Carnaval de Alvi no início dos anos 90

O Bloco do Saco Sujo

 

Luiza Motta

 

 

 

 

 

Era o início dos anos 90.

No final de 89, morando em Alvinópolis, minha vontade de vir embora estudar estava grande, pelos sonhos que tinha, pela vontade de descobrir novos horizontes, novas amizades.

Por outro lado, estava tudo maravilhosamente bem, com exceção da escola.

Até a oitava série tinha sido uma aluna exemplar, estudei muito e tive ótimos professores, como a Nita Terrôla, Zé Mauro, Catarina, Luzia, Joana, dentre outros.

Sempre me destaquei nas matérias de exatas e em português, pois gostava muito de ler tudo que via pela frente.

Já no primeiro ano do segundo grau, a escola passou a ser à noite.

Logo meu pai, homem de visão, me colocou pra trabalhar de estagiária de contabilidade.

À noite, os professores mudaram, o interesse pelas aulas foi diminuindo e os prazeres junto com um pequeno salário foram me motivando.

Assim na minha casa todos começaram a perceber o mesmo, que os meus horizontes estavam muito pequenos.

Eis que no final do ano, após passar de ano tranqüila, sou surpreendida pela notícia de um teste em BH para um colégio particular.

Enfim, com muita luta passei no teste, me destacando em português.

Comecei a estudar no início de fevereiro e em fase de adaptação, achava tudo difícil em BH, as amizades ainda estavam no início e o meu pensamento era só um.

 

- "Chega logo CARNAVAL!!!"

 

Fui a aula às duras penas e fui contando os dias para aquela tão esperada sexta-feira.

Fiquei pensando numa frase pra escrever no meu saco de açúcar, já que o Bloco do Saco Sujo era o que me marcava mais no carnaval.

Todos com seus sacos, escritos de tinta guaxe, coloridos e com máscaras, às vezes de monstros, às vezes o restante do saco, só pra tampar o rosto.

Havia os que preferiam fazer o restante do saco de máscara, com um pequeno furo para os olhos e um maior para a boca, que certamente favoreceria alguns goles de cerveja.

Não havia internet naquela época e frases feitas eram difíceis de serem encontradas.

Para os jovens daquela época, o Saco Sujo era o principal bloco.

Na terça-feira, da semana de carnaval,  fui ao centro de BH procurar máscaras, já que uma grande amiga de alvi também queria uma máscara para o saco sujo.

Comprei 2 máscaras daquelas bem feias, que não deixariam que ninguém nos reconhecesse.

Já ia voltar pra casa, mas resolvo dar uma volta nas Lojas Americanas, pra comprar chocolate, vício eterno.

Chegando a loja, vejo um grupo de amigos se preparando para viajar, cheios de malas e acredito eu, esperando alguém pra completar o grupo.

Eis que numa camisa de uma menino, por sinal bem bonito, estava escrita a frase ideal para o meu saco.

 

“SE EU FOSSE VOCÊ, ME DAVA UM BEIJO!!”

 

Pronto, meu carnaval começou ali.

Logo logo chegou a sexta e lá fui eu pegar o ônibus após a aula.

Deviam ser umas 13 horas e como o saco sujo saía na sexta às 18 horas, se eu esperasse o ônibus da Lopes, perderia o principal bloco.

Comprei uma passagem pra Monlevade e lá fui pro carnaval mais querido.

Chegando em Monlevade, desci no postos 5 estrelas e fui para a estrada, tentar uma carona.

Na verdade, passou um ônibus pra Piracicaba e entrei nele mesmo.

Rapidinho estava lá na saída Piracicaba esperando uma carona.

Mais um pouco e um conhecido de Alvinópolis passou e me levou.

Cheguei na terrinha por volta de 16 horas.

Faltava comprar e pintar o saco, pra sair por volta de 18, 19 horas.

Corri no Silvério da Feira e comprei o saco e as tintas no Vivi.

Rapidamente pintei meu saco e coloquei pra secar, com a “célebre” frase escrita.

Encontrei as amigas e fomos tomar uma cervejinha para nos prepararmos.

Marcamos de ir pra rua de cima às 19:00 horas, para a concentração do saco sujo na Praça da Matriz.

Chegou a hora, saco vestido, máscara guardada,fomos subindo pra Rua de Cima e todo mundo animado.

Quando chegamos ao Chiquito, o som da bateria já era ouvido com força.

Colocamos nossas máscaras e entramos na confusão.

Todos dançando, pulando e conversando ao pé do ouvido, já que o barulho da bateria não facilitava as aproximações.

- Quem é você?

- Sua frase é muito legal!

- Que máscara é essa?

Carnaval puro... com alegria, descontração e energia da adolescência.

 

 

O apito do comandante da charanga dá o sinal para o início do bloco.

Todos começam a  dançar abraçados e descendo a Rua de Cima.

Vários conhecidos nas janelas e todos brincando com eles, tentando andar diferente, buscando guardar o segredo da identidade a sete chaves.

No Bloco do Saco Sujo, não ser descoberto era um dos objetivos.

A descida do Bloco da Rua de Cima significava a abertura do Carnaval.

Normalmente a Ladeira dos Italianos ficava tomada de gente, mostrando o grande potencial do carnaval de Alvinópolis.

Chegando ao Gaspar, próximo do clube do AFC, estava eu mexendo com meus familiares e vejo subindo o beco da Canjiquinha uma paixão adolescente, garoto “de fora”, muito bonito e gente boa.

Esperei que ele chegasse na esquina do Ary e fui lá cumprimentá-lo.

Como ele ia muito poucas vezes em Alvi, mais nas férias, achei que não fosse me reconhecer.

Mas fui chegando perto e ganhei um abraço com o seguinte comentário :

- Sua frase realmente merece um beijo!!!!!.

Ganhei meu carnaval.

Fomos abraçados para a Baixada, onde a Praça era tomada pela alegria.

Após várias horas de diversão, o bloco ia se dispersando, as máscaras iam caindo e todos iam se encontrando, perguntando sobre a idéia da frase, da máscara, se as pessoas haviam reconhecido a fantasia de cada um.

Me diverti  bastante naquele carnaval de sonho, distante anos luz da selva de pedra, que era a minha visão de BH logo que saí da minha eterna Alvinópolis.

Que o carnaval dos blocos seja reativado, sem carros de som, mas com bandinhas carregando a multidão.

Aproveitem o carnaval !!!

Saudações Alvinopolenses!!!!

 

Luiza Motta é alvinopolense e jornalista.

Contato : alvinews14@gmail.com