A movediça música amplificada
ruidosamente através de alto-falantes cruza a
rua e as flores movem seus lábios
escandalizados, como se soletrassem um pedido de
socorro. Mas não tardou muito em dar-sem por
vencidas e se voltarem em uma displicente
passividade. Suas almas têm sede de silêncio
absoluto para florir. O eco de suas tristezas -
um pouco confuso - se agasalhou no sereno frio
deixado pela madrugada para acalmar seus nervos
agigantados, até que o estridente som se
escondesse entre os outros barulhos inerentes à
vida cotidiana.
Ledo engano quem acredita que um
som em altíssimo grau possa excitar alguém.
Recordo-me que nos bailes as orquestras usavam
surdinas em seus instrumentos musicais e meu par
enlaçado à minha cintura solfejava palavras em
mínimos decibéis em meu ouvido, levando-me a
graúdos tremores serpenteados no corpo e
arrepios na alma. Há séculos que no ventre
materno, a água intrauterina já nos tem
ensinado a rumorejar silenciosamente.
Cedo meu pai ligava o rádio para
acertar os ponteiros do relógio e ouvir músicas
apaixonadas. Creio que ele chegou antes de mim
em minha casa. Assim sendo desde muito cedo
foram mais alegres as manhãs e mais curiosos os
dias da minha infância. Lá eu já ouvia os
acordes de doce textura religiosa, notas
solfejadas por uma tia beata que vivia em nossa
companhia. Cirandas populares também enfeitaram
minha vida infante, assim como as músicas “dor
de cotovelos” interpretadas por cantores
famosos.
Dia a dia, novas melodias iam
incorporando-se nas partituras íntimas de minha
vida, fossem elas populares ou eruditas. Cresci
ouvindo músicas em minha casa, na escola, nas
missas gregorianas e nas ruas de minha infância.
Com uma espécie de delito sentimental trazido de
um passado recente ou longínquo meu sorriso se
atreve - com simpática resignação - a lembrar
dos boleros dançados- havia também espaços para
os outros gêneros românticos - nos clubes de
minha cidade. Claro que com o auxilio de minha
imaginação ainda sinto as mãos de meu namorado
deslizando sobre as curvas, pouco acentuadas, de
meu corpo adolescente, com o erotismo vibrando à
flor da pele morena.
Longe vai o tempo em que se
escutava a voz vibrante de cantores brasileiros
ou de intérpretes espanhóis - em voga era apenas
o espanhol - entoando alquímicas canções de
amor. Se cantadas ao pé do ouvido por algum
pretendente, aí sim com os acordes etéreos se
chegava ao paraíso afrodisíaco ou em uma
dimensão silenciosa do infinito. Nesse momento
de êxtase promovido pela música e pelo roçar de
lábios ao ouvido e à nuca, pecados eram
derramados pelos poros ardentes.
O tempo romântico passou. Éramos
jovens e não imaginávamos que um dia seríamos
velhos cheios de saudade. Com certeza inúmeros
aplausos dos admiradores do romantismo ouvirei,
assim como sentirei olhos acusadores daqueles
que retrógrados rejeitam a herança cultural de
músicas sussurradas por seu passado que cochila.
Mas, como não? Quanta mentira se usa para
justificar o injustificável! Mas pouco me
importa essa insossa cantilena porque no passado
reencontro os sons e bebo as alegrias de minhas
reminiscências distantes.
A linguagem é outra, dizem os
progressistas da moda. Por outro lado, quanta
inocência, quantos sonhos sinceros foram
revelados ao som de minha antiga casa, onde o
sol nascia primeiro, dividindo o espaço no céu
com os escuros ruídos da madrugada que ainda
cochilava. Ainda duvida dos sons do passado? Os
pequenos raios solares expulsando as estrelas,
quase de forma imperativa, se juntavam a
algazarra das crianças com o barulho dos
galináceos, e isso era o bastante para antecipar
a alegria ali residente.
O ritual caseiro se começava
cantando o cheiro do café que se impregnava
invadindo o olfato das paredes, em estalidos
ressecos o marulhar da enxada cavando a terra
empedrada - até o mandacaru que dividia os
quintais vizinhos havia se secado- ainda
farfalham em minha memória. Ah… o gorgolejo da
água sorvida com avidez pelas hortaliças me
lembra o que havia descrito Graciliano Ramos no
século passado.
E o timbre dos pingos da chuva
que brincavam entre as pedras roliças e
escorregadias rastejadas pelo vento em leves
lufadas. Este cheirinho ah... Se deitou
estacionado no olfato de minhas lembranças. Era
praticamente impossível não ficar com água na
boca quando se escutava os sonoros cicios do
contato dos legumes espalhados sobre o azeite em
suaves chuá-chuás. Entre a gula e o prazer não
tinha preço o degustar intensamente dessa
iguaria colhida na horta orgânica de minha
infância.
Envelheceu meu tempo e minha
tarde - de repente- anoiteceu em metáforas de
ausências e entre os ruídos do silêncio e a
melodiosa harmonia de meus dias, sou invadida
por uma infinidade de sentimentos que há muito
tempo não pressentia. Em devaneios e utopias a
vida me convida - em sonhos ilusórios - a seguir
rabiscando a sonoridade das trilhas de minhas
lembranças antes que a mesma entre em colapso de
um coma profundo.