Entre estrelas, nuvens e o eterno.

 

Magda Rodrigues

 

 


A perda de um amigo provocou-me novamente o temor e a eterna angústia que me traz a morte...
Chorei muito! Muito mais que uma criança pirracenta. Estou com os meus olhos inchados e como eles meu peito envelhecido...
Turrona que sempre fui ando com medo de “peitar” a vida, de não alcançar um novo dia de esperança. Meus amigos estão partindo sem aviso nenhum!


Certo é que o tempo não nos furta as boas lembranças, nem a fé de um novo amanhecer. E, saudade torna-se a vilã de nosso cotidiano viver.
Fomos alegres em nossa infância, de pés descalços, literalmente na maciez e empoar da terra chão e com muitos sonhos de vida afora...


Estou velha e decadente. Sinto-me – dependendo da variação da lua (TPM não se fala mais!) com vontade de descansar à sombra daquela grande mangueira que ficou no quintal da minha antiga moradia, e se existe ainda, traz esculpidos dois corações entrelaçados. Pode parecer ingenuidade ou uma asneira qualquer – não tem importância – são passagens e paisagens de um tempo feliz, em que nós dois desejamos simbolicamente perpetuar nosso sentimento!

 

 

Por vezes, embalada em silenciosa noite, penso no fugidio amor convertido em uma grandiosa amizade e nessas tantas lágrimas que espalhei nos ramos e folhas secas daquela mangueira, tal qual um afago e esperança de um renascer.
Em verdade, o amor foi agônico, sempre interpelado pelo medo de perder a nossa grande amizade. Em troca, nos acomodamos às horas silenciais e aos mistérios da timidez. Foi bom aparentemente para todos!


Eu mudei de minha terra natal no início do ano de 1966 e o platônico e terno sentimento se conteve na sucessão dos anos, mesmo à distância e em desassossego. Algumas vezes, bilhetes, um poema e recados eram enviados por ele através de amigos, convidando-me a um encontro aqui ou em outro local à minha escolha, para clarear fatos e ajustar nossos destinos. Nada aconteceu! Não porque eu ou ele temesse a afiada língua dos invejosos que desconhecem a força do amor e condenam o mais puro sentimento existencial.
Ele partiu. Certamente foi em seu carrinho de “rolimã” pelos caminhos traçados nas estrelas ou, em sua patinete azul tenha alcançado as nuvens... Sabe-se lá, seguiu em sua lambreta vermelha em direção ao eterno.

 

 

Este conto fará parte do novo livro : Fragmentos do espelho do ontem.

 

Magda Lúcia Rodrigues é escritora alvinopolense, membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.
Contato :
magdabeaga@gmail.com

 

Colunas anteriores