As Camélias
Maria da
Conceição Carvalho Barros
De origem quase desconhecida.
Pouco ou nada se ouviu dizer sobre os pais, se teve irmãos,
de onde veio.
Para muitos sua história começava ali, na interiorana Santo
António dos Montes. Pequeno lugarejo. Zona rural
ocupada por algumas grandes fazendas canavieiras. Parte da sua escassa população
era formada por plantadores e ceifadores de cana, suas
famílias e pequenos agricultores de culturas de
subsistência.
Chegou de manhã no trem da
Rede Ferroviária, que atendia à Zona da Mata Açucareira.
Desembarcou na pequena Estação. Um agregado da família dos
Perez a esperava.
Era de estatura mediana. Corpo proporcional à altura.
Quarentona, elegante, grandes olhos azuis, voz um pouco
rouca, de um falar corretíssimo.
Ali estava Mariana, a nova
professora, que deveria ensinar na escola rural. Veio para
alfabetizar os filhos do fazendeiro, dos canavieiros e estes
últimos também, se por ventura demonstrassem interesse. Era
o pacto que fizera com o Sr. Perez.
Preocupada em descobrir logo quem a esperava, Mariana não
percebeu o olhar curioso que o Chefe da Estação lançou sobre
ela.
O agregado, depois de um cumprimento respeitoso e um aceno
de cabeça, apanhou a valise, uma pequena mala de papelão
forrada de marrom, e dirigiu-se para a charrete, que estava
do outro lado da estação.
Mariana seguiu o moço. Obedecendo a um sinal dele, ocupou o
assento da charrete, acomodando-se o melhor que pode. Abriu
a sombrinha, abrigando-se do sol ainda fresco da manhã.
Justificando-se daquele cuidado de usar este abrigo, àquela
hora, ela disse ao rapaz:
- O sol traz muitos benefícios, mas não para a pele das
mulheres. Principalmente para as que têm
a pele clara como eu.
Ele nada respondeu. Apenas balançou a cabeça. Era de gênio
calado. Catucou o animal e a charrete
partiu levando Mariana para o seu novo destino.
Curiosamente, ela ia observando tudo à sua volta.
Silenciosa. Não era de muita conversa com estranhos. Teve a
sua atenção atraída por um bando de maritacas que sobrevoava
o canavial, em êxodo, do morro para o outro lado próximo da
fazenda.
Dali já se avistava a casa dos Perez. Um casarão ladeado por
palmeiras imperiais. Mais um pouco e aproximaram-se da sede
da fazenda. Mariana observou as mangueiras, inúmeras naquela
região, intensamente floridas, promissoras para a próxima
safra.
O agregado parou a charrete no pátio.
Olhando em volta, Mariana viu
muitos caixotes dispostos na varanda, floridos com
amores-perfeitos e malva-rosa, distribuídos alternadamente,
evidenciando o capricho da dona da casa.
O moço bateu a sineta dependurada no umbral da porta,
avisando a chegada da professora.
O Sr. Perez e Dona Cecília,
sua esposa, surgiram na varanda, acompanhados dos filhos,
recebendo carinhosamente a nova moradora.
Após os cumprimentos normais, entraram todos, atravessando a
grande sala de visitas, indo direto para a sala de jantar.
Uma empregada cuidou de levar a bagagem de Mariana até o
quarto de hóspedes. E, naquele espaço de tempo, serviu-se o
costumeiro café, acompanhado de quitandas, entabularam-se as
primeiras conversas. Depois Dona Cecília acompanhou Mariana
ao quarto, onde já estavam os seus pertences.
Chegando ali já depois dos meados do ano, Mariana tinha
pressa em iniciar o seu trabalho. Para isto, tudo já estava
preparado. Logo começou a lecionar, tomando-se muito
estimada pelas crianças e seus pais. Mais ainda pelos donos
da casa. Ali, sua vida limitava-se ao trabalho e idas
semanais ao vilarejo para pequenas compras ou acompanhando
Dona Cecília nas missas domingueiras, quando se reunia quase
toda a população na Igreja de Santo Antônio.
Apesar da idade, Mariana ainda se mantinha solteira. Era
severa com os outros e consigo mesma. Dizia-se justa,
exigente, de índole franca.
