Regressão...

 

Marcos Martino

 

 

Resolvi fazer uma regressão e foi muito interessante a experiência.

Voltei até meus primeiros anos de vida, vi uma casa muito antiga com escorpiões e morcegos no porão. Vi também muitos lampiões, lamparinas a querosene e até ferros a brasa, tecnologias mais rudimentares, mas eficientes. Com o tempo a casa da Rua do Rosário, 71 foi se modificando. Dona Neuza foi dando seu jeitinho junto com o seu Tone.

 

Puxei ainda mais pela lembrança, provei do sabor do feijão da minha Vó Rita, o mais gostoso do planeta. Vi meu avô com seu macacão todo sujo de graxa, falando sempre coisas fantásticas. Fui também à antiga casa da minha Avó Maria, vi as cavernas que furávamos no quintal, os pés de laranja e mamão, o galinheiro tão querido pela minha avó, meus primos e primas. Ali naquele local, vi uma cena que parecia capa de disco do Led Zeppelin. Duas crianças nuas nadavam, surfavam, flutuavam sobre a enxurrada, como se fosse a coisa mais natural do mundo(e realmente era).

 

Ai a viagem começou a acelerar e disparei a ver cenas incríveis. Uma dessas cenas foi o caminhão onde o motorista tinha de rodar uma manivela enorme pra ele pegar. Não sei o nome exato daquele velho caminhão, ficou em minha memória uma sigla FNM, que todos chamavam de "FÊNÊMÊ". Depois fiz um passeio de carro imaginário pelas ruas antigas de Alvinópolis. Vi vários Vemaguetes, Rurais e Aerowillys. O jipe também era moda. Os Vemaguetes eram carrinhos muito simpáticos. Seu motor tinha um barulhinho delicioso. As rurais eram carros muito duros que aguentavam o tranco das estradas de terra. Tinha também as AeroWillys, carros grandes e luxuosos para os padrões dos anos 60. De repente transportei-me para o Maverick do Dr René. Certo dia, quando menino ainda, tive oportunidade de pegar uma pequena carona no Maverick do nobre dentista. Era um carro muito diferente para os padrões da época. Para mim, foi como entrar numa nave espacial. A maciez do estofado, o amortecedor, o design futurista, uma experiência fantástica.

 

 

De repente, transportei-me para o interior do Tremendão. Para quem não sabe, Alvinópolis já teve seus ônibus circulares, mas o que ficou na minha memória foi o TREMENDÃO. Era um desses ônibus estilo escolar americano. Dentro do tremendão pude dar mais uma volta pela cidade. Percebi uma coisa interessante. A cidade era muito mais limpa.

 

De repente, transportei-me para a o quintal da minha avó. Pegamos alguns mamões madurinhos para comer dentro da própria casca com açúcar. Estávamos eu e os primos mais novos. De repente chegou Nivota falando pra gente: - Não comam isso. Mamão tem um verme que dá muita dor de barriga. Quando perguntei o nome do verme ele falou: NEVER NEVER. Nós na hora desistimos dos mamões. Na época, eram comuns as lombrigas e todos morríamos de medo. Um verme com nome de Never-never devia ser muito pior.

 

As lembranças continuavam dando seus saltos. Fui parar numa época mais à frente. Vi pela primeira vez a TV colorida, na casa do Sr. Jayme Barcelos. Alguns dias antes, o Advogado Gustavo Jovelino Correa Neto, sempre à frente do seu tempo, subia um morro pra instalar uma antena, pois tinha comprado a primeira televisão a cores de Alvinópolis. Instalou em sua casa e depois todos começaram a comprar. A novidade era um sucesso. Mas era cara pra chuchu. Vi um gerente de banco tentando vender uma tv em consórcio para o meu pai. Fui até a nossa casa e vi a tv preto e branco que tínhamos, onde foi possível ver a copa de 1970. Era uma tv 14 polegadas bem simpática.

 

Viajei a época em que meu pai comprou uma radiola portátil na cor laranja. Ele comprou vários long plays. Lembro-me de alguns, que ficaram pra sempre na minha memória e formação musical desde os primeiros anos de vida: Paul Maurriat, Bienvenito Granda, Conie Francis, Billie Vaugh, Românticos de Cuba, Nelson Gonçalves e um certo cantor fanho chamado Chico Buarque de Holanda.

 

 

Viajei mais um pouco para a época da proliferação das rádios FM. Juntávamos uma turma e íamos pro campo de aviação ouvir o som stéreo das rádios. Estive lá a tempo de ouvir um dos presentes falando:  - Chegamos ao máximo em tecnologia. Som puríssimo transmitido pelas ondas de rádio e uma programação muito boa.

Ele tinha razão. Só que depois os políticos tomaram conta e a qualidade caiu muito. Nessa época aconteceu ainda a proliferação dos Walkmans, primeiro com k7s e depois com CDS. Vi a galera andando com aqueles tijolões pesados e desajeitados.

 

Tava muito prazerosa a regressão, só que não mais que de repente, a cachorrinha da minha filha interrompeu a viagem no tempo, mordendo meu dedão do pé. Minha regressão foi auto induzida, sem técnica, só atitude. Recorri unicamente à memória. Desliguei os sentidos e fui viajar. Mas asseguro-lhes: vale à pena a experiência! É claro que vou repeti-la, regredir mais vezes e desenterrar mais memórias...

 

 

Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com