Ano novo, lá vamos nós...

 

Mariângela Repolês

 

 

 

Foi na comunhão de uma comunidade de olhos mesmos cheios de água e de cores variadas que contemplei a altura do infinito - chega a dar-me vertigem - e vi a primeira emoção compartilhada entre minha família e íntimos amigos de tantas décadas. O ano novo está aí para nascer feliz deixando vazio o ventre do tempo que se esgarça em suas últimas horas. Em um branco lenço atado nas mãos ele em despedida dá seu adeus. Esse é o único instante em que não se vê lágrimas por algo que se acaba e morre.

 

Antes das luzes do ano velho se apagarem harmônicas entre si, todos fazem a conta regressiva nos calos dos dedos aos últimos minutos que morrem e nos lábios contados os segundos que faltam para ver a felicidade estampada nascer, como nos rostos dos pais de primeira viagem pós o nascimento de um filho. Em um parto neonatal sem dor nem sofrimento, o ano andarilho, obediente e servidor faz sua mala e na voz da lua cheia - como nesta madrugada - vestida de chita dá um tímido aceno e parte deixando saudade.

Borbulhado em fictícias cascatas de estrelas andantes, o espetáculo pirotécnico que não pode parar, sobe e cai em um pout-pourri de cores e efeitos, estourando-se no céu noturno de um azul marino esplendoroso.

 

Vejo-me na trilha de tantos azuis - cada um com sua história peculiar - que por tanto tempo conviveram comigo desde além de minha infância feliz até pouco tempo atrás. Alguns me deixaram a ver navios nos sentidos de minha alma, cantando-me em grande saudade.

 

 

Azul… ah… tantos azuis que se ficaram gravados em minha memória!

Azul da Terra - o planeta mais bonito até que se prove o contrário - visto do espaço sideral; o azul das águas cristalinas que um dia se misturaram com as lágrimas das mães em busca de seus filhos perdidos; o azul das lagartas metamorfoseadas em borboletas; o azul dos papéis que enrolavam as maçãs; o  azul dos cadernos escolares e da tinta das canetas da professora colocando a letra “C” em meus exercícios corrigidos, fazendo abrir meu longo sorriso.

 

Mas o azul que jamais me esquecerei se deitaram violetas nos olhos de minha mãe. Eles que viveram como um céu azulado em minha vida e se desfaleceram com um até breve ou até daqui a pouco sempre estão presentes a exaurir-me em ferida incurável.

Ah… uma lágrima azulina insiste em pular das órbitas de meus olhos.

Não. Hoje não quero chorar. Há tempo que este azul me imprime saudade.

Gosto muito da festa do réveillon que significa justamente “acordar” entre horas de alegrias e abraços fraternos. Apesar de que nada vai modificar por causa dos foguetes serpenteados que se explodem com seus decibéis agudos e ensurdecedores, que violentam os tímpanos e fascinam os olhos. Sem eles a passagem do ano não teria graça. Prefiro o ruído das taças entrelaçando-se sob os olhares indagadores que fazem promessas para o próximo ano que nem sempre se cumprirão.

 

 

Mesmos os abstêmios como eu não resistem e se arriscam a enfrentar uma bebida alcoólica espumante - importada ou não - ainda mais oferecida por alguém que amo, para brindar a entrada deste ano-menino com a esperança de ser mais feliz do que fui nesse ano que se passou.

Como se vê estaremos caminhando para o futuro e de uma maneira ou de outra chegamos aqui e continuaremos de que modo ainda não se sabe.

 

A olhos vistos o desafio maior agora está dentro de mim mesma, que resisto ao trânsito dos anos. A bem da verdade o tempo se soma a meu corpo e a força dos ventos anda enfraquecendo-me a alma que se tem voltado em uma saga sob o ciclo da prudência e da cautela em que vive a senhora mãe de meus filhos, com a fase de teimosia da menina arteira, da época da inocência e a jovem morena sedutora dos anos rebeldes, que ainda continuam dentro de mim.

Sabe aquela fonte eólica que sustentava o horizonte promissor da juventude?

Pois é. Ela anda meio raquítica e minguada ultimamente.

 

Entra ano e sai ano e com eles o tempo escorre entre os dedos das mãos.

O ano jovem se volta cada vez mais velho a partir de hoje, mas continuaremos a alimentar os sonhos em sementes dentro de nossas almas e colheremos em seguida a esperança rezada com o pão nosso de cada dia, cada um com seu significado coerente. Qual a seda do lenço que enxuga as lágrimas derramadas e também seca o corpo extasiado em amor simplesmente, todas as fomes serão saciadas com a sorriso de quem veio para ficar.

 

 

Cada um de nós ou qualquer ser vivente com suas superstições ou crenças internas espera e deseja entrar com o pé direito no ano que ora acaba de nascer, em busca da paz universal - sem idiomas - da saúde mental e física, do amor sem fronteiras, e da prosperidade coletiva. O Menino Jesus que a poucos dias renasceu, bate em nossas portas querendo entrar, tal qual em centena de anos. ELE quer renovar a certeza de todos os sonhos conjugados nos verbos recomeçar, reconstruir, repensar e tantos outros análogos para que este novo tempo seja de reflexão do verdadeiro e pleno “não” à violência.

 

Redescobrimos o valor da vida depois de um ano de expectativa a mais com o anunciado “fim do mundo” decantado por cartomantes e crédulos. Todos os dias o mundo termina para alguém - ou para muitos - quando o sangue não mais circula em suas veias ou quando se desilude na incerteza de que outra vida virá depois que os olhos se fecharem neste planeta. O que seria da humanidade se não houvesse a virada renovadora? Existe o tempo de semeadura e de colheita.

 

O ano novo é sempre assim e a alegria veio redobrada agora porque o mundo não se acabou e a minha fé em Deus se renovou quando presenciei um milagre no final de dezembro. Só ELE é o Senhor do tempo, do universo e tem o dom de criar vidas.

Venha Deus Menino! Que Tua presença seja mais forte em mim. Senta-Te aqui do meu lado. Deixa-me sentir Teu perfume, lambuzar-me do Teu cheiro e louvá-Lo hoje e sempre.

 

Mariângela Repolês é alvinopolense, educadora e poetisa.

Contato : mariangelarrepoles@hotmail.com