Máscara caída

Do livro Bailado das máscaras

 

Magda Lúcia Rodrigues

 

 

 

 

Ante o espelho um rosto só.

Contrição do reverso singular

onde dormita o inconsciente

e se desenha essa parva face.

 

Na bruma espessa da carne

a cópia em guache - miragem.

Um padecer posto se desdenha

e faz curvatura em lágrimas...

 

O'ido ferido reserva memória

por onde escondem todas as sombras!

- Que sinos tocarão a vanglória

de Narciso desnudo e envelhecido ?

 

 

 

Crítica para o livro Bailado das Máscaras

Poemas de Magda Lúcia Rodrigues

Por Wilson Figueiredo*

 

 

 

Não quero perder a oportunidade de falar sobre o seu livro BAILADO DAS MÁSCARAS. Digo de saída, para não parecer que estou dando voltas sem sair do lugar, que gostei. Até me surpreendi com o domínio dos versos que faz de você uma amazona num baile sem máscaras. Puxa, como você se expõe (no bom sentido) como ser humano, a franqueza de confessar sentimentos e desejos. Um jogo aberto num baile de máscaras em que todos sabem quem são. Mas quero falar é do seu domínio sobre os versos, a consistência métrica, a segurança das palavras, numa imensa margem criativa que, na minha opinião, é uma das fortes marcas do seu texto. Não vou me arriscar a considerações solenes porque não acredito que se possa transmitir ao autor mais do que aquilo que se sente como leitor. Seu livro anterior não me arrancou da minha letargia do texto jornalístico.  As máscaras, sim. Um psicólogo se interessaria em captar o que está por trás das máscaras, eu prefiro o jogo de cena. E foi por ai que o livro mais me agradou, embora não saiba nem queira quebrar o encanto da leitura com raciocínios que no máximo secam as fontes. Poesia é para ser sentida. Gostar ou não gostar, eis  a questão. Mais de uma vez já passei pela descoberta de trabalhos de tanta gente boa (até em prosa) que não tinham me comovido de outras vezes.Assim, não vou dizer porque gostei e aferir sem adjetivos o que me ficou da leitura.

Como sempre faço, só me arrisco a ler livro de poesia quando me sinto disposto. Não queria ser racional, mas apenas humano. Pela mão de Cecília Meireles, senti que  se abria uma janela e vinha da paisagem uma aragem imprevista. A cortina transparente, a brisa e lá fui eu até o fim. Cito os poemas que me levaram ao estado de graça que é a razão de ser da poesia. Obviamente, As Máscaras são a arte poética com que você se apresenta. Mas o que me derrubou foi Ritual de inverno. Envelhecer não me deixou respirar. O resto veio de cambulhada: Cigana, Se me amasse..., Cristal partido, Sedução de Eros, Segredo, Coração ardente, Labirinto, No Jardim do Amanhã, Em preto e branco, Estação das libélulas, Coração de criança. Aproveito para dar um palpite: desconfio que estes citados expressam, de maneira sintética, com jeito de epigrama, o que têm a dizer. Você é a intérprete. É talvez este o seu jeito mais pessoal de dizer. Até, às vezes, um toque de leveza, quase humor. Sempre inteligente. Em Âncoras foi que percebi a cadência métrica (os dois quartetos finais) que a sua mão já incorporou. Depois, Sonata Cíclica. Vou parar de relacionar títulos e encerrar com Natal, que é um epigrama perfeito. E Saudade (para sua irmã). Gostei de Nas doces águas de amarga vida, com um final perfeito, aquele "o vesgo olhar da fome marginal".  Anotei também Pedras de estilingue, Retalhos da infância, Rua do bem querer, Cirandando, Momentos, Água de Moringa, Máscara caída. Tonificado pela língua portuguesa, pisei nos versos em espanhol como quem anda sobre rua de pedras. Fica para outra oportunidade. Para mim, você é mais você do que nunca no que citei. Não é discriminação dos que não foram citados, mas é aquele negócio de ter de escolher. Eu li como uma pessoa o que outra pessoa, no caso uma prima, escreveu. Gostei, e muito. Nada mais tendo a dizer, peço desculpas pela demora e pela incapacidade de me explicar. Mas poesia não é para ser explicada, e sim vivida. Vivi.

 

*(Jornalista e escritor)

*No ano de 1940 uma geração de mineiros, que viriam a ser grandes escritores nacionais, circulou por Belo Horizonte: Emílio Moura, João Ethienne Filho, Francisco Iglésias, Wilson Figueiredo, Carlos Castello Branco, Autran Dourado, Sábato Magaldi, entre outros.

Wilson Figueiredo deixou a vice-presidência do Jornal do Brasil, em 2004,  mas continua escrevendo artigos e reportagens, principalmente para o Caderno B, edição on line.

 

No ano de 1940 uma geração de mineiros, que viriam a ser grandes escritores nacionais, circulou por Belo Horizonte: Emílio Moura, João Ethienne Filho, Francisco Iglésias, Wilson Figueiredo, Carlos Castello Branco, Autran Dourado, Sábato Magaldi, entre outros.

Wilson Figueiredo deixou a vice-presidência do Jornal do Brasil,em 2004,  mas continua escrevendo artigos e reportagens, principalmente para o Caderno B, edição

on line.

 

 

 

Do livro : Bailado das máscaras

De Magda Lúcia Rodrigues

Contato : magdabeaga@terra.com.br

 

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