Para não parar de dançar tão cedo

 

Erivélton Braz

 

 

Dona Pedrinha

Sempre que Pedrinha queria dançar, não havia quem a segurasse em casa. Ela não era fácil e nem tinha juízo, conforme uma prima gostava de dizer. Mas tinha de sobra. Aos 93 anos, era mais bem disposta do que muita moça jovem. E gostava de freqüentar bailes, sem ter hora para chegar em casa.

Enterrara, ao longo da vida, pais, irmãos, primos e sobrinhos. Mas nunca desanimou. Apesar das quase nove décadas e meia de vida, não tomava remédios de espécie alguma. Nem sofria de males. Gostava mesmo de dançar, de participar de festas profanas e religiosas. Era também rainha eterna do congado de sua cidade e não perdia nenhum evento do gênero em toda a região.

 

Ela nunca se casou. Teve amores, é verdade. Mas nenhum marcou tanto seu coração, como  um certo homem que jogava futebol. Ele chegou à cidade dela para jogar contra o time anfitrião. Ela, que sempre ia com amigas ao estádio, acabou enamorada dele. O time se foi e o centro-avante ficou. Sem pensão e ganhando pouco como atleta, foi morar na casa que ela dividia com outros irmãos. Tratado como um príncipe ele ficou ainda mais bonito.

Um dia, cismaram de casar. Ela, funcionária de uma fábrica, juntara parte do ordenado e tinha uma poupança. Não era muito, mas dava para um começo a dois. O jogador fazia bicos após os treinos e ganhava um salário fixo para atuar no time daquela cidade do interior. Faz anos... Combinaram tudo. Como seria a cerimônia, a festa, as roupas...

Foi então que ele falou que precisaria viajar para sua cidade buscar dinheiro com os irmãos e comprar, inclusive, o vestido de noiva que ela deveria usar no grande dia. Ele viajou numa manhã em que chovia fininho e o que aconteceu depois disso, mudou a vida de Pedrinha para sempre. Sucedeu que ele não voltou tão logo. A noiva esperou. Ficou a ver os ônibus chegando e partindo da rodoviária, dia após dia, esperando qualquer sinal de regresso dele. Nada.

Depois de duas semanas sem notícias, ela lhe escreveu um telegrama. Não obteve resposta. Escreveu outro. E outro... e outro. Ele nunca respondeu ás mensagens. Depois de tanto silencio, não havia mais nada a fazer senão cancelar o casamento: os convidados foram desconvidados, o porco e a novilha foram vendidos e tudo foi voltando á sua ordem inicial. Menos no coração de Pedrinha, que ainda aguardava, embora preferisse não demonstrar, que tinha esperanças ainda. Talvez por isso gostasse de dançar. E, quando algum par ameaçasse se transformar em pretendente, ela os dispensava, em nome do amor vivo, guardado no peito.

Muitos anos mais tarde, quando a pele dela perdera a maciez da juventude e os olhos endureceram de tantas lágrimas em vão, ele apareceu pedindo perdão. Chegou como da primeira vez, sem avisar.

Ela o recebeu, com vontade de partir-lhe a cara, mas ouviu a história. Disse que recebeu todos os telegramas, mas que não fora homem o suficiente para dizer que estava gostando de outra. Inclusive, casara. Tivera filhos. Mas o destino fora irônico com ele: a esposa, um pouco mais nova, o dispensou quando ele caiu doente, alegando que não tinha paciência para cuidar de ninguém. Os filhos nunca tiveram consideração com ele. Agora, só restava-lhe o amor daquela que por ele esperara tanto.

Sem mover um músculo da face e com a voz firme, sem nenhum sinal de pranto ou ódio, disse-lhe apenas adeus. E abriu a porta para não ouvir mais nada. Sequer chorou quando aquele senhor partiu e lançou-lhe um olhar derradeiro de clemência. Estava acabado.

Para não sofrer mais, decidira naquele dia que jamais casaria. E viveria feliz, como só quem sabe como é de fato, uma grande dor de amor. Por isso, Pedrinha segue dançando e não pretende parar tão cedo.

 

 

Erivelton Braz é professor e mestrando em Teoria Literária e Crítica da Cultura.

Email : feliciobraz@yahoo.com.br