Passaram-se os meses, as festas de fim de ano, o início do
novo ano escolar e chegou o mês de Maio. Com ele, as
celebrações marianas, as missas, rezas, barraquinhas,
leilões e outras festividades próprias do interior
Convidada pelos festeiros, Mariana preparou suas crianças
para participarem da coroação da Virgem Maria, no primeiro
sábado.
Juntamente com Dona Cecília e
outras mães, a professora passou a semana inteira cuidando
dos preparativos: ensaio dos cânticos, enfeites para
barraquinhas, prendas para leilões, fogos de artifícios.
O Sr. Perez contratou a Banda
de Música para abrilhantar as festividades daquele dia.
À tarde do primeiro sábado
tudo já estava preparado. Bandeirolas enfeitando as
barraquinhas, as prendas para aos leilões embrulhadas e com
adornos de flores de papel de seda, as garrafas de vinho
enfeitadas, enfim, todos os detalhes foram cuidadosamente
inspecionados pelo gosto exigente de Mariana. Chegou o
momento da coroação. Com tanto zelo, era de se esperar que
tudo saísse a contento. As crianças cantaram com alegria,
coroaram com muito entusiasmo, sempre sob o olhar de
aprovação de Mariana.
Terminada a festividade religiosa, os fiéis ocuparam o adro
da Igreja, participando das atividades externas. Já se
ouviam os acordes das primeiras músicas através do
alto-falante. Uma prática muito usada naquele tempo era os
namorados ou pessoas, de um modo geral, nestas ocasiões,
ofertarem músicas uns aos outros, por amizade, ou tentando
reatar ou iniciar um namoro. Moças e rapazes passeavam ao
redor das barraquinhas e os interessados em arrematar os
leilões dirigiam-se para o local onde estavam as prendas.
Faltava o leiloeiro. Não
haviam pensado neste detalhe. Devia ser alguém que
entendesse do assunto.
Enquanto decidiam quem escolher para apregoar o leilão,
aproximou-se um senhor oferecendo os seus préstimos. Nunca
leiloara coisa alguma, mas estava disposto a ajudar. Para
isto contava com uma boa voz e algum tino comercial.
Era o Chefe da Estação Ferroviária.
Mariana aceitou a oferta. Agradeceu, e teve a impressão de
já tê-lo visto em algum lugar.
Não se lembrava onde.
Dilermando - este era o seu nome - entrou para a barraca e
desincumbiu-se de sua tarefa como se fosse um profissional
no assunto. Notava-se nele um desejo de agradar. Isto
tornou-se muito claro com os olhares que lançava para
Mariana.
Terminada a festa, a professora agradeceu a Dilermando. Ele
lhe pediu permissão para vê-la no sábado seguinte, naquele
mesmo local, demonstrando claramente o seu interesse. Não
escondeu suas intenções.
Mariana pediu um tempo para pensar no assunto. No decorrer
da semana colheu informações. Soube que era honesto,
trabalhador, postura de sério, mas não se definia em
assuntos amorosos. Era o típico solteirão namorador. E tinha
um caso antigo com Maria Sant'Ana, que de santa só tinha o
nome. Era moça leviana, que não se firmava com ninguém, e
com forte inclinação por homens casados.
Mariana decidiu arriscar.
No sábado seguinte lá estava
ela. Depois da missa, saiu para o adro da igreja.
Logo Dilermando veio ao seu
encontro.
Com sua franqueza habitual, Mariana foi logo expondo suas
condições para firmarem o namoro. Esperava dele amizade,
carinho, respeito e fidelidade acima de tudo. Não queria
embromação. Não tinham mais idade para namoro prolongado.
Dilermando concordou com tudo que Mariana disse.
-O menor deslize seu, Sr. Dilermando, será motivo para
terminarmos tudo.
E esta era a frase predileta de Mariana no decorrer dos
meses seguintes.
Entre namoro e casamento
passaram-se onze meses e muito respeito.
Casaram-se discretamente, como convinha à idade e índole de
Mariana.
Foram morar numa casa próxima à Estação Ferroviária.
Apesar do seu espírito
aventureiro, Dilermando não dava a Mariana motivos para
desconfiança.
Ela continuava lecionando na fazenda dos Perez. A sua vida
prosseguia calmamente. Devido à idade de ambos, não
cogitavam de ter filhos.
