A fita dos anjos

 

Caio Souza Motta

 

 

Na avenida Pedro II 511 em Belo Horizonte, passei vários momentos da minha vida, a maioria deles muito engraçados.

Meus irmãos e seus amigos já me contavam vários casos engraçados desde quando eu morava em Alvinópolis.

Quando me mudei para a capital, era chegar o final de semana e o ponto de encontro era na república.

Já me disseram que existiram várias repúblicas alvinopolenses de outros tempos, se não me engano, uma na rua Alagoas e outras mais.

 

Mas o caso que quero contar é bem engraçado e aconteceu numa das gerações que frequentaram a República dos Anjos.

Um estudante da terra, muito inteligente e educado, vivia junto com seus conterrâneos na busca dos desafios da cidade grande.

Fez alguns amigos e falou muito sobre a nossa terra, das suas belezas e casos pitorescos.

Como a gente sabe, tem sempre aquele amigo com quem a gente se identifica mais e tal.

Pois com o rapaz foi a mesma coisa.

Um colega de serviço era bem bacana e acabou virando um amigo.

Num fim de semana, chamou nosso conterrâneo para almoçar na sua casa, convite que foi aceito de imediato.

 

Pensando em apresentar a cidade do coração, o rapaz logo lembrou que alguns anjos haviam filmado a cidade, com imagens do Complexo Arquitetônico da Matriz, as igrejas, a Fábrica de tecidos com sua enorme chaminé, a Praça São Sebastião  e as enormes árvores e bougainvilles roxas que dominavam a entrada da cidade naquela época.

Imediatamente perguntou ao seu colega de morada se a fita estava disponível.

Com a resposta positiva, pegou a fita e guardou nos seus pertences.

 

No domingo combinado, arrumou as suas coisas e partiu para o almoço com a fita na sua mochila e várias histórias pra contar.

Foi recebido com muita cordialidade e simpatia pela família do seu colega.

Papo vai e papo vem, decidiu investir nas histórias da cidade.

Para consolidar as suas histórias, contou que tinha levado a fita com as imagens de Alvinópolis.

Todos se reuniram na sala, o pai, a mãe, a vovó fazendo crochê e dois meninos brincando.

O rapaz tirou a fita da bolsa e notou que estava um pouco velha, bastante usada.

Deu uma limpada básica e entregou ao colega, que colocou a fita no já extinto vídeo cassete.

Eis que começa o filme da cidade, com uma bela trilha sonora.

As imagens eram realmente belas e um texto muito bem escrito contava os detalhes da cidade.

No momento em que o filme se aproxima do final, eis que acontece o inesperado.

Interrompendo toda aquela história da cidade, a imagem de um morador da república nu aparece na tv.

Foi um choque geral.

O anjo passava a língua pelos lábios, fazia caras e bocas, fazendo uma dança sensual.

De repente, um dos meninos que brincava diz :

- Mãe, olha o pinto do homem...

 

 

Mais que depressa, entra nosso amigo em ação e tenta parar a execução da fita.

Pega o controle remoto e sem querer, aperta a tecla de câmera lenta...

A cena do Streep continua.

- Desculpa gente... não era isso. Desculpa ...

Desesperado, entra em frente a tv, tentando tampar a imagem do filme.

Por fim, desligou a tomada e ficou aliviado.

Com o olhar de todos a fitá-lo, pediu desculpas.

A família não se conteve e todos começaram a rir.

O que era desespero virou alívio.

Chegando em casa, contou o caso aos amigos e ninguém conseguia parar de rir...

Xingou bastante o dono da fita antes de lhe dar um abraço.

Foi mais uma aventura vivida na república que ficou marcada pra sempre.

 

Caio Souza Motta é jornalista.

Contato : alvinews14@gmail.com