Num berço estranho

 

Maria da Conceição Carvalho Barros

 

 

           Minha gestação se deu na terra profunda, de onde eu não conseguia antever por onde romperiam minhas folhas, primeiros sinais de vida exterior. Era uma escuridão tão grande... Finalmente venci os obstáculos, nascendo agarrado aos primeiros sinais de uma manhã que seria de luz clara e forte. Ganhei espaço e liberdade.

         Liberdade! Isso mesmo! Nascer de onde nasci só por um grande milagre. Como minha semente fora parar ali eu me indagava sempre. Olhei ao meu redor. Percebi que me encontrava espremido entre o cimento do piso e um muro de concreto alto, muito alto! Meus semelhantes, distantes de mim, erguiam-se da terra fofa, do chão macio. Só eu tivera aquele berço estranho.

 

         Os dias  passavam e eu ganhava forma. Percebia ruídos que vinham da casa. Seus moradores, até então ausentes, retornavam por ali e eu tinha certeza de que teria contatos diferentes. Ah! Esqueci de contar que tudo ali parecia uma pequena fazenda, com animais pequenos, um cachorro chamado Roberto, uma horta que se estendia à minha frente, um pessegueiro com folhas amarelecidas, agarradas umas às outras e secas (não havia ninguém para nos regar e chuva era coisa que eu não conhecera ainda). Havia também uma laranjeira – não gostei da cara dela – um limoeiro cheio de botõezinhos, e eu que nem sabia ainda quem era. Ali ninguém era igual a mim.

         O dia seguinte foi  um tempo de revelações. Primeiro foi a dona da casa.

         - Meu Deus! Vejam! Nasceu alguma coisa no canto do muro. Vamos regar. Coitadinho!

         Comecei a sentir algo frio sobre mim, caindo repentinamente. Não posso negar que era gostoso.

        

        Os dias foram passando, eu crescendo, meu tronco avolumando, minhas folhas ganhando forma e beleza. A dona da casa cuidando de mim como um bebê. Percebi que, por circunstâncias, eu criara uma barriga que se debruçava sobre o cimento e que não me deixava nada bem. Observando à minha volta percebi que por ali ninguém tinha uma barriga tão estranha como eu. Fiquei mais preocupado quando, numa daquelas manhãs, uma das crianças disse :

        

           - Mamãe, veja! Ele tem uma barriga.

Olhei pra baixo e mais uma vez não gostei do que vi.

Realmente minha “barriga” crescera nos últimos dias, debruçando sobre o cimento.

 

         - Vamos chamá-lo de barrigudinho!

        

        Aí foi que não gostei mesmo. Mas minha dona, (ela me adotou, isso eu podia sentir) logo veio em meu socorro.

         - Não crianças, eu já tenho um nome pra ele. Será o meu Nonô!

         - Nonô? Mas isso é apelido de gente...

         - Pois para mim sempre será o meu Nonô, retrucou entusiasmada.

         Fui eu quem o vi nascer, conversei com ele todos os dias, engordei-o e o fiz crescer com os meus olhos, minhas palavras e meu carinho – completou entusiasmada. Até parecia devanear.

         Realmente ela conversava comigo todos os dias, me molhava, rompeu um pouco do cimento para me libertar um pouco mais. Isso me deixava feliz todos os dias, mas um pouco aflito e envergonhado. Não  podia dizer nada. Ela tão diferente de mim.

        

Uma noite perdi o sono. Tinha que encontrar um meio de responder aos seus afetos. Pensei muito. E crescer, crescer muito poderia ser uma forma de corresponder aos seus carinhos.  E nisso me empenhei muito, não posso negar. Já estava bem alto quando percebi que de mim já surgiam alguns brotos diferentes. Não eram das minhas folhas, isso eu tinha certeza. Intriguei-me. Novamente ela veio em meu socorro :

- Crianças, vejam! Estão nascendo suas primeiras flores.

Nonô vai nos dar frutos, e isto não demorará.

 

 

         Meus companheiros olharam-me com cara de poucos amigos. O limoeiro, coberto com flores branquinhas, parecendo um véu de noiva – confesso que o invejava – também fez cara de poucos amigos, mas vaidoso e entretido com sua beleza, fingiu não se importar. A laranjeira com aquela feição de azeda (mais tarde vim a saber que seus frutos eram azedos), foi a mais ofendida com o entusiasmo da minha dona.

 

 

         Passei então a acompanhar o meu novo aspecto, não sentindo sequer a passagem dos dias. Eu me enchia cada vez mais de flores e, à medida que estas caíam, surgiam pequenos frutos que minha dona vinha visitar todos os dias. Meus frutos cresciam rapidamente e eu tinha pressa em oferecê-los à minha dona.  Intrigava-me o fato de, ultimamente, estar sentindo certa ansiedade quando pensava na próxima colheita de meus frutos.

