História que Manuel Alves Nardi me contou.

 

Magda Lúcia Rodrigues

 

 

Nos anos de 1980, trabalhei na zona rural de Andrequicé (MG), retornando sempre para a cidade de Curvelo(MG), que havia escolhido como cidade 'eixo' de meu roteiro de viagens na região, de onde partíamos todas as manhãs - eu e o motorista do INCRA - para visitarmos algumas fazendas indicadas pelos laudos técnicos e agronômicos para fins de reforma agrária.

 

Certa manhã, quando visitava pela segunda vez a fazenda Santa Luzia, estávamos do lado de fora da casa, conversando com a proprietária, creio de nome Judite, quando apareceu entre a vegetação do cerrado seco, montado num cavalo da cor branco pardo, um homem cujos pés firmes nos estribos me dava a impressão que suas pernas eram dois arcos, tamanho eram suas estaturas. O animal espumava, havia corrido muito e quando o cavaleiro desceu de sua montaria, pareceu-me um "Dom Quixote" sertanejo. Cumprimentou-nos um a um, estendendo sua mão cheia de calos e de alongados dedos. Depois pediu licença à dona da casa para adentrar e pegar água fresca, pois a que trazia na "moringa" estava morna de tanto sol. Por lá demorou algum tempo, de costas para nós, na porta da cozinha e defronte uma bica que escorria água contínua. Na época desconfiei que estava ali parado "assuntando" para se enfronhar do assunto do nosso grupo. Ao retornar, sentou-se numa grande pedra plantada pela natureza, bem à estrada da casa e mastigando fumo crioulo, de repente pediu licença e cortou nossa conversa dizendo : " pra que dividir terras pros outros, Deus deu a reforma agrária natural em que cada filho herda o seu terreninho dos pais...".

 

 

Quando tentei explicar-lhe o porque e como era o projeto, com o olhar esmiuçado, mas muito vivo começou a falar de suas viagens, que acreditava ter visto muito chão...

Interrompi-lhe com a minha costumeira avidez e indaguei-lhe onde nascera; foi o ponto de partida para uma longa narrativa. Contou-nos que era filho de imigrante italiano de "Rivello" e que fugira cedo de casa, pois havia "feito mal a uma moça" em sua terra natal Nossa Senhora da Saúde(MG). Voltei a indagar-lhe: Dom Silvério?

Disse-me que sim e continuou narrando sua história, que por volta de 1918, bem menino, porém homem feito arrumou o embornal com alguma matula e chegou até o "alemão" e lhe pediu pra ir junto de sua tropa e o cinema mudo mundo afora. Com o meu coração batendo aceleradamente, qual foi a minha surpresa ao descobrir que ele falava do Sô Anselmo, nada mais que meu avô!

 

 

Aquele homem alto, magro e de fala macia, ficara engasgado quando eu lhe disse que o alemão Anselmo era o meu avô! Sua barba desgrenhada não conseguiu tampar a vermelhidão causada em seu rosto e seus olhos miúdos lacrimejaram. Naquela tarde não voltamos para Curvelo, dormimos na fazenda. Conversamos muito e ele só me revelou que era o "Manuelzão" amigo e companheiro do escritor Guimarães Rosa, quando no dia seguinte me presenteou com um cartaz onde estampava sua figura. Não o vi mais, exceto em uma homenagem que lhe fora prestada, aqui em Belo Horizonte, antes da sua morte. Em Andrequicé, em outra ocasião falei com a Dona Didi, sua dedicada esposa.

 

Magda Lúcia Rodrigues

Neta de Anselmo CarloTurrer

 

Do livro : Nos olhos azuis de Turquesa.

Genealogia da Família Turrer

De Magda Lúcia Rodrigues

Contato : magdabeaga@terra.com.br

 

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