Resolvi fazer uma regressão e foi muito interessante
a experiência.
Voltei
até meus primeiros anos de vida, vi uma casa muito
antiga com escorpiões e morcegos no porão. Vi também
muitos lampiões, lamparinas a querosene e até ferros
a brasa, tecnologias mais rudimentares, mas
eficientes. Com o tempo a casa da Rua do Rosário, 71
foi se modificando. Dona Neuza foi dando seu
jeitinho junto com o seu Tone.
Puxei
ainda mais pela lembrança, provei do sabor do feijão
da minha Vó Rita, o mais gostoso do planeta. Vi meu
avô com seu macacão todo sujo de graxa, falando
sempre coisas fantásticas. Fui também à antiga casa
da minha Avó Maria, vi as cavernas que furávamos no
quintal, os pés de laranja e mamão, o galinheiro tão
querido pela minha avó, meus primos e primas. Ali
naquele local, vi uma cena que parecia capa de disco
do Led Zeppelin. Duas crianças nuas nadavam,
surfavam, flutuavam sobre a enxurrada, como se fosse
a coisa mais natural do mundo(e realmente era).
Ai a
viagem começou a acelerar e disparei a ver cenas
incríveis. Uma dessas cenas foi o caminhão onde o
motorista tinha de rodar uma manivela enorme pra ele
pegar. Não sei o nome exato daquele velho caminhão,
ficou em minha memória uma sigla FNM, que todos
chamavam de "FÊNÊMÊ". Depois fiz um passeio de carro
imaginário pelas ruas antigas de Alvinópolis. Vi
vários Vemaguetes, Rurais e Aerowillys. O jipe
também era moda. Os Vemaguetes eram carrinhos muito
simpáticos. Seu motor tinha um barulhinho delicioso.
As rurais eram carros muito duros que aguentavam o
tranco das estradas de terra. Tinha também as
AeroWillys, carros grandes e luxuosos para os
padrões dos anos 60. De repente transportei-me para
o Maverick do Dr René. Certo dia, quando menino
ainda, tive oportunidade de pegar uma pequena carona
no Maverick do nobre dentista. Era um carro muito
diferente para os padrões da época. Para mim, foi
como entrar numa nave espacial. A maciez do
estofado, o amortecedor, o design futurista, uma
experiência fantástica.
De
repente, transportei-me para o interior do Tremendão.
Para quem não sabe, Alvinópolis já teve seus ônibus
circulares, mas o que ficou na minha memória foi o
TREMENDÃO. Era um desses ônibus estilo escolar
americano. Dentro do tremendão pude dar mais uma
volta pela cidade. Percebi uma coisa interessante. A
cidade era muito mais limpa.
De
repente, transportei-me para a o quintal da minha
avó. Pegamos alguns mamões madurinhos para comer
dentro da própria casca com açúcar. Estávamos eu e
os primos mais novos. De repente chegou Nivota
falando pra gente: - Não comam isso. Mamão tem um
verme que dá muita dor de barriga. Quando perguntei
o nome do verme ele falou: NEVER NEVER. Nós na hora
desistimos dos mamões. Na época, eram comuns as
lombrigas e todos morríamos de medo. Um verme com
nome de Never-never devia ser muito pior.
As
lembranças continuavam dando seus saltos. Fui parar
numa época mais à frente. Vi pela primeira vez a TV
colorida, na casa do Sr. Jayme Barcelos. Alguns dias
antes, o Advogado Gustavo Jovelino Correa Neto,
sempre à frente do seu tempo, subia um morro pra
instalar uma antena, pois tinha comprado a primeira
televisão a cores de Alvinópolis. Instalou em sua
casa e depois todos começaram a comprar. A novidade
era um sucesso. Mas era cara pra chuchu. Vi um
gerente de banco tentando vender uma tv em consórcio
para o meu pai. Fui até a nossa casa e vi a tv preto
e branco que tínhamos, onde foi possível ver a copa
de 1970. Era uma tv 14 polegadas bem simpática.
Viajei
a época em que meu pai comprou uma radiola portátil
na cor laranja. Ele comprou vários long plays.
Lembro-me de alguns, que ficaram pra sempre na minha
memória e formação musical desde os primeiros anos
de vida: Paul Maurriat, Bienvenito Granda, Conie
Francis, Billie Vaugh, Românticos de Cuba, Nelson
Gonçalves e um certo cantor fanho chamado Chico
Buarque de Holanda.
Viajei
mais um pouco para a época da proliferação das
rádios FM. Juntávamos uma turma e íamos pro campo de
aviação ouvir o som stéreo das rádios. Estive lá a
tempo de ouvir um dos presentes falando: -
Chegamos ao máximo em tecnologia. Som puríssimo
transmitido pelas ondas de rádio e uma programação
muito boa.
Ele
tinha razão. Só que depois os políticos tomaram
conta e a qualidade caiu muito. Nessa época
aconteceu ainda a proliferação dos Walkmans,
primeiro com k7s e depois com CDS. Vi a galera
andando com aqueles tijolões pesados e desajeitados.
Tava
muito prazerosa a regressão, só que não mais que de
repente, a cachorrinha da minha filha interrompeu a
viagem no tempo, mordendo meu dedão do pé. Minha
regressão foi auto induzida, sem técnica, só
atitude. Recorri unicamente à memória. Desliguei os
sentidos e fui viajar. Mas asseguro-lhes: vale à
pena a experiência! É claro que vou repeti-la,
regredir mais vezes e desenterrar mais memórias...
Marcos Martino é alvinopolense, poeta,
escritor, jornalista, músico.
Email :
marcos.martino@gmail.com