LEGIÃO
Marcos
Martino
Certa vez, assistindo a um filme de terror, acho que o
Exorcista ou Profecia, um padre foi ter com um cidadão
que estava num hospício e que apresentava sintomas de
que estaria possuído pelo demônio.
Lá foi o Padre com
seus aparatos, água benta, terço, bíblia e paramentos.
Quando chegou ao quarto do endiabrado, este se
encontrava tranquilo sentado num canto.
O Padre
chegou, olhou bem nos olhos do sujeito e perguntou:
Quem
está aí?
No que
o sujeito respondeu: Legião!
Ele
voltou a perguntar: Quem mesmo?
E o
figura respondeu com uma voz gutural:
Legião.
Não
havia um demônio encarnado naquele pobre diabo, mas uma
legião que ocupava sua alma. Não seríamos todos nós uma
legião? Não de Demônios, mas de tipos, personagens,
também de seres rasteiros, abjetos, que teimam em
emergir e trair nossos bons mocismos. Não tenho dúvidas
de que as pessoas querem ser boas, mas são atraídas pelo
lado negro da força e muitas vezes sucumbem às
tentações. Mas voltando ao Legião do filme, não seria
mais uma metáfora do cinema para explicar um monte de
coisas?
A arte
costuma desmascarar a hipocrisia.
Vejam por
exemplo o livro 1984 de George Orwell. Este livro errou
ao prever uma futura sociedade comunista, vigiada,
idiotizada.
O
comunismo não vingou, mas vemos hoje a sociedade
capitalista liberal fazendo mais ou menos as mesmas
coisas por outros meios. Não consigo deixar de pensar em
algumas teorias do livro, por exemplo a novilíngua, um
código de comunicações simplificado para manter as
massas dóceis. Isso já não acontece com a mediocridade
da cultura pop?
O livro
inspirou muitos anos depois o Big Brother, o grande
irmão que justificava todas as guerras inventadas,
também com o intuito de canalizar o ódio das massas. O
capitalismo se apropriou do Big Brother e o transformou
num culto à xeretagem. Aliás, o capitalismo se apropria
de tudo, como fez com o movimento punk. De repente, as
calças rasgadas, símbolos do anti-consumismo, passaram a
ser vendidas a preço de ouro como produtos fashions. Mas
voltando à legião de Demônios do filme, lembro-me também
dos heterônimos de Fernando Pessoa, personagens que o
grande poeta utilizava para se expressar e exercitar
outras verves. Não precisamos ir muito longe. No mural
do Alvinews mesmo temos os pseudos, heterônimos que
podem falar as verdades que seus "aparelhos", como dizem
alguns espíritas não podem dizer para não se
comprometerem numa sociedade conservadora, onde assumir
posições políticas pode causar danos à pessoa, a
família, enfim. Nós também somos legião, meus amigos,
uma legião rural.
LEGIÃO RURAL?
Estou fora dessa banda. Sei que muitos Alvinopolenses
tem ascendência rural, se orgulham de sua procedência e
até acham bacana serem chamadas de "da roça". Só que
existem também os citadinos, pessoas que nasceram na
sede do município e que não tem nada de roceiros. Este é
o meu caso e de vários outros. Aliás, existem
Alvinopolenses espalhados pelo mundo afora, quer dizer,
tem os da roça, os da sede, os de Monlevade, os do
mundo. O meu erro foi de tomar as dores de Alvinópolis,
pois o que me chateou foi a maneira com que o termo foi
utilizado. A intenção era me inferiorizar. A ulterior da
afirmação foi de que eu era inferior, iletrado, jeca por
ser Alvinopolense. Agora, se algumas pessoas não querem
entender ou preferem entender de forma diferente por não
gostar de mim mesmo, já é outra história.
Como
diz um blogueiro Monlevadense de que gosto muito...
e
vamos subindo a montanha...
Marcos Martino é alvinopolense, poeta,
escritor, jornalista, músico.
Email :
marcos.martino@gmail.com
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