EXTRA...EXTRA...PROIBIRAM A CERVEJA!!!

Marcos Martino

Levei um grande susto naquela manhã e até me belisquei para ver se ainda estava dormindo.

Ouvi um menino gritando:

- Extra, Extra...cerveja foi proibida no país...extra...extra...

Pensei comigo: Isso deve ser alguma gozação...ou algum desses jornais sensacionalistas.

Levantei num pulo, botei uma roupa e fui até a banca comprar o jornal.

Para meu espanto, a noticia estava em todos, cada um com uma manchete mais bombástica: “ CERVEJA E BEBIDAS ALCOÓLICAS SÃO PROIBIDAS”, “LEI SECA VOLTA AO PAÍS”, “FABRICAS DE CERVEJA SERÃO LACRADAS”.

Fiquei estarrecido. Sabia que há dias vinham sendo exaustivamente discutidas no congresso as conseqüências do uso de bebida alcoólica, principalmente no trânsito, com grande número de óbitos e prejuízos.

Comprei o jornal para me aprofundar no assunto e pude averiguar que em uma votação histórica, a câmara dos deputados havia aprovado a lei. Numa noite memorável de discursos inflamados, os políticos relataram casos de desagregação familiar, de graves problemas de saúde pública, enfim, de um calamitoso histórico de fatos que justificava a medida radical.

Um desses políticos acabou fechando questão, ao afirmar categoricamente que o álcool era uma droga e deveria ser tratado como tal, afinal, também modificava o comportamento, levava à violência e à desagregação familiar, quer dizer, se tinha as mesmas conseqüências das drogas, também teria de ser proibido.

Notei que todos estavam comprando jornais e completamente aturdidos.

A realidade é que as pessoas não tem costume de acompanhar o noticiário político e a maioria foi pega de surpresa pela catastrófica noticia.

Os noticiários televisivos mostraram as cenas das fábricas de cerveja sendo lacradas pela policia federal e as bebidas sendo recolhidas nos bares.

Durante o dia as pessoas até suportaram a situação, mas de tardinha, na hora sagrada da cervejinha, o caldo começou a entornar. Alguns “viciados” começaram a se revoltar ao saber que não teriam sua loira sagrada. Além do mais, refrigerante com tira gosto é o fim da picada. As pessoas estavam perdidas, sem saber o que fazer.

À noite no jornal da TV, foram relatadas cenas de revoltas em todo o país, com quebradeira em alguns bares no rio de janeiro e até mesmo de pilhagem em alguns estabelecimentos.

No outro dia, muitas autoridades, principalmente sambistas e artistas sertanejos, assinaram um manifesto condenando veementemente o que consideravam um cerceamento à liberdade e à alegria, afinal, a cerveja e a cachacinha faziam parte da cultura nacional. Ao final de uma poética lamentação eles diziam:

-Tenham piedade de nós...o que será do samba, do churrasquinho, do futebol, da praia, dos rodeios, das tardes de sexta-feira, das noites de sábado sem a cerveja?

Porém, nada disso sensibilizou nossos homens públicos. O ministro da justiça veio a público dizer que a decisão do congresso era soberana e que não seriam aceitas declarações públicas que fizessem apologia ao álcool, que à partir da nova lei, também seria considerado droga.

Logo após a declaração do ministro da justiça em rede nacional, foi a vez do ministro da saúde, que também ratificou a declaração do colega, dizendo que embora gostasse de uma cervejinha, abriria mão do vicio em nome de uma causa maior.

Nos dias subseqüentes, foram registradas algumas revoltas em pontos isolados do país, mas o aparato policial agia com rigor e depois de algum tempo, a situação chegou a uma normalidade aparente. As propagandas de bebidas sumiram dos noticiários, a maioria dos bares do país fechou oficialmente...mas só oficialmente.

O que aconteceu foi que o mercado negro se organizou, os bares começaram a funcionar nos bastidores da sociedade, logicamente com vistas grossas dos meios oficiais. A corrupção e o contrabando se instalaram e a classe média subia os morros para comprar cerveja. 

Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com