Visitação

 

Maria de Lourdes Camelo

 

            

                    Marieta trazia um pão-de-ló fofinho e um bule de café quando a conheci. Era alta, forte, sorridente, reverente. De gestos suaves compunha-se sua pessoa. Diziam que na infância rachou lenha, varreu terreiros, apartou gado, plantou roça, ninou crianças. E que, na juventude, não conheceu sandálias, não usou rouge, não ganhou abraços. Nasceu numa fazenda de escravos e era Filha de Maria. Gostava da primeira missa, de madrugada, para não incomodar ninguém. Dormia num catre simples entre tufos de capim.  Fechava os olhos quando ouvia rádio. Nunca foi triste. Para ela, como na Bíblia, tudo era bom. Minha mãe dizia que Marieta era santa, mas eu não entendia.

 

                    Todas as tardes de domingo, depois da janta, minha avó materna me tomava pela mão e íamos visitar tia Naná. Só de pular o degrau de nossa casa e alcançar o passeio, eu já era só alegria.  Mas, continha os passos, porque vovó não tinha pressa. Havia sempre um presentinho para eu oferecer à chegada: uma barra de toalha, um pote de arroz doce, uma latinha de café moído em casa. Tia Naná e Marieta sempre nos esperavam no fim da escada, entre samambaias e avencas. Na grande sala, as duas irmãs conversavam sobre chuvas, colheitas, novenas, chás para o fígado e parentes distantes. Rezavam o "Magnificat", às vezes, o terço. Em silêncio, eu aguardava o chamado de Marieta, da cozinha. Enquanto esperava, ia revendo a galeria de retratos e o pêndulo do velho relógio. Em pouco tempo eu já não estaria mais na sala. Aguardava-me um cenário inesquecível, mítico, transcendental. A cozinha quente, o fogo intenso e o crepitar da lenha inspiravam reverência, vontade de rezar. 

 

 

O fogão vermelho era peça principal. Marieta engradava a lenha e soprava os tições com propriedade de quem sabe o que faz.  Labaredas imensas lambiam as paredes, povoando-as de monstros e cisnes. Nas trempes, panelas de ferro enfileiradas, água fervendo para o café. Bem à mão, latas com biscoitos de nata e araruta, bolos e doces picados em losangos. No alto, sobre o fogão, um jirau, como gangorra, revelava, entre picumãs, tiras de toucinho, lombos, linguiças, tripas de porco e queijos. A fumaça embaçava nossos olhos.  Por uma pequena janela entrava a brisa suave da noite. Este espetáculo me reprimia quase à dor, tamanho o prazer. Marieta estava ali, meiga, altiva, como uma deusa africana.  De seu pescoço pendia um terço rústico.

 

                  Nossas visitas só terminavam quando o fogo esmorecia e começávamos a bocejar. Voltávamos com os potes cheios. Era uma farinha torrada, urucum para tempero, figos em calda. Da horta vinham ramos de losna e boldo, para o fígado.

                   Deixamos tudo para trás, minha avó e eu. Ainda mantenho em casa o boldo e a losna, mas o fogo, aquele fogo, perdi-o no tempo. Hoje, evoco a lembrança de Marieta. Não, não mais para aquelas delícias, mas para pedir uma bênção ou, quem sabe, um leve aceno.

 

 

 

Maria de Lourdes Camelo é alvinopolense e reside em Lorena-SP

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