Uma das imagens mais
bonitas que já vi na vida é a paisagem da janela da
nossa casa na rua de cima nas manhãs de maio a
julho. Adoro a serração baixa e a visão dos prédios
despontando no meio da neblina. Pra mim não tem Rio
de Janeiro, nem Paris, nem Roma. A imagem mais
bonita do planeta pra mim é essa. Mas a relação do
Alvinopolense com o frio vai além. Quer dizer, ia
além né. Como estou há um tempo fora, não sei dizer
se ainda é assim. Mas tendo sido morador da rua de
cima, tive oportunidade de sentir na pele um
fenômeno muito interessante.
Ao retornar pra casa
após as noitadas na praça da baixada, muitas vezes
subia a avenida a pé até batendo queixo, pois o frio
era de doer nos ossos. Eu subia muitas vezes
sozinho, em passos rápidos pra não congelar no meio
do caminho, mas quando chegava no alto da ladeira os
italianos sentia uma mudança brusca de
temperatura. Era um alivio enorme, pois ao chegar no
topo vinha uma onda de calor e o frio diminuía
consideravelmente. Deve ser por isso que a rua que
vem pela frente se chama Rua do Fogo. Mas vamos e
venhamos. Hoje não faz tanto frio como antigamente.
Como antigamente, não!
Como no meu tempo. Antigamente é tempo demais. Mas
as noites em Alvinópolis eram mais frias mesmo. A
gente dormia com 2,3, 4 cobertores. A serração era a
coisa mais charmosa do mundo e ainda é. Pintava uma
neblina de cortar com faca. Alvinópolis ficava
envolta numa nuvem, como se vestida de noiva.
Quem é que já viu o
dia amanhecer no campo de aviação no tempo de frio?
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Rua de Cima sob neblina.
Foto do Mauro Sérvulo
Anos 70. |
Quem já viu o mar de
nuvens misturadas à neblina?
Quem já foi pra praça
com paletós de cobertores?
Quem já tomou
conhaque com mel pra espantar o frio?
E de manhã, no grupo
de cima, me lembro de Glória de Antonino esfregando
as mãos geladas, como gravetos fossem pra acender
fogueiras nos corações da gente. Me lembro das
festas juninas no monte, todos bem agasalhados e uma
fogueirinha derretendo as geleiras dos sentimentos,
os quentões provocando gargalhadas nas meninas, os
beijinhos furtivos e os narizes gelados se
tocando.Quantas serenatas já fizemos também, uma
trupe fantasmagórica emergindo no meio da serração,
entoando canções bêbadas e sonhando com as meninas
que ficavam confortavelmente instaladas debaixo de
seus 4 ou 5 cobertores, enquanto os corajosos
seresteiros encaravam a noite gelada para esquentar
os corações das amadas. Quem não se lembra também
dos festivais em julho, quando o frio era lancinante
e quase impossibilitava que os músicos conseguissem
aquecer os dedos para fazer vibrar as cordas dos
violões.
Não sei se foi pelo
aquecimento global por causa do efeito estufa, mas
percebemos que realmente não faz tanto frio como
antes. Há de se considerar que a história é cíclica
e tem seus fluxos e refluxos. Mas à primeira vista,
nos parece que o planeta aqueceu mais do que o
desejável e isso acaba afetando até Alvinópolis.
De qualquer maneira,
não sabemos como será o inverno deste ano, se
teremos um frio charmoso em junho e julho. Parece
que as estações estão mais definidas. Sei que agora
começa um dos períodos mais interessantes do ano.
Viajar então é uma delícia. O sol incide de uma
forma lindíssima, emoldurando as fraldas das
montanhas. Já aproveito para deixar uma oração para
Nossa Senhora do Rosário. Que me permita passar
alguns dias em Alvinópolis nessa época do ano. Chega
um ponto da vida em que já não somos mais donos dos
nossos destinos e não podemos fazer o que queremos,
mas o que é nossa obrigação. Deixo um abraço também
para o Cristiano. Este sim conhece o que é congelar.
Só que o frio lá do norte parece ser trágico,
enquanto o nosso é mágico.