A Venda 

 

Maria de Lourdes Camelo

 

Foto : Mauro Sérvulo

 

 

     As estacas que circundavam a venda do meu avô estavam, naquela tarde, totalmente ocupadas pelos cavalos da roça. Do lado de dentro do balcão, vovô não dava conta das pingas e das geléias de mocotó. As lamparinas tremulando nos quatro cantos garantiam a claridade do ambiente, embora dessem a ele um aspecto de cochicho, de tramóia ou mesmo de emboscada.

 

     Em meio àquele movimento de todas as noites, eu ficava sentada atrás do balcão, num tamborete fixo, feito de tronco de árvore. Aquele cheiro de mantimento, misturado com cachaça e fumo de rolo definia muito bem a miscelânea que havia à disposição do consumidor. O balcão de madeira, ensebado pelo tempo e pelo uso, suportava, além da balança de cobre e o rolo de papel pardo, os cotovelos dos cavaleiros que ali freqüentavam.

 

     A venda do meu avô ficava no começo da cidade, bem na boca de quem entra e de quem sai. Pela sua localização, tornou-se garantido o número de fregueses e freqüentadores. Toda tarde, sentada do lado de dentro do balcão, eu ficava a observar os ruídos e cacoetes dos cavalos. Alguns eram gordos e bem cuidados; outros, magros e tristes. Lutavam contra os carrapatos e carrapichos. Atrelados às estacas, ficavam de olhos baixos o tempo todo. Alguns se coçavam, outros davam coices no ar, outros abanavam as orelhas e outros relinchavam. Um cheiro forte de mijo fresco demarcava aquele território. De vez em quando saiam dois homens, cuspiam, levantavam os beiços dos cavalos, examinavam os dentes e tentavam adivinhar, por eles, a idade dos animais. Nesse momento o tilintar forte das esporas me despertava do devaneio, mudando o foco de minhas fantasias. Eu tinha apenas doze anos e já sentia todas as promessas desenhando-se em longínquos horizontes. Agora compreendo a insistência de um fetiche pelo andar masculino que sempre me acordou para a vida.

 

     Vovô, sempre soturno, não deixava o chapéu de feltro, nem o cachecol xadrez. Seu lema era ouvir e calar, por isso conseguiu manter a freguesia.

 

     Naquela tarde, nem que eu saísse do lado de fora, não poderia ver os cavalos; a venda estava atulhada de gente, e minha atenção se concentrou no interior da venda. Surpreendi-me observando aqueles homens. À moda dos cavalos, alguns permaneciam imóveis pelos cantos, com o olhar fixo num ponto do chão. Outros, encostados no balcão ou no portal, cruzavam os braços no peito, como se se protegessem de alguma ameaça; os mais extrovertidos levantavam o copo de pinga e brindavam à saúde do visitante desconhecido, e, como se fossem íntimos, começavam a falar de família, de trabalho e de paixão.

 

 

     Era fascinante ver aqueles homens semi-iluminados pela luz oscilante das lamparinas. Suas testas ficavam milagrosamente vermelhas e brilhantes. Os olhos, antes embaçados, de repente brilhavam como duas estrelas, graças ao poderoso efeito da cachaça. De vez em quando, entrava no ambiente a doce voz do velho Bruno, que, sentado no passeio, cantava e fazia chorar seu cavaquinho. Seu Bruno era homem de pouca pinga, seu fraco, mesmo, era cantar. Seu Antenor, nosso vizinho antigo, ficava o tempo todo encostado perto da balança. Seu rosto cheio de rugas parecia uma velha pedra. Nunca sorria, nem xingava, nem dava opinião. Parecia que ia lá só para ouvir o cavaquinho do velho Bruno. Aristeu, sem pedir licença, entrava apressado, murmurava alguma coisa, batia continência para mim como se eu fosse importante. Dona Benigna voltava da praça com Geraldo. Geraldo pedia água e eu corria para o fundo da venda, alegre. Lavava muito bem o copo, enxugava e enchia de água da bica. Mamãe sempre dizia: "quando a pessoa está ausente, faça tudo perfeito, porque Deus está vendo". Enquanto Geraldo bebia aquela água cristalina, tal qual em folha de inhame, dona Benigna, como sempre, justificava os passeios àquela hora: "ele fica calmo depois que vem do Gaspar".

 

     Os dias se passaram, e os homens continuaram a freqüentar a venda. Meu avô, sempre carrancudo, vendia, sem peso na consciência, os bolos roídos pelas baratas. Minha avó, em cima do sobrado, não descia nem para acompanhar visitas. Seu Antenor, nosso vizinho, fora tomado de doença séria e ficou esquecido pelos fregueses da venda.

 

     Comecei a perceber que cada um naquela venda era uma ilha perdida. Na carranca de cada um, havia escondido o segredo de uma existência. Deixei de observar os cavalos para observar os homens, mas nenhuma verdade individual captei. Eram todos seres cristalizados pelo tempo, e eu, na minha fresquidão, ainda não podia imaginar o segredo que cada ruga escondia.

 

     Hoje, tão longe, tão distante dessa época, precisei capturar esta remota cena da Rua Fonseca, na tentativa de recuperar brilhos perdidos e garantir minha alegria.

 

 

Maria de Lourdes Camelo é professora universitária em Lorena – SP

E-mail: louget@uol.com.br