Eu não sabia lidar bem com sentimento de prodigalidade, é o que eu concluía. Um dos meus frutos amadureceu bem depressa.  Minha dona observou isso, dizendo :

        

         - Que é isto, Nonô? Os frutos amadurecem assim, tão rápidos!

        

         Já que você quer assim, hoje vamos experimentá-lo numa salada de frutas. E colheu-o. Confesso que doeu um pouco. Não me importei. Que alívio senti em retribuir aquele carinho de tantos meses. O alívio se misturou à alegria quando no dia seguinte ela veio me contar que meu fruto estava delicioso, suculento... Confesso que foi o dia mais feliz da minha vida.

 

         No entanto naquela tarde, ouvi meus companheiros fazendo um comentário estranho sobre o tempo. Eu era o mais novo e nada entendia daquilo. Apenas percebi que eram maus presságios. Inquietei-me. E logo começou uma ventania que eu nunca tinha visto. Espremido contra o muro alto, eu me sentia protegido. Mas qual nada. Comecei a sentir uma pressão sobre os meus frutos, minhas folhas e quando tentei localizar minhas flores, essas já não estavam mais em mim. Jaziam ao meu redor, feridas, machucadas, destruídas. Meus frutos perfurados pelo granizo – percebi que não tinha condições de sobrevivência. Restava-me o consolo de ter dado à minha dona, de forma apressada e milagrosa, um de meus frutos. Olhei para minhas folhas que pareciam uma tela fina, ligadas apenas pelas nervuras. A chuva de granizo que até então eu desconhecia, duro pouco, mas foi devastadora. À minha volta, tudo era destruição. E o pior é que ninguém vinha em nosso socorro. Na casa a confusão era tremenda. Crianças chorando, telhado descoberto, vidraças quebradas e a casa suja, molhada. Vi quando tiraram o carro da garagem, entraram todos e partiram. As crianças estavam sendo levadas dali.

 

         Passamos uma noite horrível. Machucados, despedaçados, e eu distante dos outros pelas condições de nascimento, de onde estava só ouvia piados, latidos e lamúrias.

 

         Felizmente o dia chegou. Olhei pra mim e  senti auto-compaixão. Fora o mais violentado. O limoeiro perdeu folhas e flores, mas sobreviveria, pois os seus galhos foram resistentes às pedras. A laranjeira azeda foi a menos prejudicada – dizem que coisa ruim não morre. O pessegueiro perdeu quase tudo, todavia podia se recuperar. Os animais pequenos tiveram suas casas destruídas, porém estavam de pés sujos, depenados, arrepiados, mas de pé.

 

         Ouvi vozes e percebi que eram os adultos regressando para colocar ordem em tudo e verificar os prejuízos. Daí a pouco, ouvi ruídos. Alguém se aproximava. Era ela. Parece que não via nada além de mim. Atrás dela vinha alguém. Era um homem trazendo nas mãos uma ferramenta. Nunca o vira antes. Começou a podar o limoeiro, o pessegueiro e juntar os galhos que se acumularam debaixo de todos nós. E eu ali!  Tudo que me restava era o tronco esfacelado e umas poucas folhas que mais pareciam uma tela fina. De pé, agonizando, eu esperava sua reação. Em frente a mim, silenciosa, desolada, disfarçando as lágrimas, finalmente ela me disse :

 

 

         - Ah! Nonô! Logo você que me deu tantas alegrias! Até para morrer você se mostrou bonito. Suas folhas tornaram-se rendas. Como as pedras o castigaram!

         Senti que o homem caminhava para mim. Novamente aquela aflição de fazer alguma coisa. Agora como despedida, eu tinha certeza. À primeira machadada minha seiva rolou. Rolou como lágrimas. Eu estava chorando e não me envergonhava disso.

        

         E, tentando morrer ainda de pé, eu ouvia a voz dela :

         - Adeus Nonô! Adeus, meu pé de mamão!

 

 

 

Maria da Conceição Carvalho Barros é alvinopolense, professora e escritora graduada em Letras.

Contato : mariahcbarros@gmail.com

 

 

Este conto foi o vencedor do I CONCURSO LITERÁRIO EM PROSA E VERSOS – PRÊMIO “ZÉ DE CHICO” , realizado em Alvinópolis em 2006.

Foi publicado na Primeira Antologia de Alvinópolis, numa organização da Ana Teresinha Drumond.

Um livro muito bacana que será publicado nas colunas do Alvinews.