungo da idéia de que futebol só com cerveja, não que seja contra ela, ao contrário, um copo de cerveja de boa qualidade desce muito bem, no verão principalmente, mas também até antes de uma rodada de vinhos, pois lava a “serpentina” do organismo, nos preparando para a bebida mais encorpada (segundo alguns: “água enferruja”.).

 

Estamos na expectativa de vencer mais uma copa do mundo de futebol, desta vez no país do apartheid, do Mandela (grande homem), do Rei Leão, dos safáris, do Cabo da Boa Esperança, e também de bons vinhos. Não sei se lá se produz cerveja boa, deve ter, e também não sei se é um país de futebol. Mas sei e já fui comprovar pessoalmente, que é um país de bons vinhos.

 

O país produz vinhos desde 1652, quando os imigrantes holandeses tornaram o país no primeiro produtor da bebida no dito Novo Mundo vinícola.  O lendário vinho sul-africano, Vin de Constance, por exemplo, um branco doce feito de uvas Muscat, já no século XVIII tinha admiradores em todo o mundo. Mas a produção e exportação, só foi impulsionada a partir de 1805, quando os ingleses tomaram a Cidade do Cabo, que por sinal é linda, pra mim se compara ao Rio de Janeiro. Estes grandes consumidores, mas não produtores, passaram a importar vinhos sul-africanos em substituição aos da França Napoleônica, então em guerra com o Império Britânico.

 

Porém, a produção do país era de vinhos de baixo nível e só ganharia qualidade na década de 1970. Na tentativa de organizar e melhorar o setor foi criada em 1973 a lei de "Wine of Origin" (vinho de origem), copiada da Europa. Mas só após o fim da política do Apartheid, em 1992, quando voltaram a participar do comércio mundial,entraram verdadeiramente no mercado vinífero.

Hoje, a África do Sul é o 7º produtor mundial, com 800 milhões de litros. O consumo interno, no entanto, vem caindo nas últimas décadas e, atualmente, é de apenas cerca de nove litros por habitante (no Brasil atualmente é de apenas 1,9 litros por hab/ano), o que têm motivado os produtores do país a exportar cada vez mais. A África do Sul exporta não só vinhos, mas também mudas de uvas para vinho. Muitos dos vinhos brasileiros são feitos com mudas de lá.

 

 

As condições gerais são bastante favoráveis à vinha. Ausência de pragas, muitos vinhedos irrigados e clima ameno. A corrente de Benguela, vinda da Antártida, torna o clima mais moderado do que a latitude sugere, mais para mediterrâneo do que para tropical. O carvalho novo (usado nas barricas onde os vinhos amadurecem) é amplamente usado: francês, americano e esloveno. Os tipos de solos são os mais variados. Só em Stellenbosch (a região de vinhedos mais importante) existem mais de 50 tipos de terrenos, o que proporciona uma boa gama de vinhos.

 

Quanto às uvas cultivadas, a campeã (de quantidade, não de qualidade), é a branca Chenin Blanc, chamada localmente de Steen, com mais de 25% dos vinhedos do país. Além desta, as brancas Chardonnay e Sauvignon Blanc também marcam presença. A uva símbolo do país é a tinta Pinotage, obtida em 1925 de um cruzamento da Pinot Noir com a Cinsault. Possui uma característica nota doce no aroma e no paladar. É versátil e dependendo do tratamento produzirá desde líquidos leves, até os mais encorpados, para estágio em barricas de carvalho e garrafa, mas quando mal vinificada apresenta um aroma químico de verniz. Embora a Pinotage seja a mais típica, a maioria dos melhores vinhos que chega ao Brasil tem como base a Cabernet Sauvignon, Shiraz ou Merlot.

 

Para comprar vinho deste país, leia no rótulo "Wine of Origin", acrescido do nome da região. São cerca de 60 denominações reconhecidas (regiões mais indicadas para o plantio de videiras), nos níveis "region", "district", "ward" e "estate". Segundo John Platter, famoso especialista em vinhos desse país, as mais cotadas são: Stellenbosh, Paarl, Tullbagh, Swartland, Constantia, Durbanville, Robertson, Klein Karoo, Olifants River, Orange River, Walker Bay e Worcester.

