Interiorano

 

Erivelton braz

 

 

Foto : Mauro Sérvulo - Anos 50

Eu vim de longe, do interior. Eu vim de dentro do chão. Eu vim de lá. Meus pais, também vieram. Por isso, meu sangue é vermelho escuro. Tem cor de terra que desce da enxurrada na chuva. Tem cor de alma lavada.

 

Eu vim de Alvinópolis. Vim também de São Domingos do Prata. Sou monlevadense. De aço. Mas também sou do pasto. Da lavoura. Do queijo fresco no coalho. Sou do céu estrelado e dos cantos dos grilos, dos pássaros. Sou de barro. Por isso, gosto tanto de noites quentes e enluaradas. Gosto de praças e de bandas de música. Gosto de leite com mel no café-da-manhã e de chupar fruta no pé.

 

Por ser assim, não tenho medo de escuro e nem de trovão. Não tenho medo de perder o trem e nem de comprar briga quando necessário. É. Porque dou um boi para não entrar na confusão, mas  dou uma boiada para não sair dela. Tudo isso, porque sou do interior. Porque meu coração não é de galinha e não se entrega tão facilmente.

 

Gosto de andar descalço. De sentir o frio da terra em quintais imensos. Gosto de comer calado. Olhando pro prato, sentindo o cheiro de lenha queimada no fogão. Aprecio pinga boa. Daquelas de tomar no almoço. Gosto de falar depois da mesa, comendo doce em calda. Sou do interior e não nego nunca. Sou da terra sem amarras, sem arames, sem farpas. Tenho um coração cheio de sonhos, porque o interior é dentro da gente. Ainda que em BH, São Paulo, Paris ou Nova York. Quem é do interior não se renega.

 

 

Prosas alvinopolenses

I

Minha mãe nasceu no Beco da Canjiquinha. Sempre achei graça no nome. Ela dizia que tinha um moinho de milho no fim da rua, por isso, canjiquinha. Nunca vi moinho lá. Acho que ela era criança na época. Anos 40. Coisas do interior. E eu, no interior da minha mãe, já sentia o gosto de canjiquinha com costelinha de porco. Eu sonhei com o sabor, antes de ter nascido.

 

Foto : Gjunior - 2005

 

II

Andando pela Baixada em uma tarde de carnaval, eu encontro com uma cigana de olhos claros, que pede para ler a minha mão. Eu estico o braço, meu tímido, meu com medo e, com o outro, levo o cigarro à boca para uma longa tragada. Ela espera a fumaça sair, calmamente, de minhas narinas e diz que meu futuro seria brilhante se eu tivesse nascido em Alvinópolis. Eu digo que tenho uma origem torta, porque minha mãe nasceu lá. Ela diz que meu futuro será torto. Eu não dou bola e sigo em frente. No meio do Gaspar, ela me pára de novo. Não sei como chegou ali tão rápido. Ela me pede fogo e eu acendo o cigarro dela. Ela ri com dentes de ouro e eu rio, com os meus de tártaro. Não sei mais o que aconteceu conosco. O despertador tocou. Eram 7h15.

 

III

Dizem que no “Alto Sombrio”, à meia-noite, rolam panos do pasto. As trouxas vão rolando, rolando e, ao chegar próximo da cerca, no canto esquerdo do caminho que leva para a roça, elas somem, como mágica. Eu não acredito em mágica. Mas tenho certeza de que as trouxas existem. O sobrenatural, em Alvinópolis, tem cheiro de terra molhada e acontece, no meio da tarde.

 

Erivelton Braz é jornalista.

Email : feliciobraz@yahoo.com.br