Pura
doideira
Maria da
Conceição Carvalho Barros
Surgia a manhã, calma, preguiçosa, sonolenta ainda.
Cedo, naquele ponto de ônibus, a professora
aguardava a condução que a levaria
à cidade próxima. Era o seu primeiro dia de férias
escolares.
Pouco abaixo dali estava o vilarejo onde
lecionava. Todo ele parecia ainda estar mergulhado no
descanso do amanhecer, na bruma dos meses de inverno. Os
vestígios do despertar ainda eram poucos.
Apenas a exuberância da natureza orvalhada, o desabrochar de
algumas flores apressadas, o cantar dos primeiros galos, o
vôo de alguns pássaros madrugadores.
-
Doideira! Doideira!Pura doideira!
Estas
palavras despertaram a professora do seu cochilar, da
exaustão que marcara a sua última semana de trabalho.
Olhou em redor. Viu no ponto ônibus, oposto ao
seu, um mendigo - foi a sua primeira impressão- perdido numa
barafunda de embrulhos, latas, sacos, bagagem própria de
doidos. Procurava, insistentemente, alguma coisa. Parecia
não estar ali o objeto de sua busca, tal o mexe e o remexe e
o nada encontrar. Desistiu.
- Doideira! Doideira! Pura
doideira!
E repetindo o
refrão, apanhou uma garrafa de café, abriu, encheu o
copo.Tomou e continuou a procurar algo, Desta vez parecia
ser um isqueiro. Encontrou-o logo e acendeu o cigarro que já
estava entre dedos.
Atravessou o asfalto, dirigiu-se para o ponto onde estava a
professora e repetiu o refrão.
Ângela percebeu tratar-se de um alienado pacífico. Sentiu
desejos de observá-lo. Ele não praguejava, não soltava
xingamentos como a maioria de seus semelhantes. Apenas
repetia:
- Doideira! Doideira! Pura doideira!
Dizendo isto,
ele se instalou no banco de concreto. A professora observou
o seu vestuário. Uma porção de peças superpostas: uma calça
de casimira surrada, uma camisa de malha, outra camisa de
mangas compridas, um casaco curto, já roto e um sobretudo de
lã, que lhe dava um ar de mendigo magnata. Três bonés
superpostos -Flamengo, Cruzeiro,Palmeiras - cobriam a sua
cabeça e protegiam do sol da manhã os seus olhos curiosos,
miúdos e enrugados. Chinelos havaianos resguardavam os seus
pés do contato
com o chão frio. Naquela superposição de peças mais uma
característica da insanidade, pensou a professora.
Sentado no
banco ele tirava as primeiras baforadas. Agora fitava uma
pequena floresta que se delineava a algumas centenas de
metros. Parecia rememorar algum fato. Ou estaria
questionando a devastação?
A concentração
do seu olhar naquele ponto da natureza era indagador. E
naquela fixação,
seus olhos tinham um brilho estranho, indescritível, quase
ameaçador.
E ele repetiu:
-
Doideira! Doideira! Pura doideira!
Na curva da
estrada surgiu uma camioneta Mitsubishi. O barulho desviou a
sua atenção da pequena mata e seus olhos buscaram o interior
do carro. Na cabine estava um desses
fazendeiros, com uma grande chapéu branco, óculos Ray-Ban,
postura de rico.
O mendigo riu sarcasticamente. Parecia ironizar a
efemeridade das coisas materiais. Os bens terrenos que
ludibriam as pessoas e as fazem julgar-se donas do poder,
naquela
mente insana, podia-se perceber, careciam de importância.
E enquanto a camioneta desaparecia na curva da estrada, ele
repetia, com ironia na voz e no próprio refrão:
- Doideira! Doideira! Pura doideira!
Levantou-se,
atravessou novamente o asfalto, dirigindo-se ao abrigo.
Remexeu os bagulhos. Desta vez encontrou logo o que
procurava. Um minúsculo rádio de pilhas. Ligou-o, sintonizou
e meteu no grande bolso do sobretudo. Voltou ao banco de
onde saíra e sentou-se. As primeiras notícias da manhã
estavam indo ao ar, abafadas no bolso. Sequestros,
arrombamentos, fugas de presídios, assassinatos, corrupção,
falta de vagas nas escolas, fraudes no sistema de saúde - e
ele ali - atento às notícias. No intervalo do noticiário,
comerciais anunciavam uma liquidação. Em época de acelerada
inflação até que
não era má notícia. Ele deu uma gargalhada gostosa, enquanto
repetia:
- Inflação, liquidação, corrupção, ladrão. Este é o
país da doideira, da pura doideira!
Nesse momento
ele modificou sua fala, buscando a rima.
E completou:
- Eu ainda deixo este país!
Levantou-se.
Decididamente atravessou o asfalto e dirigiu-se para o seu
canto. Começou a procurar. Procurar com gestos rápidos, em
meio aos seus pertences, alguma coisa que,
desta vez, parecia mais importante. Encontrou logo e desta
vez sorriu satisfeito, ergueu freneticamente os braços,
balançando aquele pedaço de papel, enquanto gritava:
- Meu passaporte para deixar este país. Isso aqui é o
país da doideira, da pura doideira!
Nisto apareceu
um jeep, e dirigindo-se para o acostamento, estacionou em
frente ao abrigo. Como se a cena lhe fosse familiar,
pacificamente, o alienado juntou sua bagagem, jogou-a no
banco de trás. Depois subiu, sentou-se junto ao motorista,
ajeitou os bonés. Como se despedisse de alguém , dizia em
voz alta:
- Vou-me embora. Não fico neste país. Esta é a terra
da doideira!
Mais uma vez o
refrão se modificara.
De longe, Ângela pode ver a placa branca do veículo que se
afastava conduzindo o homem. Cidadão do mundo, nas asas da
liberdade, para onde iria Anísio? - esse era o seu nome.
- Para o confinamento e alienação dos hospícios ou
para liberdade das mentes insanas? questionava a moça.
Indecifráveis, através de sua fala, pensamentos e gestos, Anísio
deixava perguntas e não respostas.
O refrão ainda ecoava na distância e na curva que
se perdia ao longe:
-
Doideira! Doideira! Pura doideira!
Maria da Conceiçao Carvalho Barros é alvinopolense,
professora e escritora.
Contato :
mariahcbarros@gmail.com
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