Fragmentos de memórias
do nosso carnaval
Marcos Martino
Hoje me vieram vários
fragmentos de memórias do nosso carnaval.
A primeira imagem que
me vem à cabeça é de dois homens que apareceram
fantasiados de astronautas. Tinham uma roupa bacana
e um tubo de oxigênio que ficava cheio de cachaça.
Eu era muito pequeno, mas não esqueço disso.
Depois, lembro-me dos
carnavais do Industrial e Alvinopolense e a pororoca
das águas azuis e preto e brancas.
Vira que mexe alguém
perdia alguns dentes.
Nesta época já
começava a florescer a genialidade de Bastião de
Olga, um personagem extremamente criativo e que
levava sempre uma crítica política, sempre com bom
humor.
Jamais me esquecerei
também de algumas figuras que se vestiam de mulher,
Por exemplo o Dô de Zé Carvalho, com seu
indefectível fio dental. Não me esqueço também de
Bolão vestido de mulher. Uma madame chique.
Não estavam caçoando,
tipo a turma das piranhas com duas laranjas fazendo
as vezes de seios. Nada de maquiagem ridícula. Era
uma mulher perfeita. Fiquei reparando aquela figura
passar. Caminhava com elegância e vivia mesmo a
personagem.
Não me esqueço também
do Baiano de Antonino vestido de mulher. Caprichou
na peruca, na maquiagem e nos trejeitos. Deitou-se
na grama da baixada e ficou fazendo poses, caras e
bocas.
Marcelo Xuxa também é
uma peça. Uma vez teve uma idéia: saímos de trio
elétrico. Um com uma lâmpada, um com interruptor e
outro com uma pilha.
Uma vez saímos de
AC-DC no Carnaval. Dois com guitarra e o Xuxa era o
vocalista, cantando letras impublicáveis. Não dá pra
esquecer também do Azeitona, o "home" mais forte de
Alvinópolis depois de Ricardão. O homem vivia num
carnaval o ano inteiro e principalmente nos fins de
noite de Alvinópolis, só que no carnaval soltava as
frangas de verdade.
E Tuôla? Carnavais
memoráveis aconteceram no clube erigido pelo saudoso
dirigente. Os bailes no "pouca roupa" eram muito
bons pra namorar. O salão ficava lotado de gente e a
onda humana ia rodando, rodando e a gente ficava
ali, aguardando a menina que nos atraísse passar pra
sair atrás dela, com as mãos em suas cadeiras num
trenzinho.
Haviam também os
bailes no industrial, mas sem dúvidas, o
Alvinopolense é que era o clube da moda.
E DicoSurdico, o homem
trovão?
Dico com seu surdão
era uma escola de samba sozinho. O Homem tinha um
preparo físico invejável e passava quase o dia
inteiro tocando surdo com qualquer batuque que
passasse. Foi um dos integrantes do BAG, maior
bateria de samba que a nossa região já viu.
Outra coisa muito
bacana que vi nascer foi o Bloco do Saco Sujo, uma
ação de uma turminha da Rua de Cima, de Liêda,
Ricardão, Tom João e outros.
Era muito interessante
no início, pois todos queriam se expressar através
do que pintavam nos sacos. Cada frase que saía.
Eu mesmo saí com uma
frase escrita "a Parte Alta abandonada pede
socorro". É que na época a Rua de Cima estava cheia
de mato e houve um movimento reivindicando mais
atenção para a parte antiga. O Bloco do Saco Sujo
durante muito tempo foi um sucesso, o bloco mais
esperado, que abria o carnaval.
Lembro-me que em um
dos carnavais de Alvinópolis, saí mascarado, tomando
vodka e cinzano com Ricardão. No meio do trajeto, já
estava no maior zinabre e passei a mão no ombro de
uma menina e fomos pulando. Como ela não tirou a
minha mão, continuei com ela. Descemos juntos até a
praça da baixada, de máscaras. Quando lá chegamos e
fomos tirar as máscaras, tratava-se de uma
ex-namorada, com que eu havia terminado há duas
semanas. Acabamos nos beijando e tivemos uma recaída
de mais uns 2 meses.
Outra coisa que sempre
gostei nos carnavais foram as furiosas. Adorava as
bandinhas com suas batucadas e aqueles músicos
heróicos que tocavam as músicas de todos os
carnavais.
Mas história
inesquecível mesmo eu vou contar agora.
Certa vez, o
Industrial estava numa fase muito boa, com muito
dinheiro para gastar. Já o Alvinopolense estava de
caixa baixo. A turma do pouca roupa o olhava de
longe e via o movimento, os carros alegóricos sendo
criados, as fantasias. Iria ser um banho, pois o
pouca roupa não tinha dinheiro para nada. O tema do
Industrial era o Sítio do Pica-pau Amarelo.
Já viu como é né?
O Alvinopolense estava
sem dinheiro e não pôde sair, mas a turma do Gaspar
não iria querer perder e entregar a rapadura.
Assim foi criado o
CIDA ( não me lembro o que queria dizer a sigla),
um bloco que deveria desfilar e
mostrar que os "Bambas do Gaspar" eram os maiorais,
com ou sem o Alvinopolense. Só que não tinham
dinheiro para competir com a turma da Baixada.
O
que fazer?
Tiveram
uma idéia genial. Criaram um carro alegórico com uma
menina desfilando com os seios de fora. Foi um
achado. Como nas transmissões dos carnavais na TV os
seios já estavam invadindo as telas, não houve
grande clamor moral, mas mesmo assim, ter uma mulher
rebolando e com os seios de fora era demais para a
sociedade Alvinopolense. Milhares de homens
acompanharam todo o trajeto escoltando o caminhão e
os seios da mulher abafaram o Sítio do pica-pau
amarelo (acho que na Filmavídeo tem essa filmagem
histórica).
Mas nosso carnaval
teve algumas fases de baixa também. Durante algum
tempo, a prefeitura só contratava bandas pra tocar
no palco da praça e mais nada. Mas o espírito folião
que andava adormecido voltou à ativa com força
total. Prova disso é a força do bloco OS PIRATAS,
que deve ser um dos maiores da região no momento.
Como eu detesto aquela frase do "antigamente é que
era bom", estou muito otimista com o carnaval de
Alvinópolis, tenho certeza que a criatividade e o
bom humor dos alvinopolenses estarão presentes, como
sempre.