Associação dos Inimigos da Cultura

 

Marcos Martino

 

 

 

Estamos criando uma associação pra acabar de vez com essa história de que Alvinópolis tem cultura. Pela nossa maneira de pensar, não precisamos de cultura nenhuma pra viver.

 

Quem é que falou que congado tem importância?

Coisa chata esse negócio de reinado de Nossa Senhora do Rosário. Um monte de negros dançando com suas roupas brancas, tocando sanfonas e violas num tal de "tum dum trás cá".

Isso não dá dinheiro nenhum. E se não dá dinheiro, não tem nenhum valor.

 

Vamos acabar também com esse tal de Festival de Música.

Coisa idiota isso. O fato de Alvinópolis ser uma das últimas do cidades do país a preservar seu festival significa que tá teimando com algo antigo e ultrapassado. Ninguém mais faz festivais de música. Isso representa um atraso tremendo. E tem outra coisa, também não dá dinheiro. Os empresários e políticos locais geralmente não apoiam porque é sempre preferível investir em eventos populares que dão muito mais retorno e principalmente votos.

 

Vamos dar um fim também nesse negócio de Festa da Chita.

Chita pra mim é a macaca do Tarzan. Esse pessoal fica inventando moda. O negócio é fazer cavalgada, colocar cantores sertanejos, brega, funk e pagode. O resto é frescura de intelectual.

 

 

Nosso carnaval tá até melhorzinho. Pelo menos agora se atualizou e tá tocando funk, que é uma música mais atual, que tem mais a ver com o povão.  Ainda bem que acabou a tradição do Industrial e Alvinopolense. Ficamos livres de vez daquelas duas marchinhas cafonas que são "Adeus marinha" e "Bambas do Gaspar".

 

Tem uns bobos que ainda ficam falando em literatura na cidade. Inventaram até um Grêmio Literário e ficam se encontrando para declamar poesias e falar de cultura. Coisa chata de elite que não tem o que fazer.

Esse povo precisa acordar para a realidade de que cultura em Alvinópolis é fazer pano, falar da vida dos outros, vender shampoo, vender areia, plantar eucalipto, vender carro e tomar muita, muita cerveja.

 

Quanto a bandeira da cultura que alguns gatos pingados levantam, grande bobagem. Alvinópolis nunca teve e nunca terá cultura, pois nós não vamos deixar.

Está provado que a venda é que indica se um produto é bom ou ruim.

Se é ruim o povo não compra. Nada mais seletivo. O resto é coisa de intelectuais chatos.

Portanto, proponho que risquemos a palavra cultura do nosso vocabulário e coloquemos no lugar a palavra produto. Pelo menos assim é mais honesto.

E aguardem, pois em breve vamos fazer uma reunião da associação para definirmos nossos objetivos, estatuto, tudo para acabarmos com essa ideia idiota de que Alvinópolis tem cultura.

 

 

Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com