Estação quarta

 

Danilo Abreu Lima

 

 

 

 

 

Da dor

quando a mansidão e a delicadeza encontram a dor e o desgosto,
o descaso e o sofrimento,

o corpo padece e a alma sofre
nada há no mundo que se compare à dor da perda:

uma estação no inferno, eivada de lamentos e horrores,

uma viagem nas barcas solitárias dos homens ermos,

que de repente se encontram órfãos:

de pais, de mães e de si mesmos,
exilados de seus próprios corpos
 


das descobertas

primeira estação, segunda, terceira, quarta estação: estações:
bordo, bombordo, estibordo, aeroportos, aeroplanos, tantos planos, trens,

memórias dos que virão, VERÕES verões
estações de  idas, de voltas, a descoberta dos primeiros amores,
numa estação, orações, ereções, num estar são assim de bem com a vida,
num barco a vela, num avião, numa jangada,
Titanic reinventado,
uma quilha,
na pilha
uns amores inteiros:
descobertas.
 


dos ires e vires

depende. de repente
qual é a quarta estação? depende
do nosso estado. de corpo, de espírito,
do nosso estado de estarmos
tranqüilos e serenados, espinha reta,
dedo em riste,
carne dura
mente abertalerta ao infinito:
assim, é primavera:
plenitude, aberturas, cheiros,
cores, planos,
pianos ao luar, sóis refulgentes:
gente que ziguezagueia
como abelhas
se afogando
nos néctares alheios.

se estamos no entanto,
em épocas outras,
de desencantos, de desalentos,
de corpos mornos,
porém sozinhos
sem tônus.

 


a quarta é o outono:
folhas que caem,
versos que se apagam
letras que cantam
como quem morre
de ócios e vícios
cigarras têmporas

 

se os corpos queimam,
e as veias ardem
os sentidos
se alardeiam
aos quatro ventos
somos das águas, dos mergulhos exteriores
somos verão
desfrutares somente
não interiores.

se o corpo se dá ao peso
de tantos planos,
de tantos cantos
desencantados
de tantos brados
tantos braços
todos os abraços
partidos:
os tempos idos,
vívidos na memória
que se insistem jovens
em corpos fracos
a estação quarta
nos enverniza:
e não há vernizes
ou retóricas
que nos tragam os lírios
que levaram os rios.

 

choram as flores
deixadas ao relento
ao sabor das águas.

 

 

E as veias ardem
Em sentidos primários
Se alardeiam
Aos quatro ventos
Somos a estação
dos mergulhos exteriores
Somos verão
do corpo: não alma:
Desfrutares somente
Sem interiores.

Se o corpo cede ao peso
De tantos planos,
De tantos cantos
Desencantados
De tantos brados
De tantos braços
De todos os abraços
Partidos:
Os tempos idos,
Vívidos na memória
Que insistem jovem
Em corpos fracos
A estação quarta
Nos inverniza:
E não há vernizes
Ou retórias
Que nos tragam os lírios
Que levaram os rios.

 

Danilo de Abreu Lima é escritor alvinopolense.

Contato : daniloabreulima@gmail.com

Blog : Poetasdesegunda

 

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