Felizes Natais

 

Marcos Martino

 

 

 

Sei que tem a realidade do consumismo cada vez mais exacerbado.

Tem também esse negócio da maioria se esquecer do aniversariante, quando um velhinho de barbas brancas e roupa vermelha é mais pop que o próprio Cristo.

Tem as histórias e estórias de que o natal foi criado a partir de uma festa pagã, que não se tem a certeza quanto à data.

Tem também aquelas pessoas que não tem família ou tem pais separados, fraturas familiares difíceis de colar.

Tem ainda a desvirtualização nos carnatais pelo Brasil afora, quando não tem nem pro Cristo nem pro Papai Noel, quando impera a sexualização de uma festa que deveria ser mais espiritual. Mas mesmo assim, gosto dos natais.

 

Tem os lados bons. Também é tempo de solidariedade, de fraternidade. As pessoas ficam mais generosas, tem mais disposição para a bondade, se presenteiam, celebram o encontro, a amizade.

Podem dizer que é consumismo, tudo bem, mas acho bonito ver as crianças no dia 25 pela manhã brincando com seus brinquedos, felizes da vida e os pais também felizes com a felicidade de seus pequeninos. Aliás, o Natal é curtido mesmo é pelas crianças. A simbologia é muito bonita, as cidades ficam iluminadas num cenário de sonho.

E nós adultos, precisamos deixar as crianças que existem em nós brincar um pouco.

 

Podemos ainda voltar no tempo e relembrar como eram nossos natais. Sejamos sinceros: havia mais religiosidade, mas no fundo o que a meninada sonhava mesmo era com os presentes. Quem pode negar? Lá em casa, meus pais tentaram manter o mito do Papai Noel e eu acreditei durante muito tempo.

Teve uma noite que aconteceu uma coisa intrigante. Dizem que as crianças vêem espíritos. Certa madrugada de um 25 de dezembro, vi atrás de um guarda-roupas um velhinho que me olhava.  Em princípio fiquei com medo, mas ele ficou lá só me observando. Seria o Papai Noel? Seria uma assombração? Nunca ficarei sabendo.

Depois voltei a dormir e quando acordei acabei me esquecendo, pois havia um presente maravilhoso no chão do quarto: um trenzinho elétrico.

 

Levantei, montei os trilhos e botei o trem pra funcionar. No ano seguinte, já comecei a desconfiar que havia alguma coisa errada.

Na noite do dia 24 fomos para a casa do meu avô Dominguinhos, mas meu pai deixou a gente lá e desceu. Ele ia ao comércio comprar os presentes na última hora.

No outro dia cedo eu ganhei um time do Cruzeiro de Futebol de Botão e o Rogério ganhou um boneco da pantera cor de rosa. Ele era louco com a pantera. Mas fiquei desconfiado e já pensando na possibilidade do meu pai ser o Papai Noel.

 

 

Na época havia missas maravilhosas também. Fui a uma missa do galo na época, uma cerimônia lindíssima. Eu estava dormindo em pé. Nem sei como cheguei em casa. Deve ter sido carregado por meu pai.  

Do nome Missa do galo eu não gostava pois sou cruzeirense desde pequeno. Aliás, torço pelo cruzeiro por causa dos meus primos Nivota, Ademir, Branco que além de tudo jogavam no Industrial, um time também azul e branco que tinha um escudo muito bonito.

Os 3 irmãos eram muito bons de bola e titulares do Industrial. Eu ia a campo ver os 3 jogar e eles eram heróis pra mim.

 

Mas voltando aos natais, eram maravilhosos também os almoços em família da minha infância. Minha Avó Maria almoçava conosco.

Meu pai ficava muito feliz. Meus avós Dominguinhos e Rita também participavam. Era uma felicidade só, poder compartilhar aqueles momentos.

Eu até arriscava bebericar alguns vinhos adocidados. Outra coisa marcante pra mim, por incrível que pareça eram as maçãs.

Não eram artigos tão comuns. Vinham numa embalagem azul que parecia veludo. E tinha as comidas deliciosas.

Minha mãe fazia uma bacalhoada que atraia muita gente. Meu primo Nivota não perdia. Hoje em dia, meus natais são divididos.

Passo o dia 24 na casa dos pais da minha esposa. Eles sempre fazem lindas ceias e encontros.

 

O patriarca da Família, Sr Carlos faz questão de presentear a todos os filhos e netos. Imaginem que são 9 irmãos e nem sei quantos filhos, netos e bisnetos.

Mas no dia 25, há 49 anos, almoço com minha família na Rua do Rosário 71 – Rua de Cima – Alvinópolis.

Nesses almoços hoje, temos algumas cadeiras vazias que trazem saudade.

Mas o natal continua unindo o que restou dos almoços de outrora.

Temos a presença de Maria e Conceição, que também almoçam conosco esses anos todos.

E temos a presença das filhas com as quais deveremos passar os próximos natais, com as famílias que elas haverão de formar.

 

 

Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com