RUA DE CIMA, UM FILME VIVO

 

Marcos Martino

 

 

Daqui do meu apartamento em Belo Horizonte, fecho os olhos e me imagino olhando a vida pela janela defronte a casa da minha familia na rua de cima.

Vejo o imponente cemitério de bambu.

Vou para a janela do outro lado da casa, de onde observo os  imensos quintais repletos de árvores e a igreja matriz e o prédio da câmara ao fundo.

De olhos ainda fechados, viajo até a estradinha do cemitério até chegar ao topo, onde olho a cidade lá embaixo numa longa panorâmica

Vejo a rua do fogo serpenteando morro abaixo, rumo à baixada e Gaspar, o quintal de Ninita e a antiga casa de Castivila.

Ouços os sons, seu Tone Animia assoviando, Chiquito dizendo não pra alguém, vejo Arnaldinho na esquina.

 

De repente, ouço os sons do relógio da matriz, metrônomos de muitas vidas.

São compassados, lentos, que nem o tempo passando vagarosamente.

Ouço também alguns sinos distantes, que vem se aproximando ainda mais devagar.

Vejo na rua do fogo que vem subindo um enterro.

Vem poucas pessoas carregando um caixão pequeno.

Toca novamente o sino da matriz e os sons vão se mixando.

 

 

 

 

Viajo ao passado e retorno ao tempo do campinho da rua de cima.

Ouço o som de Da.Ambrosina chamando Tão João pra ir pra aula e ele gritando:

 - Já vou mãe!  Só mais 5 minutos!

 

 

 

Vejo também a cena da bola de capota novinha de Manoel de Jaime, na época conhecido como pastel venenoso, batendo dentro do rego de esgoto que passava no fundo do campinho.

Nessa hora, a maioria grita:

- Parei !

E encerra-se a pelada, pois ninguém quer buscar a bola no rego enfezado.

De repente ouço outro som :

 – Pai, faz um Toddy pra mim!

É minha filha me trazendo de volta à realidade.

Ela me olha com aqueles olhões e me pergunta se eu estava dormindo.

Eu digo que não, que estava só sonhando acordado.

Fui lá fazer o toddy pra ela e pensando comigo:

- É, minha terra. Se meu dinheiro der e o destino quiser, um dia eu volto.

Mesmo que for pra ser replantado no santuário de bambu.

 

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Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com