FIM
Danilo Abreu Lima
 |
|
Dondinha |
É o fim.
começa pelo fim.
Fim de uma
história de amor que durou mais de 16 anos. Exatos dezesseis
anos 4 meses e 20 dias.
Um caso de
amor a cinco.
E que
acabou assim. Final feliz? Infeliz?
Não sei,
afinal, o que é felicidade, o que pode ser infelicidade, o
que pode ser?
Só sei que
acabou e a gente não consegue se conformar com a ausência
que a morte traz. Não. Não há paz nessa passagem, nessa
transição. Há apenas dor.
E saudades
muitas. Doídas. Tristes.
...quando
ela chegou em minha casa, há exatos 16 anos 4 meses e 20
dias, que terminaram em agosto, vinte, era apenas um bebê.
Pequenina, fui buscá-la na casa de um amigo, e sua cama era
uma caixa vazia de sapatos- de tanto que era pequeninha...
Linda, de
cor amarronzada, meio castanha, meus filhos logo a batizaram
de Madona – acho que pela evidência da cantora pop.
Ela chegou
de mansinho e foi tomando conta da gente. Do nome Madona
derivaram diversos outros nomes e ela atendia por todos:
Donda, dondinha, nina, nininha, nonoca, donda Maria,e
inúmeros outros que iam surgindo ao longo do tempo de
convívio com aquela criatura tão mansa, tão dócil, tão nossa
companheira...
E ela foi
crescendo, junto com meus filhos, que na época tinham 8
anos- e a gente nem percebia que a idade dela era muito
maior do que a dos filhos-
O tempo ia
passando e a gente sempre cuidando, cuidando, amando aquela
criatura como mais uma filha- a menina que não existia na
casa- pois somos 3 homens - que a mãe precisava cuidar.
Donda foi
sempre uma ótima companhia e companheira. Daquelas que
sabiam quando iamos viajar, ficava rondando as malas até que
saíssemos- e, claro, sempre deixávamos alguém tomando conta
dela- que era limpinha, não sujava a casa, esperava sempre a
hora de descer para os passeios.
Quando
voltavamos, que hora fosse, ela estava sempre alerta,
esperando nossa volta...
No dia a
dia, era sempre uma festa... andava conosco por todo o
apartamento, rodeava-nos o dia inteiro,e, se estavamos
doentes, plantava-se ao pé da cama, parece que queria cuidar
da gente... raramente adoecia, e gostava de passear, de
correr nos gramados, se bem que sempre a deixava de coleira
e guia, pois uma vez fugira da mesa do pet-shop onde havia
ido tomar vacina e banho, e ninguém a achava- até que eu, de
carro, a vi, amarrada a um poste perto de um restaurante,
que alguém, de bom coração, prendera, para evitar que
fugisse ou, quem sabe, para levá-la. Desci do carro e a
peguei, nem falei com ninguém- e ela, coitadinha, morta de
sede e fome, pulando no meu colo...
Daquele
dia em diante, donda nunca mais saía de casa se antes não
comesse um pouco de sua ração que ficava à disposição no
pratinho...
Todas as
nossas histórias e ações envolviam a madona- tudo que
fazíamos, ela estava no nosso meio... comemorações,
aniversários, dias de pais e mães, de crianças, natais,
anos-novos, carnavais, lá estava ela, ao nosso lado, em
nossas fotos, em nossas vidas, como nossa filha, posso e
ouso dizer - Era linda, era mansa, era conhecida em toda a
quadra- e todas as crianças brincavam com ela, passavam a
mão em sua cabecinha, ela nunca brigava com ninguém, a não
ser com a cachorra de uma vizinha nossa, de nome Ofélia, por
causa de ciumes... quando ela era pequenina, minha mulher
pegou essa Ofélia no colo, na vista dela, e ela nunca mais
esqueceu essa rival... quando ela passava na rua, eu morando
no quinto andar, da varanda sentia o cheiro da outra e só
faltava se jogar lá embaixo, para atacar... quando se
encontravam, então, era uma loucura só: tinhamos que
segurá-la se não saía briga...
Fora isso,
era alegria só...
Foi uma
história bonita, cheia de sentimentos e saudades de tantos
momentos especiais...
De
repente...( ASSIM, a gente nem percebe) os filhos cresceram,
tornaram-se adultos, formaram-se, nós envelhecemos) ela ia
ficando velhinha também... mas sempre com muita saúde, muita
disposição, a gente creditava isso à sua mania de gostar de
comer frutas, até manga a danada chupava, e de tudo que
comiamos, ela sempre recebia seus pedaços, fosse carnes,
frutas pães ou queijos.
E dos
almoços nos restaurantes, sempre vinham seus pedaços, que
ela já esperava, sabendo que iamos comer fora...
Quando
vinha dos banhos no pet shop chegava linda..com lacinhos no
pescoço, cheirosa, se bem que detestava os cheiros dos
perfumes...
