Sei que tem a realidade do consumismo cada vez mais
exacerbado.
Tem também esse negócio da maioria se esquecer do
aniversariante, quando um velhinho de barbas brancas
e roupa vermelha é mais pop que o próprio Cristo.
Tem as histórias e estórias de que o natal foi
criado a partir de uma festa pagã, que não se tem a
certeza quanto à data.
Tem também aquelas pessoas que não tem família ou
tem pais separados, fraturas familiares difíceis de
colar.
Tem ainda a desvirtualização nos carnatais pelo
Brasil afora, quando não tem nem pro Cristo nem pro
Papai Noel, quando impera a sexualização de uma
festa que deveria ser mais espiritual. Mas mesmo
assim, gosto dos natais.
Tem os lados bons. Também é tempo de solidariedade,
de fraternidade. As pessoas ficam mais generosas,
tem mais disposição para a bondade, se presenteiam,
celebram o encontro, a amizade.
Podem dizer que é consumismo, tudo bem, mas acho
bonito ver as crianças no dia 25 pela manhã
brincando com seus brinquedos, felizes da vida e os
pais também felizes com a felicidade de seus
pequeninos. Aliás, o Natal é curtido mesmo é pelas
crianças. A simbologia é muito bonita, as cidades
ficam iluminadas num cenário de sonho.
E
nós adultos, precisamos deixar as crianças que
existem em nós brincar um pouco.
Podemos ainda voltar no tempo e relembrar como eram
nossos natais. Sejamos sinceros: havia mais
religiosidade, mas no fundo o que a meninada sonhava
mesmo era com os presentes. Quem pode negar? Lá em
casa, meus pais tentaram manter o mito do Papai Noel
e eu acreditei durante muito tempo.
Teve uma noite que aconteceu uma coisa intrigante.
Dizem que as crianças vêem espíritos. Certa
madrugada de um 25 de dezembro, vi atrás de um
guarda-roupas um velhinho que me olhava. Em
princípio fiquei com medo, mas ele ficou lá só me
observando. Seria o Papai Noel? Seria uma
assombração? Nunca ficarei sabendo.
Depois voltei a dormir e quando acordei acabei me
esquecendo, pois havia um presente maravilhoso no
chão do quarto: um trenzinho elétrico.
Levantei, montei os trilhos e botei o trem pra
funcionar. No ano seguinte, já comecei a desconfiar
que havia alguma coisa errada.
Na
noite do dia 24 fomos para a casa do meu avô
Dominguinhos, mas meu pai deixou a gente lá e desceu.
Ele ia ao comércio comprar os presentes na última
hora.
No
outro dia cedo eu ganhei um time do Cruzeiro de
Futebol de Botão e o Rogério ganhou um boneco da
pantera cor de rosa. Ele era louco com a pantera.
Mas fiquei desconfiado e já pensando na
possibilidade do meu pai ser o Papai Noel.
Na
época havia missas maravilhosas também. Fui a uma
missa do galo na época, uma cerimônia lindíssima. Eu
estava dormindo em pé. Nem sei como cheguei em casa.
Deve ter sido carregado por meu pai.
Do
nome Missa do galo eu não gostava pois sou
cruzeirense desde pequeno. Aliás, torço pelo
cruzeiro por causa dos meus primos Nivota, Ademir,
Branco que além de tudo jogavam no Industrial, um
time também azul e branco que tinha um escudo muito
bonito.
Os
3 irmãos eram muito bons de bola e titulares do
Industrial. Eu ia a campo ver os 3 jogar e eles eram
heróis pra mim.
Mas voltando aos natais, eram maravilhosos também os
almoços em família da minha infância. Minha Avó
Maria almoçava conosco.
Meu pai ficava muito feliz. Meus avós Dominguinhos e
Rita também participavam. Era uma felicidade só,
poder compartilhar aqueles momentos.
Eu
até arriscava bebericar alguns vinhos adocidados.
Outra coisa marcante pra mim, por incrível que
pareça eram as maçãs.
Não eram artigos tão comuns. Vinham numa embalagem
azul que parecia veludo. E tinha as comidas
deliciosas.
Minha mãe fazia uma bacalhoada que atraia muita
gente. Meu primo Nivota não perdia. Hoje em dia,
meus natais são divididos.
Passo o dia 24 na casa dos pais da minha esposa.
Eles sempre fazem lindas ceias e encontros.
O
patriarca da Família, Sr Carlos faz questão de
presentear a todos os filhos e netos. Imaginem que
são 9 irmãos e nem sei quantos filhos, netos e
bisnetos.
Mas no dia 25, há 49 anos, almoço com minha família
na Rua do Rosário 71 – Rua de Cima – Alvinópolis.
Nesses almoços hoje, temos algumas cadeiras vazias
que trazem saudade.
Mas o natal continua unindo o que restou dos almoços
de outrora.
Temos a presença de Maria e Conceição, que também
almoçam conosco esses anos todos.
E
temos a presença das filhas com as quais deveremos
passar os próximos natais, com as famílias que elas
haverão de formar.
Marcos Martino é alvinopolense, poeta,
escritor, jornalista, músico.
Email :
marcos.martino@gmail.com