Era corriqueira a cena
na cidade:
de tão bêbado o Zé já
não caminhava
descia a ladeira de
quatro.
Em casa a sua esposa
adormeceu esperando por ele.
Era costume a sua demora
até as altas horas da madrugada.
O galo cantou.
Um novo dia raiou e o Zé
não chegou...
Desde então ele nunca
mais apareceu em casa.
E a sua esposa suspirou
aliviada:
adeus maus tratos, fome
e humilhações.
E a sua alegria
finalmente ficou completa quando ela ganhou de presente um
filhote de poodle.
Célia estava mui linda.
Os seus olhos brilhavam
mais que os brincos de safira
que ela estava usando.
Os cabelos negros
pareciam veludo em contraste à tiara de diamantes.
O salão de bailes estava
repleto de gente.
O vestido azul que usava
era qual ao de uma princesa;
e ela rodopiava ao som
de linda valsa
nos braços daquele que
era o seu amado.
Nunca se sentira tão
feliz;
tudo parecia um sonho...
De repente, suas vistas
ficaram escuras;
o que a deixou bastante
assustada.
Então uma “vozinha”
vinda de longe
foi clareando tudo outra
vez:
“Vovó, vovó, conta outra
historinha pra mim!”.
Um grande trovão ecoou
noite adentro
após a claridade do
raio.
Glorinha se encolheu
ainda mais entre os lençóis.
O suor lhe escorria
pelas têmporas,
o medo e o calor o
estimulavam.
Em poucos segundos ,
outro trovão.
Glorinha já agoniada
levantou-se e foi
correndo para o quarto da mãe.
Naquela noite
nem ela nem a mãe
dormiriam sozinhas.
A solidão faz crescer o
medo da chuva.
O sol escaldante
queimava o rosto de José
e ele nem se dava conta
por isso.
E tanto quanto batia a
enxada na terra
mais as bagas de
suor lhe escorriam pelas têmporas.
Em seu rosto bailava,
entretanto, um riso maroto:
pensava em Rosinha!
Estacou de repente,
ficou ereto, segurando o cabo encardido da enxada
como se fosse um cetro.
Olhou o extenso milharal
como se toda aquela
plantação fossem os seus súditos.
O amor é assim:
Faz o homem pensar que é
um rei...
Leonardo C. dos Santos é
poeta alvinopolense.
Contato :
leonardo.cezario@hotmail.com