Monte Santo,rogai por nós.

 

Maria de Lourdes Camelo

 

 

Foto : Gjunior

 

Para Irmã Helena Paiva,  pelo resgate dos valores primeiros da Beneficência Popular.

 

          Sainha xadrez, pregueada, blusinha branca, boina azul-marinho. Lápis de cor, perfumados. Na merendeira, biscoitos de maizena, café-com-leite, bolo de fubá. Lá no alto, no Monte Santo de Nossa Senhora, Irmã Margarida nos esperava.

 

         Aprendi com a psicanálise que a maioria de nossos atos é movida pelo inconsciente. Aprendi, também, que a memória é seletiva. Nossas reações podem, muitas vezes, ser inesperadas, fora de nosso controle. Com base nessa aprendizagem, julguei oportuno narrar uma situação embaraçosa que me aconteceu em São José dos Campos, numa loja. Era inverno e as vitrines estavam sedutoras. Chamou-me atenção, especialmente, uma de chapéus e boinas. Não vou narrar detalhes, mas, eu sabia que estava vivenciando uma reminiscência agradável, porém, indecifrável naquele momento. Depois de contemplar, demoradamente, uma boina azul, linda, saí da loja, num impulso, entrei numa livraria. Abri algumas caixas de lápis de cor, cheirei as pontas causando estranheza à balconista. Saí da livraria quase sem controle de meus passos e sentei-me numa cafeteria. Naquele tempo, minha alma padecia de solidão e vazio. Pedi um café expresso, com um pinguinho de leite, e dois pães de queijo. Revigorada pelo alimento, fui para casa. Eu não podia negar, estava emocionada. Inexplicavelmente, uma sensação de plenitude conduzia meus passos.

 

          Naquela semana, minha tarefa consistiu em escrever o seguinte texto: de todos os lados, magicamente, por várias trilhas, aquele monte era enfeitado, todas as manhãs, por pequenos vultos, crianças agitadas, em frenético burburinho. Cá embaixo, nas ruas, nos quintais, os pais acompanhavam aquela escalada, atentos. Alguns com binóculos, outros com alguma senha, previamente combinada com os filhos. Meu pai, por exemplo, batia palmas, no fundo do quintal. Lá de cima eu acenava com meus braços curtos. Só depois ele ia ao trabalho.

 

Monte visto de cima.  Foto : Glauco M. Trindade

 

          Irmã Margarida nos esperava, com sorriso largo. Abaixava-se ao pé da escada e nos acolhia como se cada dia fosse o primeiro. Para nós, também, cada dia era ímpar. Cornélia transitava pela casa. Nós sabíamos que ela era diferente. Guardava um segredo do qual ninguém sabia detalhes. Nossa Senhora apareceu diante dela. Um clarão. Um privilégio. Um mistério. Durante a vida, nutri uma inveja inconsciente dessa menina-orfã. Por que não apareceu para mim?  Mas, depois, muito mais tarde, descobri, num momento de contemplação, que Ela aparecera para mim, também, que sempre esteve comigo.

 

          Monsenhor Rafael era nosso anjo-confessor. Que pecado tínhamos? Sorridente sempre, ele nos amava. Certo dia, ele abraçou-me e rodopiou-me no ar. Até hoje sinto aquela vertigem. Nosso recreio, às margens dos ciprestes, era iluminado por um céu encantadoramente azul. Nossa merenda era manjar. Dominique, nique, nique era a música que embalava nossa dança inventada . Não precisávamos sonhar, ali já era o paraíso. Lá embaixo, mamãe esperava com almoço quente e a casa limpa, eu sabia. Às seis da tarde, o alto-falante, lá de cima, enviava a Ave Maria de Schubert. A cidade rezava, iluminada pelo crepúsculo, vigiada pelos montes.

 

          Minha vontade, depois desse relato, era apenas dizer: AMÉM. Não há outra palavra que alcance a dimensão dessa experiência de todas nós, meninas, quase anjos, do Monte Santo. Parafraseando Drummond: de Alvinópolis trago essa inocência arraigada, esse hábito de acender velas, essa crença nos contos de fada, esse medo do lobo mau e esse pulsar contínuo pelas coisas do alto.

 

Maria de Lourdes Camelo é professora universitária em Lorena – SP

E-mail: louget@uol.com.br