AQUI ESTOU

 

Getulino do Espírito Santo Maciel

 

            Aqui estou. São as mesmas ruas, as mesmas casas, as mesmas árvores. Eu é que não sou o mesmo. Porque as ruas estão pequenas, as casas são menores e as árvores diferentes.

 

            Lá no fim da grande rua de vinte e cinco anos atrás, há uma esquina e uma casa agora amarela. Duas janelas antigas, uma escada de três degraus, uma porta alta, esquálida. As mesmas janelas. Só que agora aqui estou e já não são tão grandes. A mesma porta. Vinte anos encurtaram-na. Engordou e ficou baixinha.

 

            Aqui estou, na Rua Belo Horizonte, segundo diz a placa azul. Em frente à casa amarela.

 

            Entro. O assoalho balança. Rodopio e o teto também... Lá na cozinha, ao pé de uma escada de tijolos vermelhos, há o fogão, o banco de caixote e um armarinho pintado de verde.

 

            - O almoço está pronto, disse a mãe.

            - Quem vai levar o almoço na roça hoje?

            - É você, ora!

            Vinte anos atrás, o menino esboçou chorar.

 

            - Com este sol, levar almoço na roça... e as cobras estão lá pelo mato, estendidas ao sol...e vou me atrasar para a escola e se a calça rasgar em algum espinho?... vou sim...o prato está arrumado, afinal.

            Vinte anos atrás, o prato de almoço, enrolado num pano branco, estava quentinho. O sol de arrebentar mamona.,.as cobras soltas e os espinhos aguçados.

            Aqui estou. De terno quente na Rua Belo Horizonte.

 

            - Quem é você?

            - Morei aqui há muito tempo. O pessegueiro dá muito ainda? Ali no fundo do quintal havia uma goiabeira. Lembro-me que tirei um retrato perto dela.

            Não adianta. Vinte anos deixaram tudo para trás. São as mesmas ruas, em pó, as mesmas casas sonolentas, a mesma esquina onde havia um campinho de futebol de bola de meia.

            Aqui estou. Mas, cresci e as coisas diminuíram. São as mesmas coisas. Vinte anos me aumentaram para que as coisas grandes de menino ficassem pequeninas.

 

            Aqui estou. Só que há um terno comprido que me embaraça e a Rua Belo Horizonte é um conto de fadas e o tempo me arrancou os espinhos, matou-me as cobras, virou o prato de almoço, tirou-me da escola , rasgou minha bola de meia e camuflou de esquecimento as ruas, as árvores e as casas.

 

 

Getulino Maciel é professor aposentado de Direito e reside em Lorena-SP

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