Lembranças
Ilda Ismael Martins
Era um tempo bom. Vivíamos cercando aquele
homem, nosso ídolo. Éramos nove crianças arteiras e felizes. Todos os dias, nós
esperávamos que ele chegasse do trabalho. Sempre trazia balas, era uma festa.
Não só pelas balas mas, principalmente, pela sua presença.
Depois do banho, o jantar. Aí, assentávamos
ao seu redor, alguns no seu colo, e ficávamos a ouvir, no velho rádio de pilha,
as novelas : Jerônimo, o herói do Sertão e As aventuras do anjo. Chegava à
noite, tudo devagar como naquele tempo.
- Conte uma história! Pedíamos.
E ele contava :
- Riachão, estava cantando na cidade de Açum
quando apareceu um negro de espécie de urubu. Tinha a camisa de sola e a calça
de couro cru. Um olho muito encarnado e o outro muito amarelo. Esse chamou
Riachão para cantar um martelo. Riachão disse: -eu não canto com gente
desconhecida – pode ser um escravo que anda por aqui fugido...
Era sempre a mesma estória. Para nós não
importava. Gostoso mesmo era ele, ali, conosco. Era um infinito prazer. Que
alegria!!!
Para as pessoas de fora ele era altivo,
sério, quase não sorria. Hoje, com o passar do tempo, me lembro bem. Aquele
rosto foi aprendendo a sorrir para todos, sem distinção. Era um sorriso aberto
que transparecia confiança aqueles que o observassem. Era acolhedor.
Não ia ao fogão para nada, pois se achava
muito sem jeito. Sua refeição era servida à mesa. Porém, quando pedíamos : -
Faz pipoca! Ah!!! Ele fazia todo um ritual que nos enchia de alegria.
No fogão de lenha, enorme, todo desajeitado,
ele colocava o milho na panela e mexendo-o com uma colher dizia :
- Para a pipoca render tem que fazer muito
barulho.
Quando o milho começava estourar, ele
tampava a panela e ficava batendo na tampa com a colher. A cozinha ficava
impregnada com o cheiro da pipoca em meio a muito barulho que nós também
fazíamos. Era uma festa. Quem o conhecia fora de nossa casa jamais imaginaria
que ele seria capaz de se prestar a tamanha proeza. Poderia até achar uma
proeza ridícula o que ele fazia mas, nós adorávamos.
Como nem tudo é só alegria, um dia ele
sofreu uma trombose, que o deixou sem andar e falar por uns tempos. Como foi
triste ver o nosso ídolo tão fraco e desamparado. Às vezes chorava. Tinha medo
que suas crianças passassem fome. Era o que mais tinha medo, segredou-nos uma
vez.
Ele, porém, não era daqueles que entregava
os pontos. Lutou como um leão. Em Alvim, nossa cidade, não tinha fisioterapia.
Ele fazia exercícios sozinho, ajudado por minha mãe e com assistência do Dr.
Givaldo, único médico da cidade. Os exercícios foram surtindo efeito e com
pouco tempo começou a caminhar. No início, escorando pelas paredes, até tomar
confiança e voltar ao normal. Falava com dificuldade, às vezes a voz sumia
quando se esforçava em demasia mas, o tempo aliado à sua força de vontade, foi
o melhor remédio. Ficou bom. Apenas com pequenas seqüelas.
Não pode mais trabalhar na empreiteira.
Abriu uma pequena oficina na qual trabalhava com ajuda de meus irmãos e um
mecânico.
A oficina passou a ser local de trabalho e
de papo. As pessoas o procuravam para pedir conselhos ou simplesmente
conversar.
Era um filósofo. Sempre nos ensinou a viver
com simplicidade. Talvez por isso escolheu a cidade de Alvim para ancorar.
Mudávamos muito devido ao seu trabalho. Nestas andanças tivemos casa própria em
várias cidades mas, onde ele escolheu realmente para ficar para sempre, foi a
cidade de Alvim onde construiu nossa casa.
Nesta casa a qual conservamos até hoje,
filhos, genros, noras, netos e bisnetos se reúnem para aniversário de minha
mãe, para natal, etc... Não perdemos o lastro com sua partida para o outro lado.
Prefiro não falar sobre isso.
Lembrei-me agora de um fato que muito me
emocionou : Quando comecei a trabalhar, o presenteei com uma pequena quantia do
meu primeiro salário. Ele ficou emocionado. Vi seus olhos úmidos pela emoção.
Ele pegou uma das cédulas e disse :
- Essa eu vou guardar como uma lembrança.
Passados muitos anos, encontrei essa cédula
dentro de um de seus cadernos de anotações.
Essas são algumas de muitas lembranças que
guardo de meu pai. Sei que meus irmãos também têm essas e outras mais. Talvez
por isso estamos sempre juntos com a benção de nosso velho ídolo.
Ilda Ismael Martins é
escritora alvinopolense.
Contato :
alvinews14@gmail.com
Este
conto foi o vencedor do
I CONCURSO LITERÁRIO EM
PROSA E VERSOS – PRÊMIO “ZÉ DE CHICO”
,
realizado em Alvinópolis em 2006.
Foi
publicado na Primeira Antologia de Alvinópolis, "De um
berço estranho nascem contos e poemas", numa organização
da Ana Teresinha Drumond.
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