Comunhão
Maria de
Lourdes Camelo
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Foto : Mauro
Sérvulo |
"... o senhor escute, me escute mais do que eu
estou dizendo; e escute desarmado." Guimarães Rosa
Acordávamos às três da manhã. Eram três batidinhas leves e eu já
estava de pé. Saíamos às quatro para a missa das cinco. Era
sempre o mesmo ritual: um banho rápido, uma meinha, um sapatinho
fechado e um casaco. Marrom. Mamãe tinha os cuidados de sempre -
não acorde os vizinhos, Dona Eponina está dormindo, Dona Mariana
também dorme. Escove os dentes mas não beba água, olhe o
jejum... Saíamos na ponta dos pés, como se já estivéssemos na
igreja. Foi assim toda primeira sexta-feira do mês desde a minha
primeira comunhão. Eu sabia o que nos esperava: muitas velas
acesas, colunas brilhantes, cálices de ouro, ladainhas cantadas
e brancas hóstias. Dona Zulmira preparando carinhosamente o
altar para o ofício e Dona Judith ensaiando alguns acordes no
harmônio, enquanto o incenso dos fumegantes turíbulos inebriava
o ambiente. Era prenúncio do paraíso.
Minha
casa ficava na Rua Fonseca, 59, distante da Matriz de Nossa
Senhora do Rosário. Esse trajeto foi o mais marcante de minha
vida. A rua deserta, o silêncio, as casas fechadas. Atravessar a
Praça Bias Fortes era tarefa difícil. Naquele momento, eu sabia
que Paulo Moreira já havia regressado para a fazenda. Sua visita
à cidade se dava entre meia-noite e uma hora, mesmo porque,
exatamente naquela noite, eu já havia escutado o tropel firme do
seu cavalo. Isso me tranquilizava, mas, ao passar pela praça, eu
olhava de soslaio, quase imperceptivelmente, com a impressão de
ver um vulto sentado ali no meio e ouvir um barulhinho de
cascalhos soltos, mas, permanecia calada. Uma só palavra e
encanto quebrado. Num gesto de defesa, voltava meu olhar para o
outro lado. A loja de papai dormia aguardando o amanhecer. A
cerração fazia um círculo ao redor dos postes, tenuamente
acesos. Havia luzes na padaria de Seu Dario e um cheiro de pão
já saia dos fornos. Devagar, ia recuperando o fôlego. Do bar de
Seu Darcy vinha um doce e refrescante aroma de picolés. De
creme, de leite, de milho ou de groselha? Mais tarde papai iria
buscar um para mim. Ao passar pelo sobrado de Dona Stela, meu
coração batia mais forte. Ela era minha professora e gostava de
mim. Na loja do meu pai um dia eu ouvi uma conversa assim:
-
Fique tranquilo, Rubens, ela vai bem, sua menina é inteligente.
Contornávamos o caminhão do Seu Dico Gama e acelerávamos o
passo, rumo à Matriz. Silenciosa, mamãe continha o medo de
cachorro bravo e eu de assombrações. Entre o Seu Quinzinho e a
loja do Seu Ernesto, não havia viva alma. Apertávamos o missal,
o terço e o filó. O dela, preto e o meu, branco. Entre nós
havia um silêncio, um segredo. Embora confessássemos e
comungássemos juntas, eu nunca soube os pecados dela nem ela os
meus. Só Deus e o padre. Nosso coração se iluminava quando
alcançávamos a Rua de Cima e víamos Dona Joaninha saindo de
casa ajeitando a fita vermelha do Sagrado Coração e, logo
adiante, Dona Nita de João de Vina e Zita de Caetaninho, nossa
prima. Íamos conversando e rindo, enquanto Dona Nita aquecia
minhas mãos com suas mãos quentes.
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Foto : Mauro Sérvulo |
Comungávamos como se estivéssemos no céu, entre anjos. Rezávamos
e cantávamos. Padre Jairo, de costas, cantava em latim. Do
altar, o incenso impregnava minhas roupas e minha alma.
Suavemente saíamos. Mas, antes, minha mãe me fazia uma vontade.
Atrás da Capela do Santíssimo, sobre um velho túmulo, mulheres
que vinham de longe, do Gravatá, das Contendas, da Mostarda, do
Benfica, da Barra do S e até da Zamparina, abriam uma toalha
xadrez e exibiam quitutes dos mais variados. Frango com farofa,
chouriço doce e salgado, tarecos, broa de fubá, queijo curado,
biscoitos de polvilho, café, café com leite e até pinga. Eu, na
condição de criança, tinha livre trânsito naquele espaço. Era
uma segunda santa ceia, a mundana, a humana, da qual não
podíamos nos esquivar. Eu me fartava e Deus perdoava minha
intolerância ao jejum.
Há bem
pouco tempo, na angústia da insônia, precisei chamar pela mão
daquela negra esguia das Contendas que me oferecia uma caneca
esfolada de café com leite e um sorriso branco. Nessa noite, ela
me aquietou e dormi em paz.
Voltávamos refeitas e felizes para casa. O "Progresso" já
circulava, Prof. Jayme abria a janela e nos cumprimentava, Tony
Moraes, infalivelmente, perguntava à minha mãe: como vai essa
princesa? O Hotel de Seu Juquita liberava seus hóspedes, Dr.
Carlos, de terno bege, ia para alguma audiência, Seu Niquinho
abria a alfaiataria e Dr. Mário já contornava a praça rumo ao
hospital.
Tudo
isso representou, para sempre, o esteio, o prazer, o refúgio e a
autêntica Comunhão.
"O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas
antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de
recente data. O senhor mesmo sabe".
Guimarães Rosa
Maria de Lourdes Camelo é alvinopolense e reside
em Lorena-SP
Contato : louget@uol.com.br