É, linda
história, mas o tempo insistiu em passar. E pesar em nossos
corpos, em nossas mentes, assim como no corpo dela...
Começou a
enxergar pouco, a ter o faro reduzido e a audição
comprometida, mas continuava ainda a descer com a gente para
os passeios, a comer de tudo, a estar sempre acordada à
noite, esperando os meninos chegarem da rua, assim como eu
faço, todos os finais de semana...
E passou a
gostar de ficar sempre atrás da porta da cozinha, como que
vigilante, como se esperasse a qualquer momento a hora da
partida... sabe-se lá - e ali ficava, a noite inteira, até
que eu fosse à cozinha e a mandasse para sua caminha, aí ela
ia e só acordava no outro dia, muito tarde...
Passou a
não mais agüentar para fazer xixi e cocô na rua- e sujava a
cozinha e se sujava e levava bronca e corria para sua
caminha a se esconder, coitadinha, com medo das nossas
reações...
E foi
passando o tempo- assim, como quem não quer nada e vai
levando tudo- e a gente sempre naquela expectativa, naquele
saber que um dia ele a levaria embora, assim como um dia ele
a trouxe para nós...
O início
do fim
Foi numa
terça feira, dezessete de agosto. Quando chego em casa à
noite, encontro-a deitadinha no chão, dentro do quarto da
empregada, quieta, muito quieta, suja de cocô e apática-
muito mais do que antes, muito mais do que das outras
vezes... não quis se levantar, não quis sair comigo, ficou
lá, paradinha,parece que sofria, sofria, eu sei hoje...
...mais
tarde, levantei-me de madrugada para tirá-la de lá e a
coloquei na área de serviço, mais arejada, mais espaçosa...e
ela veio carregada, pois não queria se levantar...
De noite
ganiu, sofria, eu sei. Sabia também, naquele dia...
...de
manhã, levei-a à veterinária que ultimamente vinha cuidando
dela... examinou-a, e quando a peguei para colocar na mesa d
exame, ela gemia de dor... e disse-me que aquilo parecia
problemas de barriga- medicou-a com analgésico, receitou
outro remedio e água de coco, para reidratação... mas a
partir daquele momento nininha havia trancado a mandíbula-
que não abria nem ao máximo esforço que eu fazia- parecia
adivinhar...
Ficou
assim todo o resto do dia,, sem água, sem ração, não queria
nada, e eu tinha que enfiar sua cabecinha na água para
molhar um pouco pois ela não queria engolir nada...
Fui
obrigado, à noite, a levá-la a uma clinica 24 horas, para
que fosse internada e colocada no soro...
O
veterinário examinou-a, olhou, preocupou-se com tumores de
mama e pediu exames de sangue, que foram feitos e que não
trouxeram noticias animadoras...
Sexta de
manhã, fui vê-la... ela havia melhorado um pouquinho e
consegui levantar sua cabeça e ela nos olhou, e aquela, meu
Deus, foi a última vez que nos viu...
De noite,
quando eu ia de novo visitá-la, pensando em trazê-la para
casa, o telefone toca, mais ou menos às 8 da noite, com a
noticia fatal: Dondinha havia morrido, às sete e quarenta,
segundo o veterinario de uma parada cardíaca enquanto era
medicada- disse que foi amolecendo, e se entregando...
Quando ele
me deu essa noticia, desabei junto com ela... minha mulher,
meus filhos, ninguém sabia o que fazer...
Saímos
correndo para lá, todos nós, e eu nem sabia se ia agüentar
vê-la morta, em cima de uma mesa...
Mas mesmo
assim, fui, entrei e quando a vi, ali, coitadinha, imóvel,
com as patinhas de lado e os olhinhos abertos, desmanchei-me
em choro e em soluços...
Sou assim,
fraco diante da morte daqueles que amo...
Todos
somos assim, eu sei.
Início
Este texto
não tem pretensões literárias. Nem veleidades intelectuais.
É muito mais um preito. Um pranto. Um grito entalado na
garganta. É um canto, na verdade um uivo. Um grito de dor
dor da
perda, tristeza da seiva cortada, da força que se esvai,
é uma
homenagem a esse bicho, muito mais que gente, esta
cachorrinha que conviveu conosco e nos ensinou tantas
coisas, muitas coisas: o amor incondicional, a lealdade, o
sempre estar pronta, a felicidade..
Ah! A
felicidade... existe? Sei lá...
Só sei que
partiu mais um pedaço meu com essa criatura, que se foi, com
certeza, para um céu de bichos...
Com asas,
em vez de patas e de cauda.
Vai,
Dondinha, madona, nonoca,
Nininha,
vai e leva um pedaço nosso junto...
Até um
dia, quem sabe...
Sua cara,
seus barulhos, nossos momentos não se vão: são e serão para
sempre
instantâneos em nossas memórias.
Danilo de Abreu Lima é escritor
alvinopolense.
Contato :
daniloabreulima@gmail.com