Lembranças cruas, saudades desnudas.

 

Mariângela Repolês

 

 

 

E a alegria se estacionou em minha alma nesta madrugada de carnaval. A música se voltou ainda mais vulgar com seu estrondo sônico e seu som ainda mais vazio grita e sacode o meu silêncio doído, preenche o resto da noite e, efetuando um rápido movimento, agita minha alma enlutada que em tristeza se refugia.

 

Não haveria melhor data para esse Arlequim apaixonado despedir-se de seus amigos, família e irmãos paralisando a folia que havia em cada um de nós.

Suas correntes filosóficas e das músicas eruditas - tão avançadas para sua época- se deitarão sobre sua imagem e seus pensamentos irreverentes serão recontados e recordados em casos pitorescos por todos aqueles que aprenderam a amá-lo e respeitá-lo em sua maneira única e peculiar de ser.

 

Em um voo supersônico - com uma velocidade acima de Mach 1 - ele passeou sobre sua cidade bebericando sofregamente sua última dose gelada nos copos de rostos conhecidos e se vê triste na praça que tudo assiste.

E a vareta dos tamborins bateu mais forte, se calou, lhe abriu o paraíso e o carnAVAL lhe conferiu seu passaporte sem carimbo de retorno.

 

Em mero detalhe restou apenas por detrás da máscara o rosto da verdade - seu adeus sem aviso prévio - deixando-nos rastros de sua essência, seu riso acanhado, sua liberdade em busca do infinito.

E o sonido surdo comovente desmaiou o sorriso do Arlequim, lhe tirou a alegria, a cuíca roncadora em pranto se desfez. E ele se foi espalhando sua poesia sonhadora cadenciada pelo pulsar de suas veias feridas que em hemorrágica alegoria vermelha serpenteou por seu corpo. Pouco a pouco em apoteoses se feneceram seus sonhos, sua alma de fantasias se despojou e descolorindo-se em preto e branco sorrateiramente se reverteu.

 

De braços dados com uma angustia que me dói, ainda que como humana eu tivesse o dom da profecia ou conhecesse todos os mistérios da vida e da morte, não poderia deixar de citar fatos que me chegam trazidos pela memória, de quando - a seu lado - eu ainda era apenas uma menina infante.

 A menina que existe dentro de mim observa os jovens adultos jogarem serpentina nas pessoas que passavam frente à casa de seus pais e ficava enfeitiçada pela direção imprevisível que a mesma seguia, mas a serpentina nas mãos de seu irmão Rafael ela sabia seu rumo certo.

Embora timidamente disfarçado ele sempre a enrolava - com ou sem consentimento da moça loira ou morena - na cintura da mesma como uma espécie de abordagem inocente.

 

Caminho mais um pouco e vejo - lhe posso assegurar que consigo visualizar - na multidão que se dispersa diante de minha dor, meu irmão - o mesmo da serpentina acima citado - em alto olor etílico subindo a antiga rampa de acesso à minha casa cantando: “arranjei uma mulinha pra brincar no carnaval ai, ai, ai, ai. As orelhas são de mola e o rabo é de jornal, montado na mulinha devagar eu chego lá.” Sinto até o estalo de sua língua no céu da boca e lambendo os lábios a degustar uma cerveja gelada e o líquido escorrendo fora do copo e ele extasiado diante da loura bebida ou da loura namorada.

Neste trajeto não há nada a não serem os frutos que as lembranças me trazem. Estaciono frente aos bares e botequins de sua fiel presencia e miro o contentamento dos donos esfregando as mãos e a casa aberta para receber seus permanentes fregueses. 

 

Um recipiente de latão dourado, com um dispositivo na ponta para liberar o gás com apenas o som de um “shiiii” ensopava os corpos já que lançar e receber esses respingos fazia parte dos esquemas de sedução.

E um cheiro de lança perfume Rodouro - genuinamente argentino e que não era proibido - se impregnava também no ar, nas paredes diante de um coro de vozes

-desafinadas e desarticuladas - solfejava pedaços de músicas que a saudade ditava explodidas ao descompasso de cada melodia. E os olhos embriagados flertavam o vazio eufórico da alma que necessitava extravasar suas tristezas ocultas e o corpo que se deleitava em alegrias momentâneas. Ergo um brinde de lágrimas que brota de minha alma - não de vinho - a ele que certamente esteve presente nesta cena carnavalesca.

 

-Ah, carnavais de outrora e mais este atual, inesquecíveis se voltarão.

 

 

A alegria de toda a família foi violada pela partida de nosso irmão em plena

terça-feira de carnaval, que com sua maneira simples, inibida - de quase ausência - com seu silencio pertinente se fez ouvir calando os tambores de Momo.

Sem alarde ele se foi silencioso como esta quarta-feira de cinza.

Nasceu e viveu na pobreza material, mas legou a seus amigos sua intelectualidade de filósofo que eles tão bem compreenderam.

Como bacharel em advocacia recebeu habeas corpus para a eternidade ou seu próximo regresso. Para sua família - data vênia diria ele - o alvará de sua eterna presença-ausente ele deixou.

Para seus irmãos ele sorri sem graça, deixa seu agradecimento a todos - embora incrédulo - esperançoso que em pouco tempo se encontre com mamãe, papai e todos os familiares que já estão à sua espera. Embora tenha fisicamente se retirado deste mundo ainda ficará escondido e próximo ao mesmo tempo entre os que lhe amaram.

 

Meu pensamento vagueia pelas ruas vazias de minha cidade. Vazias de gente e de carnaval. Apenas um vento frio sopra em uma janela aberta nesta madrugada sem sono, vazia sem vida. Ah, e este Arlequim apaixonado - sem samba em seu pé - desmascarando-se da vida, convida seus amigos e irmãos no meio da folia, que venham a ele, despreguiçando flores em botões em abre alas para seu corpo

passar e ao silêncio próprio de cada um, espalhar suas cinzas em sua última

dança em família. Serpentinas enroladas se multiplicam garganta abaixo e

confetes coloridos- cortando como foice - em saudade caem coreografados ao ritmo da esperança no amanhã. Mais um carnaval chegou ao fim e com ele

também acaba o último ciclo de vida terrena de meu irmão. E na sua despedida final - cada irmão em sua órbita própria de metamorfose ambulante - ele com sua compostura humilde lançou seu último olhar imóvel para aqueles que amara um dia e pragmático disse:“Dura lex sed lex.”Enfim abriu seu sorriso constrangido

e se foi. Simplesmente isso. Nada mais. Oxalá seja ele agora mais feliz.

 

Tentando justificar minha dor recordo Fernando Sabino e incorporo suas palavras dizendo:“ De tudo ficam três coisas... A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que é preciso continuar, e a certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar.... Devemos fazer da interrupção um caminho novo. Da queda, uma dança ...Do medo, uma escada ...Do sonho, uma ponte... Da procura, um encontro"

 

Mariângela Repolês é alvinopolense, educadora e poetisa.

Contato : mariangelarrepoles@hotmail.com