UM PADRE PRA LÁ DE BENTO

Marcos Martino

Padre Bento celebrando em Contendas - 1978

Foto: Mauro Sérvulo

 

Alvinópolis teve Padres muito importantes.

Teve o Padre José Marciano, que tem até nome de rua.

Teve o Padre Jairo, de grande cultura, afeito ao teatro e a música.

Teve o Padre João Bosco, que dá nome a charmosa pracinha da matriz e que nos deixou em desastre fatal.

Teve o Padre Olavo, popularmente conhecido como Padre Olau, que gerou muita polêmica em sua época.

Mas para mim, o mais marcante de todos foi o Padre Bento.

Mais marcante não só por ter sido o pároco de minha juventude, mas por algumas características especiais.

 

Primeiro por sua história de vida.

Antes de se ordenar Padre, envolveu-se com todos os tipos de pecados, com bebida, com mulheres, até tornar-se mendigo, andarilho sem destino.

Mas depois de conhecer o inferno da miséria humana, Joaquim reergueu-se e formou-se Padre, dando um exemplo muito importante para uma geração inteira, de que sempre existe esperança, mesmo nas situações mais difíceis.

Mas Padre Bento ou Padre Joaquim tornou-se um Padre diferente.

Tinha atitudes que fugiam do comportamento austero da maioria dos padres.

Lembro-me de suas missas musicadas, de sua alegria contagiante.

Gostava de usar a linguagem de juventude em seus sermões e sempre convidava o “Verde Terra” para tocar nos eventos da igreja, o que muito nos alegrava também.

As procissões na sua época também eram maravilhosas, bem como as festas do Rosário.

Outra característica interessante é que gostava de freqüentar a vida social da cidade, ia a bailes, dançava com as moças, o que por um lado escandalizava um pouco os mais tradicionais, mas por outro lado, humanizava, aproximava Joaquim dos irmãos.

 

Jamais me esquecerei da primeira vez em que o Verde Terra se apresentou fora de Alvinópolis e o Padre praticamente patrocinou nossa viagem do próprio bolso, nos dando grande incentivo e um crédito de confiança do qual jamais nos esquecemos.

Depois, em trabalhos escolares, ainda tive o prazer de entrevistá-lo algumas vezes, pois sempre inventava um jeito de ouvir suas opiniões que misturavam religiosidade com filosofia, tudo de um jeito próprio, com a visão de quem conhece as coisas da vida e os mistérios da fé.

Padre Bento terminou os seus dias terrenos em pleno exercício de sua profissão de fé.  

Lembro-me de suas últimas missas, quando já debilitado pela doença, tinha apenas um fio de voz, mas buscava forças no fundo da alma para cumprir sua missão na terra, de espalhar o bem, de quebrar determinados moldes que nos engessavam num tempo passado, levantando a sociedade alvinopolense um passo adiante.

 

(Obs: Escrevi este texto à partir do meu particular ponto de vista, mas será interessante que alguém que conhece mais profundamente a história desses padres, escreva para nos elucidar mais à respeito).

 

Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com