A  cerzideira

 

                                Maria de Lourdes Camelo

 

 

 

Há quase cem anos, Maria das Neves abria as janelas coloniais e contemplava o vale florido. Sem que adivinhasse, fincava, em solo mineiro, o destino de uma família.

Quando se fala dela, a boca tem mel. Quando se pensa nela, repousa-se.

Quando se reza por ela, plantam-se esperanças. Boa Vista, distrito de Mariana, foi seu universo. Ali, bordou crivos e pontos de cruz. Cerziu roupas e vidas. Teceu mantas e toalhas, fiel ao gesto milenar de quem espera e confia. De sua casa se avistava, numa encosta, o pequeno cemitério onde estavam seus pais e avós.

 

Por perto, alguns regatos de águas claras.

Ao redor, brincos de princesa, parreiras de uva, uma horta, galinhas soltas.

Majestosamente, no quintal, um pé de jatobá. Teve três filhas e um filho.

Não chegou a envelhecer. Muito cedo deixou apenas seus rastros de luz.  

Ainda hoje, quando penso nos relatos de família, perco-me no devaneio.

Uns diziam que era como uma manhã de outono; outros que tinha mãos de fada e os mais próximos lembravam-se da nobreza de sua alma.

Quanto à sua vida, conheceu-se o trivial, o tangível; poucos souberam

dos pequenos gestos, das sutilezas, da força de seu espírito.

Bem cedo precisou assumir a casa, depois da viuvez.

 

Aprimorou-se na arte de cerzir e ficou conhecida nas redondezas.

Tinha mãos mágicas.  As roupas voltavam perfeitas e restauradas.

Não se achavam vestígios do estrago, pois, ela sempre usava a linha certa, no ponto certo. Havia arte em seu trabalho e em tudo o que fazia. Esta foi a face conhecida.

 

 

Mas, para os mais íntimos, Maria das Neves não escondia alguns projetos.

E duas eram suas prioridades. Já há algum tempo, mantinha em sua casa,

num quarto limpo e arejado, sua irmã mais nova que chegara doente, com o corpo em feridas. Maria das Neves a acolheu com o coração cheio de amor.

Cuidou das feridas com zelo de mãe. Lavava uma por uma, fazia chás de picão e camomila.  Refrescava o corpo da irmã com folhas de bonina e, à noite, servia sopa de inhame. Ouviu seu choro, acalentou seu sono, ensinou-lhe a bordar, à sombra das parreiras.

Restaurou Nenzinha para o trabalho e para o amor. Guardou o segredo da irmã. Só ela sabia da paixão pelo viajante de armarinhos que nunca mais voltou. Inexplicavelmente, depois de curada, Nenzinha exalava perfume suave de sândalo que atraia pessoas, até mesmo as que antes a evitavam.

 

Mas o projeto mais audacioso foi uma toalha de mesa, grande, de puro linho dos Açores. Minuciosamente planejada. Delicadamente sonhada. Cenas domésticas compunham o desenho: um vale florido, bangalôs, bichos e crianças saltitantes. Pensaríamos: inspiração divina? Profecia? Sabedoria de mãe?

Diziam que era visível o prazer daquela hora em que todas as tardes, de frente para o vale florido, Maria das Neves ajeitava o linho branco no bastidor e perfurava-o como se preparasse a terra para o plantio. Muitos e muitos meses, para transformar aquela estimada peça portuguesa, trazida pelos pais, em obra de arte. Depois de pronta, lavada, engomada e passada,

fez-se uma reunião de família, na sala de jantar, com muitos bolos, tarecos, café e pão de queijo.

 

Maria das Neves, pela primeira vez, pedia que lhe fizessem uma vontade.

Abriu a bela toalha e expôs seu desejo:  “esta toalha é para vocês.

O primeiro que se casar deverá levá-la consigo. Quando for a vez do segundo, deverá ir para ele, e assim por diante. Meu desejo é que ela visite todas as casas, como se faz com os santos.”

 

 

O desejo foi cumprido por várias gerações.

De muitas formas a toalha foi exibida e cobiçada por sua beleza.

Cobriu muitos altares em missas solenes, reverenciou o Santíssimo Sacramento, de muitas janelas, cobriu mesas de aniversários e jantares formais. Testemunhou todas as emoções familiares. Se fosse gente, dir-se-ia que era a mais feliz das criaturas. Humanizou-se sem o saber. Afinal, representava um projeto de amor. Como a percepção varia como variam os seres humanos, a bela toalha, em algum ponto de sua existência, sofreu as avarias do tempo e caiu em mãos insensíveis.

Para nada mais serviu.

 

Chegou a ser usada, dobrada ao meio, num almoço improvisado, foi emprestada para formaturas, voltou suja de vinho e tinta de caneta, amontoada com outros trapos. Assim, desapareceu do meio humano e familiar.  Maria das Neves morria ali.                                  

Certo dia, pela providência divina, fui chamada para abrir uns sacos de roupas que iriam para o lixo. A velha empregada, de profundos sentimentos, sabia que os ares eram outros, que não mais contavam o passado e a memória. Eis que me deparo com a bela toalha de Maria das Neves, minha bisavó. Extasiei-me. Ela entraria em minha casa, definitivamente.

 

Repetindo o gesto quase secular, lavei, alvejei, engomei e passei a toalha, como num ritual sagrado.

Hoje, toda minha família ao redor da mesa, inauguro um novo tempo.

Com a  melhor louça, brindo à saúde de todos. Impecável, a toalha de crivo, cuidadosamente estendida, compartilha de nossa alegria.

Na cabeceira, minha filha mais nova acaricia o bordado e esboça um sorriso, entretida.

Estaria ela adivinhando um vale florido?

 

Maria de Lourdes Camelo é alvinopolense e reside em Lorena-SP

E-mail:  louget@uol.com.br