Eu vim de longe,
do interior. Eu vim de dentro do chão. Eu vim de lá. Meus pais,
também vieram. Por isso, meu sangue é vermelho escuro. Tem cor
de terra que desce da enxurrada na chuva. Tem cor de alma
lavada.
Eu vim de
Alvinópolis. Vim também de São Domingos do Prata. Sou
monlevadense. De aço. Mas também sou do pasto. Da lavoura. Do
queijo fresco no coalho. Sou do céu estrelado e dos cantos dos
grilos, dos pássaros. Sou de barro. Por isso, gosto tanto de
noites quentes e enluaradas. Gosto de praças e de bandas de
música. Gosto de leite com mel no café-da-manhã e de chupar
fruta no pé.
Por ser assim, não
tenho medo de escuro e nem de trovão. Não tenho medo de perder o
trem e nem de comprar briga quando necessário. É. Porque dou um
boi para não entrar na confusão, mas dou uma boiada para não
sair dela. Tudo isso, porque sou do interior. Porque meu coração
não é de galinha e não se entrega tão facilmente.
Gosto de andar
descalço. De sentir o frio da terra em quintais imensos. Gosto
de comer calado. Olhando pro prato, sentindo o cheiro de lenha
queimada no fogão. Aprecio pinga boa. Daquelas de tomar no
almoço. Gosto de falar depois da mesa, comendo doce em calda.
Sou do interior e não nego nunca. Sou da terra sem amarras, sem
arames, sem farpas. Tenho um coração cheio de sonhos, porque o
interior é dentro da gente. Ainda que em BH, São Paulo, Paris ou
Nova York. Quem é do interior não se renega.
Prosas
alvinopolenses
I
Minha mãe
nasceu no Beco da Canjiquinha. Sempre achei graça no nome.
Ela dizia que tinha um moinho de milho no fim da rua, por
isso, canjiquinha. Nunca vi moinho lá. Acho que ela era
criança na época. Anos 40. Coisas do interior. E eu, no
interior da minha mãe, já sentia o gosto de canjiquinha com
costelinha de porco. Eu sonhei com o sabor, antes de ter
nascido.
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Foto : Gjunior - 2005 |
II
Andando pela
Baixada em uma tarde de carnaval, eu encontro com uma cigana
de olhos claros, que pede para ler a minha mão. Eu estico o
braço, meu tímido, meu com medo e, com o outro, levo o
cigarro à boca para uma longa tragada. Ela espera a fumaça
sair, calmamente, de minhas narinas e diz que meu futuro
seria brilhante se eu tivesse nascido em Alvinópolis. Eu
digo que tenho uma origem torta, porque minha mãe nasceu lá.
Ela diz que meu futuro será torto. Eu não dou bola e sigo em
frente. No meio do Gaspar, ela me pára de novo. Não sei como
chegou ali tão rápido. Ela me pede fogo e eu acendo o
cigarro dela. Ela ri com dentes de ouro e eu rio, com os
meus de tártaro. Não sei mais o que aconteceu conosco. O
despertador tocou. Eram 7h15.
III
Dizem que no
“Alto Sombrio”, à meia-noite, rolam panos do pasto. As
trouxas vão rolando, rolando e, ao chegar próximo da cerca,
no canto esquerdo do caminho que leva para a roça, elas
somem, como mágica. Eu não acredito em mágica. Mas tenho
certeza de que as trouxas existem. O sobrenatural, em
Alvinópolis, tem cheiro de terra molhada e acontece, no meio
da tarde.
Erivelton
Braz é jornalista.
Email :
feliciobraz@yahoo.com.br