Foi na comunhão de uma comunidade de olhos mesmos cheios
de água e de cores variadas que contemplei a altura do infinito - chega
a dar-me vertigem - e vi a primeira emoção compartilhada entre minha
família e íntimos amigos de tantas décadas. O ano novo está aí para
nascer feliz deixando vazio o ventre do tempo que se esgarça em suas
últimas horas. Em um branco lenço atado nas mãos ele em despedida dá seu
adeus. Esse é o único instante em que não se vê lágrimas por algo que se
acaba e morre.
Antes das luzes do ano velho se apagarem harmônicas entre
si, todos fazem a conta regressiva nos calos dos dedos aos últimos
minutos que morrem e nos lábios contados os segundos que faltam para ver
a felicidade estampada nascer, como nos rostos dos pais de primeira
viagem pós o nascimento de um filho. Em um parto neonatal sem dor nem
sofrimento, o ano andarilho, obediente e servidor faz sua mala e na voz
da lua cheia - como nesta madrugada - vestida de chita dá um tímido
aceno e parte deixando saudade.
Borbulhado em fictícias cascatas de estrelas andantes, o
espetáculo pirotécnico que não pode parar, sobe e cai em um pout-pourri
de cores e efeitos, estourando-se no céu noturno de um azul marino
esplendoroso.
Vejo-me na trilha de tantos azuis - cada um com sua
história peculiar - que por tanto tempo conviveram comigo desde além de
minha infância feliz até pouco tempo atrás. Alguns me deixaram a ver
navios nos sentidos de minha alma, cantando-me em grande saudade.
Azul… ah… tantos azuis que se ficaram gravados em minha
memória!
Azul da Terra - o planeta mais bonito até que se prove o
contrário - visto do espaço sideral; o azul das águas cristalinas que um
dia se misturaram com as lágrimas das mães em busca de seus filhos
perdidos; o azul das lagartas metamorfoseadas em borboletas; o azul dos
papéis que enrolavam as maçãs; o azul dos cadernos escolares e da tinta
das canetas da professora colocando a letra “C” em meus exercícios
corrigidos, fazendo abrir meu longo sorriso.
Mas o azul que jamais me esquecerei se deitaram violetas
nos olhos de minha mãe. Eles que viveram como um céu azulado em minha
vida e se desfaleceram com um até breve ou até daqui a pouco sempre
estão presentes a exaurir-me em ferida
incurável.
Ah… uma lágrima azulina insiste em pular das órbitas de
meus olhos.
Não. Hoje não quero chorar. Há tempo que este azul me
imprime saudade.
Gosto muito da festa do réveillon que significa
justamente “acordar” entre horas de alegrias e abraços fraternos. Apesar
de que nada vai modificar por causa dos foguetes serpenteados que se
explodem com seus decibéis agudos e ensurdecedores, que violentam os
tímpanos e fascinam os olhos. Sem eles a passagem do ano não teria
graça. Prefiro o ruído das taças entrelaçando-se sob os olhares
indagadores que fazem promessas para o próximo ano que nem sempre se
cumprirão.
Mesmos os abstêmios como eu não resistem e se arriscam a
enfrentar uma bebida alcoólica espumante - importada ou não - ainda mais
oferecida por alguém que amo, para brindar a entrada deste ano-menino
com a esperança de ser mais feliz do que fui nesse ano que se passou.
Como se vê estaremos caminhando para o futuro e de uma
maneira ou de outra chegamos aqui e continuaremos de que modo ainda não
se sabe.
A olhos vistos o desafio maior agora está dentro de mim
mesma, que resisto ao trânsito dos anos. A bem da verdade o tempo se
soma a meu corpo e a força dos ventos anda enfraquecendo-me a alma que
se tem voltado em uma saga sob o ciclo da prudência e da cautela em que
vive a senhora mãe de meus filhos, com a fase de teimosia da menina
arteira, da época da inocência e a jovem morena sedutora dos anos
rebeldes, que ainda continuam dentro de mim.
Sabe aquela fonte eólica que sustentava o horizonte
promissor da juventude?
Pois é. Ela anda meio raquítica e minguada ultimamente.
Entra ano e sai ano e com eles o tempo escorre entre os
dedos das mãos.
O ano jovem se volta cada vez mais velho a partir de
hoje, mas continuaremos a alimentar os sonhos em sementes dentro de
nossas almas e colheremos em seguida a esperança rezada com o pão nosso
de cada dia, cada um com seu significado coerente. Qual a seda do lenço
que enxuga as lágrimas derramadas e também seca o corpo extasiado em
amor simplesmente, todas as fomes serão saciadas com a sorriso de quem
veio para ficar.
Cada um de nós ou qualquer ser vivente com suas
superstições ou crenças internas espera e deseja entrar com o pé direito
no ano que ora acaba de nascer, em busca da paz universal - sem idiomas
- da saúde mental e física, do amor sem fronteiras, e da prosperidade
coletiva. O Menino Jesus que a poucos dias renasceu, bate em nossas
portas querendo entrar, tal qual em centena de anos. ELE quer renovar a
certeza de todos os sonhos conjugados nos verbos recomeçar, reconstruir,
repensar e tantos outros análogos para que este novo tempo seja de
reflexão do verdadeiro e pleno “não” à violência.
Redescobrimos o valor da vida depois de um ano de
expectativa a mais com o anunciado “fim do mundo” decantado por
cartomantes e crédulos. Todos os dias o mundo termina para alguém - ou
para muitos - quando o sangue não mais circula em suas veias ou quando
se desilude na incerteza de que outra vida virá depois que os olhos se
fecharem neste planeta. O que seria da humanidade se não houvesse a
virada renovadora? Existe o tempo de semeadura e de colheita.
O ano novo é sempre assim e a alegria veio redobrada
agora porque o mundo não se acabou e a minha fé em Deus se renovou
quando presenciei um milagre no final de dezembro. Só ELE é o Senhor do
tempo, do universo e tem o dom de criar vidas.
Venha Deus Menino! Que Tua presença seja mais forte em
mim. Senta-Te aqui do meu lado. Deixa-me sentir Teu perfume, lambuzar-me
do Teu cheiro e louvá-Lo hoje e sempre.