O Sr Dilermando mostrava-se dedicado e solícito. Mas isto
não impedia D. Mariana de exercer uma certa vigilância sobre
a conduta do marido.
Conheceu, de longe, Maria Sant'Ana.
Agora já sabia de quem se
defender. Uma vez ou outra a via na Estação, ora chegando,
ora embarcando de trem. Isto ainda não lhe dava motivos para
desconfiança, não implicava em infidelidade por parte do
marido.
Uma tarde , voltando mais cedo da fazenda, viu o marido de
prosa com a moça.
Ocultou-se para não ser vista.
Dirigiu-se para sua casa e, da
janela, ficou a espreitar os dois na Estação.
A conversa prolongava-se. Os
dois aparentavam, pelo menos, muita cumplicidade.
Teve ímpetos de ir até lá.
Conteve-se. Dois meses de casamento e um dedo de prosa não
lhe permitiam conclusões apressadas, ponderou.
Mesmo assim, quando o marido
entrou em casa, foi logo dizendo:
-Dilermando, resguarde-se das tentações. Se a inclinação da
sirigaita são os homens casados, isto já me inspira
cuidados. E você sabe do que eu estou falando. Sou muito
cuidadosa quando o caso exige. Experimente e verá.
O marido tentou dissimular, mas Mariana não se deu por
convencida.
A dúvida persistia e ela
estaria atenta. Assim arrematou a conversa daquele dia.
Algumas semanas mais tarde, o
vilarejo se preparava para a Festa de Corpus Christi, com
muito gosto e devoção. As ruas estavam atapetadas com flores
e serragem coloridas desenhando os motivos sacros, toalhas
de renda ou em bordados engalanando as janelas, flores nas
jarras e vasos de plantas completando a decoração para
aquela festa tão solene. Mariana esteve à frente de todos os
preparativos da rua onde morava.
Naquela quinta-feira, às dez horas de uma bonita manhã
ensolarada, em frente à Igreja, os fiéis iam se enfileirando
para dar início à grande procissão.
O Sr. Dilermando e Dona Mariana quiseram acompanhar de perto
o Padre Perez que, sob o pálio, ia conduzindo a custódia
ostentando o Santíssimo.
A procissão iniciou-se solenemente como convinha a uma festa
do Santíssimo Sacramento em dia de Corpus Christi.
De braços dados, o casal a acompanhava, num ritmo
cadenciado, ao som da Banda de Música.
Dona Mariana, em traje de
seda, sapatos de salto alto, mantilha de renda preta que,
adornando a cabeça, também representava o respeito devido ao
Santíssimo pelas senhoras casadas. De sombrinha aberta, ela
se protegia e ao seu marido, do sol quente, luminoso.
O Sr. Dilermando, de temo riscado, larga gravata, sapatos de
verniz, conduzia-a, numa postura quase grave, pelo braço
ereto.
Entre cânticos, rezas e o som dos dobrados festivos, a
procissão prosseguia, percorrendo as ruas da pequena Santo
António dos Montes.
Num dado momento, do outro lado da rua, aguardando o final
do cortejo, estava de pé Maria Sant'Ana, já sob a mira do
olhar severo de Dona Mariana.
- Cuidado, Dilermando! - resmungou Mariana.
Cuidado ou eu não respondo
pêlos meus atos!
- Respeite o Santíssimo, retrucou Dilermando entre dentes.
- Você que se dê ao respeito. A sirigaita está do outro lado
da rua.
Com o olhar cravado em Dilermando, Dona Mariana começou a
suspirar fundo.
Do marido, o seu olhar se
desviava para a moça, num desejo de flagrar uma troca de
olhares, uma troca sequer.
Isto não demorou.
Para o marido a tentação era
grande. Ele arriscou. Seus olhos encontraram com os da
donzela, que, furtivamente, tentou disfarçar. Mas ela não
pôde conter o sorriso malicioso, próprio de quem se deixa
levar pela tentação e pelo desejo de provocar.
Estava formado o barulho.
Numa fração de segundos, Dona
Mariana soltou-se do braço do esposo e atravessou a
procissão em passos largos, decididos. A razão lhe fugira. O
respeito à sua crença e à solenidade exigidos pelo momento
eram coisas que não contavam mais.
Ela avisara.
