Desencantando palavras

 

Getulino Maciel

 

 

 

 

            Desencantar palavras parece pretensioso trabalho de magia. Cada uma delas guarda, a sete chaves, um segredo. É como se estivessem  presas em pequenas caixas.

 

            A palavra, sem esses segredos, é fria, inócua e estéril.

 

            É necessário o seu desencanto para lhe mostrar o mistério interior escondido em suas aparências.

 

            Trata-se, portanto, de exibir sua essência e seu verdadeiro e radical sentido, enfim, dar-lhe vida.

 

 

Saudações

 

 

 

 

            Vamos lá: o latim diz “salutatio, salutations” – substantivo feminino da terceira declinação com os sentidos de : saudação, obséquio, respeito, recepção, acolhmento, atos de venerar, pedir, suplicar, ato de fazer continência.

            Deriva ela do verbo latino “salutare” da primeira conjugação como “amare” com os significados de: fazer saudação, cumprimentar, adorar, venerar, pedir, suplicar, fazer visita.

 

            A palavra saúde, na mesma trilha : “salus, salutis”, substantivo feminino da terceira declinação com os sentidos de : salvação, conservação (da vida), afastamento do perigo, ser restituído à vida, cura, bem estar, saudação, cumprimentos, brinde (há um filtro de barro com o nome salus).

            Como se vê saudações tem íntima relação com saúde.

            Daí, as palavras com a mesma raiz : saudável, salubre, insalubre, salubridade, salutar, saudado, saudador.

 

            Já a palavra saldável – passível de ser saldado – se origina de saldo, do verbo italiano “saldare” com os significados de ajustar, verificar ou liquidar as contas.

            Em latim saldo é “solutio, solutionis  do verbo “solvere” = solver, decompor, libertar, satisfazer, saldar, anular. Temos várias palavras originárias de “solver” : aborver, insolubilidade, insolúvel, insolvência, insolvente, insolvível.

 

            “Minhas saudações a quem me permitiu, saudavelmente, saldar os meus débitos até então insolúveis.”

 

 

Do livro Desencantando Palavras, de Getulino do Espírito Santo Maciel, com prefácio do Dr. Ives Gandra da Silva Martins.

 

Getulino Maciel é professor aposentado de Direito e reside em Lorena-SP

Contato : louget@uol.com.br

 

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