As cantigas dos sons

 

Mariângela Repolês

 

 

 

A movediça música amplificada ruidosamente através de alto-falantes cruza a rua e as flores movem seus lábios escandalizados, como se soletrassem um pedido de socorro. Mas não tardou muito em dar-sem por vencidas e se voltarem em uma displicente passividade. Suas almas têm sede de silêncio absoluto para florir. O eco de suas tristezas - um pouco confuso - se agasalhou no sereno frio deixado pela madrugada para acalmar seus nervos agigantados, até que o estridente som se escondesse entre os outros barulhos inerentes à vida cotidiana.

 

Ledo engano quem acredita que um som em altíssimo grau possa excitar alguém. Recordo-me que nos bailes as orquestras usavam surdinas em seus instrumentos musicais e meu par enlaçado à minha cintura solfejava palavras em mínimos decibéis em meu ouvido, levando-me a graúdos tremores serpenteados no corpo e arrepios na alma. Há séculos que no ventre materno, a água intrauterina já nos tem ensinado a rumorejar silenciosamente.

 

Cedo meu pai ligava o rádio para acertar os ponteiros do relógio e ouvir músicas apaixonadas. Creio que ele chegou antes de mim em minha casa. Assim sendo desde muito cedo foram mais alegres as manhãs e mais curiosos os dias da minha infância. Lá eu já ouvia os acordes de doce textura religiosa, notas solfejadas por uma tia beata que vivia em nossa companhia. Cirandas populares também enfeitaram minha vida infante, assim como as músicas “dor de cotovelos” interpretadas por cantores famosos.

 

Dia a dia, novas melodias iam incorporando-se nas partituras íntimas de minha vida, fossem elas populares ou eruditas. Cresci ouvindo músicas em minha casa, na escola, nas missas gregorianas e nas ruas de minha infância. Com uma espécie de delito sentimental trazido de um passado recente ou longínquo meu sorriso se atreve - com simpática resignação - a lembrar dos boleros dançados- havia também espaços para os outros gêneros românticos - nos clubes de minha cidade. Claro que com o auxilio de minha imaginação ainda sinto as mãos de meu namorado deslizando sobre as curvas, pouco acentuadas, de meu corpo adolescente, com o erotismo vibrando à flor da pele morena.

 

 

Longe vai o tempo em que se escutava a voz vibrante de cantores brasileiros ou de intérpretes espanhóis - em voga era apenas o espanhol - entoando alquímicas canções de amor. Se cantadas ao pé do ouvido por algum pretendente, aí sim com os acordes etéreos se chegava ao paraíso afrodisíaco ou em uma dimensão silenciosa do infinito. Nesse momento de êxtase promovido pela música e pelo roçar de lábios ao ouvido e à nuca, pecados eram derramados pelos poros ardentes.

 

O tempo romântico passou. Éramos jovens e não imaginávamos que um dia seríamos velhos cheios de saudade. Com certeza inúmeros aplausos dos admiradores do romantismo ouvirei, assim como sentirei olhos acusadores daqueles que retrógrados rejeitam a herança cultural de músicas sussurradas por seu passado que cochila. Mas, como não? Quanta mentira se usa para justificar o injustificável! Mas pouco me importa essa insossa cantilena porque no passado reencontro os sons e bebo as alegrias de minhas reminiscências distantes.

 

A linguagem é outra, dizem os progressistas da moda. Por outro lado, quanta inocência, quantos sonhos sinceros foram revelados ao som de minha antiga casa, onde o sol nascia primeiro, dividindo o espaço no céu com os escuros ruídos da madrugada que ainda cochilava. Ainda duvida dos sons do passado? Os pequenos raios solares expulsando as estrelas, quase de forma imperativa, se juntavam a algazarra das crianças com o barulho dos galináceos, e isso era o bastante para antecipar a alegria ali residente.

 

 

O ritual caseiro se começava cantando o cheiro do café que se impregnava invadindo o olfato das paredes, em estalidos ressecos o marulhar da enxada cavando a terra empedrada - até o mandacaru que dividia os quintais vizinhos havia se secado- ainda farfalham em minha memória. Ah… o gorgolejo da água sorvida com avidez pelas hortaliças me lembra o que havia descrito Graciliano Ramos no século passado.

 

E o timbre dos pingos da chuva que brincavam entre as pedras roliças e escorregadias rastejadas pelo vento em leves lufadas. Este cheirinho ah... Se deitou estacionado no olfato de minhas lembranças. Era praticamente impossível não ficar com água na boca quando se escutava os sonoros cicios do contato dos legumes espalhados sobre o azeite em suaves chuá-chuás. Entre a gula e o prazer não tinha preço o degustar intensamente dessa iguaria colhida na horta orgânica de minha infância.

 

Envelheceu meu tempo e minha tarde - de repente- anoiteceu em metáforas de ausências e entre os ruídos do silêncio e a melodiosa harmonia de meus dias, sou invadida por uma infinidade de sentimentos que há muito tempo não pressentia. Em devaneios e utopias a vida me convida - em sonhos ilusórios - a seguir rabiscando a sonoridade das trilhas de minhas lembranças antes que a mesma entre em colapso de um coma profundo.

 

Mariângela Repolês é alvinopolense, educadora e poetisa.

Contato : mariangelarrepoles@hotmail.com