MINICONTOS

 

Leonardo Cezário dos Santos

 

 

        

Era corriqueira a cena na cidade:

de tão bêbado o Zé já não caminhava

descia a ladeira de quatro.

Em casa a sua esposa adormeceu esperando por ele.

Era costume a sua demora até as altas horas da madrugada.

O galo cantou.

Um novo dia raiou e o Zé não chegou...

Desde então ele nunca mais apareceu em casa.

E a sua esposa suspirou aliviada:

adeus maus tratos, fome e humilhações.

E a sua alegria finalmente ficou completa quando ela ganhou de presente um filhote de poodle. 

          

 

Célia estava mui linda.

Os seus olhos brilhavam mais que os brincos de safira

que ela estava usando.

Os cabelos negros pareciam veludo em contraste à tiara de diamantes.

O salão de bailes estava repleto de gente.

O vestido azul que usava era qual ao de uma princesa;

e ela rodopiava ao som de linda valsa

nos braços daquele que era o seu amado.

Nunca se sentira tão feliz;

tudo parecia um sonho...

De repente, suas vistas ficaram escuras;

o que a deixou bastante assustada.

Então uma “vozinha”

vinda de longe

foi clareando tudo outra vez:

“Vovó, vovó, conta outra historinha pra mim!”.

 

Um grande trovão ecoou noite adentro

após a claridade do raio.

Glorinha se encolheu ainda mais entre os lençóis.

O suor lhe escorria pelas têmporas,

o medo e o calor o estimulavam.

Em poucos segundos , outro trovão.

Glorinha já agoniada

levantou-se e foi correndo para o quarto da mãe.

Naquela noite

nem ela nem a mãe

dormiriam sozinhas.

A solidão faz crescer o medo da chuva.

 

O sol escaldante queimava o rosto de José

e ele nem se dava conta por isso.

E tanto quanto batia a enxada na  terra

mais  as  bagas  de  suor lhe escorriam pelas têmporas.

Em seu rosto bailava, entretanto, um riso maroto:

pensava em Rosinha!

Estacou de repente, ficou ereto, segurando o cabo encardido da enxada

como se fosse um cetro.

Olhou o extenso milharal

como se toda aquela plantação fossem os seus súditos.

O amor é assim:

Faz o homem pensar que é um rei...

 

Leonardo C. dos Santos é poeta alvinopolense.

Contato : leonardo.cezario@hotmail.com