 

Atualmente há 105 mil hectares de videiras na África do Sul, com destaque para as principais uvas: cabernet sauvignon, merlot, pinotage, chardonnay e sauvignon blanc. Aproximadamente 200 mil pessoas trabalham para o crescimento do setor vinícola. Só o turismo emprega cerca de 50 mil. A viticultura do Cabo é beneficiada por seu clima mediterrâneo, montanhas e vales.

 

Os vinhos sul-africanos costumam ter uma boa relação custo benefício.

Em viagem que fiz à África do Sul, em 2008, provei algumas surpreendentes e inesperadas delícias. Surpreendentes e inesperados vinhos da uva pinotage.

Ainda hoje degusto bons vinhos de bons produtores deste país, em grupos de degustação de que participo, mas limitados aos poucos produtores que aqui chegam trazidos por várias importadoras. Confesso que de todos que chegam por aqui, nenhum pinotage me fez a cabeça. Conheço bons shiraz, cabernets sauvignons, e sauvignons blancs desta terra.

 

Neste friozinho de junho que já chegou forte, uma boa pedida é ver os jogos durante a copa com uma boa taça de vinho, mesmo que estes jogos sejam durante o dia. Abaixo relaciono algumas sugestões de vinhos que aprecio deste país. E sucesso para aqueles que jogam com arte e suam a camisa!

 

      FIVE HEIRS CABERNET FRANC STELLENBOSCH/ÁFRICA DO SUL - Importadora Paralelo 35 Sul

 

A Five Heirs é o resultado da união de duas vinícolas datadas do início do século XVIII, 300 anos de tradição. O nome dos vinhos, Cinco Herdeiros, refere-se a esposa aos três filhos e ao próprio bem sucedido empresário sul africano Christo Wiese .

Vinho encorpado, com forte estrutura e um bom equilíbrio entre fruta, baunilha e taninos. Apresenta uma boa persistência na boca. Este vinho reflete uma característica única de terra da região, adicionado a toques de violeta, groselha e chocolate preto. Um vinho que pode ser guardado por 10 anos. Acompanha bem carnes vermelhas em geral, sobretudo, pato e cordeiro.

 

 

GLEN CARLOU SYRAH - PAARL /ÁFRICA DO SUL  - Importadora Grand Cru

 

Uvas: 96% Syrah, 3% Mourvedre, 1% Viognier .

Amadurecido em barricas de carvalho francês e americano por 12 meses.

Rubi com reflexo púrpura; aromas de frutinhas pretas silvestre, especiarias como pimenta do reino e de madeira tostada. Na boca é rico e complexo com sabores de groselhas maduras  e violetas (se compra em delicatessen violetas cristalizadas, são deliciosas).

Final de boca longo, rico e complexo, muito saboroso.

 

 

CATHARINA –  STEENBERG - CONSTANTIA/AFRICA DO SUL 

Importadora Expand

A Steenberg Vineyards, tradicional vinícola da África do Sul foi fundada em 1682, fica na região de Constantia, próxima à Cidade do Cabo. Os vinhos da Steenberg, além da qualidade, têm ótima relação custo-benefício, um dos grandes atrativos dos vinhos sul-aficanos.

Este vinho é uma homenagem à fundadora da  vinícola, um corte de cabernet sauvignon (51%), merlot (26%) e shiraz (23%).

Ótima escolta para carnes vermelhas .

 

 

 A importadora Vinci: www.vincivinhos.com.br , traz vinhos de três ótimas vinícolas:

- a premiadíssima Engelbrecht Els, prove os vinhos da linha Guardian Peak, são todos vinhos de alta qualidade, em especial o Lapa Cabernet Sauvignon que adoro;

- a antiga e tradicional Rust En Vrede, seus vinhos estão entre os mais premiados do país;

- a reputada Robertson Winery, tem ampla gama de vinhos classificado como “Best Buys”, ou seja, vinhos de excelente relação qualidade/custo/beneficio, vale a pena provar o pinotage que é a uva emblemática da África do Sul.

 

 

Mas se for beber durante o jogo, beba devagar, degustando, com calma, pois ainda teremos vários jogos pela frente e várias copas futuramente.

A taça da copa do mundo de futebol é linda, nunca vi uma de perto, se pudesse manuseá-la derramaria dentro dela uma garrafa de vinho, dos melhores, e iria sorvê-lo lentamente, até a última gota, vendo os gols do Pelé, Tostão, Rivelino, Sócrates, daqueles que faziam futebol com arte.

 

 

Antônia Neves é alvinopolense.

Contato : alvinews14@gmail.com