Noites de frio em Alvinópolis

 

Marcos Martino

 

Capela do Rosário sob neblina.

Foto do Mauro Sérvulo

Anos 70.

 

Uma das imagens mais bonitas que já vi na vida é a paisagem da janela da nossa casa na rua de cima nas manhãs de maio a julho. Adoro a serração baixa e a visão dos prédios despontando no meio da neblina. Pra mim não tem Rio de Janeiro, nem Paris, nem Roma. A imagem mais bonita do planeta pra mim é essa. Mas a relação do Alvinopolense com o frio vai além. Quer dizer, ia além né. Como estou há um tempo fora, não sei dizer se ainda é assim. Mas tendo sido morador da rua de cima, tive oportunidade de sentir na pele um fenômeno muito interessante. 

 

Ao retornar pra casa após as noitadas na praça da baixada, muitas vezes subia a avenida a pé até batendo queixo, pois o frio era de doer nos ossos. Eu subia muitas vezes sozinho, em passos rápidos pra não congelar no meio do caminho, mas quando chegava no alto da ladeira os italianos sentia uma mudança brusca de temperatura. Era um alivio enorme, pois ao chegar no topo vinha uma onda de calor e o frio diminuía consideravelmente. Deve ser por isso que a rua que vem pela frente se chama Rua do Fogo. Mas vamos e venhamos. Hoje não faz tanto frio como antigamente.

 

Como antigamente, não! Como no meu tempo. Antigamente é tempo demais. Mas as noites em Alvinópolis eram mais frias mesmo. A gente dormia com 2,3, 4 cobertores. A serração era a coisa mais charmosa do mundo e ainda é. Pintava uma neblina de cortar com faca. Alvinópolis ficava envolta numa nuvem, como se vestida de noiva. 

Quem é que já viu o dia amanhecer no campo de aviação no tempo de frio?

 

Rua de Cima sob neblina.

Foto do Mauro Sérvulo

Anos 70.

 

Quem já viu o mar de nuvens misturadas à neblina?

 

Quem já foi pra praça com paletós de cobertores?

 

 Quem já tomou conhaque com mel pra espantar o frio? 

 

E de manhã, no grupo de cima, me lembro de Glória de Antonino esfregando as mãos geladas, como gravetos fossem pra acender fogueiras nos corações da gente. Me lembro das festas juninas no monte, todos bem agasalhados e uma fogueirinha derretendo as geleiras dos sentimentos, os quentões provocando gargalhadas nas meninas,  os beijinhos furtivos e os narizes gelados se tocando.Quantas serenatas já fizemos também, uma trupe fantasmagórica emergindo no meio da serração, entoando canções bêbadas e sonhando com as meninas que ficavam confortavelmente instaladas debaixo de seus 4 ou 5 cobertores, enquanto  os corajosos seresteiros encaravam a noite gelada para esquentar os corações das amadas. Quem não se lembra também dos festivais em julho, quando o frio era lancinante e quase impossibilitava que os músicos conseguissem aquecer os dedos para fazer vibrar as cordas dos violões.

 

Não sei se foi pelo aquecimento global por causa do efeito estufa, mas percebemos que realmente não faz tanto frio como antes. Há de se considerar que a história é cíclica e tem seus fluxos e refluxos. Mas à primeira vista, nos parece que o planeta aqueceu mais do que o desejável e isso acaba afetando até Alvinópolis.

 

De qualquer maneira, não sabemos como será o inverno deste ano, se teremos um frio charmoso em junho e julho. Parece que as estações estão mais definidas.  Sei que agora começa um dos períodos mais interessantes do ano. Viajar então é uma delícia. O sol incide de uma forma lindíssima, emoldurando as fraldas das montanhas. Já aproveito para deixar uma oração para Nossa Senhora do Rosário. Que me permita passar alguns dias em Alvinópolis nessa época do ano. Chega um ponto da vida em que já não somos mais donos dos nossos destinos e não podemos fazer o que queremos, mas o que é nossa obrigação. Deixo um abraço também para o Cristiano. Este sim conhece o que é congelar. Só que o frio lá do norte parece ser trágico, enquanto o nosso é mágico. 

 

Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com