E estava ali para resgatar a
palavra dada.
A moça tentou se fazer de desapercebida, persignando-se à
passagem do Santíssimo.
Mas de nada adiantou. Dona
Mariana investiu sobre ela, batendo-lhe com a sombrinha.
A moça, paralisada pelo medo,
ou pela culpa, tentava escapar daquela agressão pública.
A cena foi rápida. Sem
palavras.
De um lado a ira de Dona
Mariana.
Do outro, a dissimulação e a
tentativa de fuga de Maria Sant'Ana.
Descontroladamente Dona
Mariana ainda arrancou algumas alvas camélias que a moça
trazia no decote e esfregou-as no rosto da jovem, bradando:
- Mais uma Dama das Camélias.
De Paris para Santo António
dos Montes, há muita diferença. Respeite o meu marido e os
das outras.
Com as batidas violentas, as flores despetalaram-se.
Em pranto, as lágrimas
deslizando pela face, Maria Sant'Ana, livrando-se da rival,
desapareceu numa esquina. Fugia da agressão e da vergonha.
Dona Mariana, como se desincumbindo de uma quase obrigação,
retomou ao local onde deixara o marido que não se
manifestou.
Estupefato ou culpado, ele
permaneceu onde estava, pálido como um espectro.
Ajeitando a mantilha na cabeça e o vestido de seda no corpo,
Dona Mariana novamente apropriou-se de Dilermando. Deu-lhe o
braço. Ergueu atrevidamente a cabeça.
Continuou acompanhando a
procissão, entre os olhares assustados e maliciosos dos
fiéis que, em meio ao espetáculo, continuaram cantando e
louvando o Santíssimo Sacramento.
Com poucos minutos, todos já estavam na Igreja.
Foi dada a bênção final,
seguida da dispersão natural dos devotos.
Num canto da Igreja, Dona Mariana continuava junto ao
esposo, mudo e grave, diante do vexame provocado pela sua
mulher
Assim que o Padre se dirigiu para a Sacristia, Dona Mariana
foi atrás.
Entrou. Num gesto rápido,
ajoelhou-se diante dele e disse:
- Padre Perez, me perdoe. Não me arrependo, mas me perdoe.
Para não faltar com o respeito
comigo mesma, eu o faltei para com o Santíssimo Sacramento.
Ergueu o rosto. Os grandes olhos azuis cravaram-se no Padre,
como que a esperar o seu veredicto.
E o sacerdote, desfazendo-se das vestes solenes, ajudado
pelo sacristão, respondeu-lhe, calmamente, em tom de
cumplicidade:
- Foi uma luta em causa própria. A senhora me pareceu uma
mulher muito corajosa. Zelosa de seus pertences. Que Deus a
abençoe!
Enquanto isso, uma pétala de camélia, foi deslizando
devagarinho sobre o vestido de seda de Dona Mariana até se
perder no chão.
Literatura Alvinopolense - Terceiro Movimento
De José Afrânio Moreira Duarte e Ana Maria Terrola de
Menezes, este livro foi lançado em Alvinópolis no ano de
2004.
No livro são citados os vários escritores, da nova e antiga
safra de Alvinópolis, relembrando contos e poesias. Pequenas
lembranças de uma terra rica em cultura.
MARIA DA CONCEIÇÃO CARVALHO
BARROS
Maria da Conceição Carvalho Barros, nasceu em Alvinópolis,
MG.
Na Escola Estadual "Prof.
Cândido Gomes, formou-se nos Cursos -Técnico em
Contabilidade e Magistério de 1° Grau.
É formada em Letras pela
Faculdade de Letras, do Instituto de Ensino Superior, FUNCEC
de João Monlevade.
Sempre se destacou em tudo que
fez.
Mulher de múltiplas
habilidades, tem dedicado, atualmente, seu tempo à
literatura.
Escreve contos e crónicas.
Tem Conto publicado na
Antologia Vou te Contar, da Editora do Escritor de São
Paulo, 1996.
Eventualmente, adota o
pseudônimo de Mainah.
Sua crónica Pura Doideira, foi premiada pela Editora Alba de
Varginha e incluída numa antologia da citada editora.
Maria da Conceiçao Carvalho Barros é alvinopolense,
professora e escritora.
Contato :
mariahcbarros@gmail.com
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