Tear e Sonho

 

Maria de Lourdes Camelo

 

 

 

 

"... todos na cidade sabiam que aquele movimento era dos operários da fábrica. Sonolentos, íamos em grupos, madrugada adentro, rompendo a cerração. Uma lua embaçada e triste caminhava conosco, lentamente, testemunha daquela labuta. Os mais novos brincavam, aos pulinhos, levantando poeira; os mais velhos, cansados, arrastavam chinelos e alpercatas. Era outro tempo! As ruas, em terra batida, abriam espaços para aquela marcha diária e passiva de homens e mulheres.

 

Eu estava entre eles, com apenas quatorze anos, coração apertado. Ao chegar, entretanto, a alegria invadia o peito vendo o deslizar colorido da chita. A fábrica ficava no começo da cidade. Produzia a mais bela chita do Brasil. Era orgulho e mãe dos pobres. Ao longe, já se ouvia a cadência monótona dos teares e lançadeiras; também se ouviam o primeiro, o segundo e o terceiro apitos. Ao terceiro, os portões se fechavam. Funcionava dia e noite, mantinha a ordem dos lares e fermentava sonhos. Tecia chitas colorindo vidas." Era o relato emocionado de minha mãe.

 

 

Seu rosto remoçava sempre que tais lembranças se lhe afloravam. Íamos para a varanda dos fundos, depois do almoço, e conversávamos horas a fio até que Ção nos chamasse para o café da tarde. A casa cheirava a bolo.

 

Mulher feita, eu sabia da importância da escuta amorosa. A velhice não chegara para minha mãe. Havia sempre em sua voz o frescor das manhãs e em seus olhos, brilho de estrelas. Falava com a solenidade dos evangelhos e aceitação da sorte que lhe coubera.

 

A vida na Fabril foi entremeada por trabalho e sonhos. Sua voz embargava ao lembrar-se da singeleza daquele tempo em que descobria, também, o amor.

 

Companhia Fabril Mascarenhas - Tempos antigos

Foto : Mauro SÚrvulo

 

 

"... era uma mesa tosca, um copo no centro com uma rosa do quintal. Olhávamo-nos às lágrimas. Meu vestido de chita se embebia de suor. Nossas mãos, trêmulas, se encontravam. Foi assim, todos os domingos, até o casamento."

 

Implícita, a experiência da felicidade que, sem intenção, me ensinava. Hoje, na mesma varanda dos fundos, distraindo-me com os pequenos pardais entre o limoeiro e os pés de ora pro nˇbis, chegou minha vez de lembrar.

 

Minha mãe, naquele tempo, sem o saber, tecia minha história com laçadas fortes, pontos firmes e, tal qual a chita, deixava-me como herança um colorido vivo que, acanhada, tento esconder em minha alma.

 

 

Maria de Lourdes Camelo Ú alvinopolense e reside em Lorena-SP .

E-mail:  louget@uol.com.br

 

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