Tudo começa na hora certa: nem antes, nem
depois. Por isso durante meses senti em minha
própria pele a gravidez de minha caçula e por
que não dizer, com um pouco de nostalgia e uma
certa inquietação quando me recordo de minha
ansiedade pela espera de meus quatro filhos
ainda residindo em um forno climático agradável
e confortável dentro de mim.
Não vou mentir que minhas sólidas lágrimas não
se derreteram e que não chorei, que não tive
insônia e outras características inquestionáveis
não me acometeram. Isso é o preço que se paga
por ser mãe aflita e amorosa. Nada,
absolutamente nada que acontece em minha vida
poderia ter sido de outra forma. Tão sabiamente
Einstein disse um dia que: “Se um dia você tiver
que escolher entre o mundo e o amor, se lembre:
se escolher o mundo ficará sem amor, mas se você
escolher o amor, com ele conquistará o mundo”.
Com uma pitada de medo em meu coração adquiro a
dimensão de uma alegria imensa que me invade. Já
conhecia esta verdadeira dimensão anteriormente,
mas descobri que sou capaz de ir muito mais além
e sair dissimulada de um quarto para chorar
escondida nos corredores de um hospital.
Vejo com mais cuidado e olho não apenas a benção
do amor que se fortalece, mas também a
celebração da vida que renovada passa a habitar
a alma de minha família.
Comprovo o quanto vale a pena minha dedicação a
essa família minha que me tem feito ver com
outros olhos tudo a meu redor, que me tem dado
um retorno que me deixa completamente em estado
de graça.
Agradeço o quanto Deus tem sido generoso comigo.
E on-line passei a sorrir.
Em um universo diferente certo anjo se espremeu
durante nove meses em um ambiente aconchegante
onde reinava o silêncio cósmico - que só
pertence à maternidade - e vai além da vã
imaginação humana. Uma força infinita cedeu ao
tempo determinado por leis divinas e este país
das maravilhas rompeu o primeiro laço de
carinho, amor e cumplicidade para dar
continuidade a outros sentimentos aglomerados
onde um leque de emoções variadas serão
deflagradas. Ah, este tempo que possui seu prazo
de validade por quarenta semanas se abriu e se
desaguou dessa acústica uterina serena e sonora.
O sonho de viver para sempre neste ventre divino
havia se extinguido. Na entranha materna havia
esgotada sua permanência. Era chegada a hora de
vir para uma terra ainda desconhecida e
misteriosa que sob um manto diáfano busca
esconder - ainda que furtivamente - toda a
felicidade que o aguarda.
As formas geométricas do útero de minha filha já
não são suficientes, a topografia desta terra se
tornou mínima e até os móbiles coloridos e
sonoros suspensos na barriga de sua mãe já não
chamam a atenção de meu neto e sem ignorar a
linguagem e os sinais maternos ele quer
interagir-se com outro mundo físico e real. Seu
tempo se escorreu e ele deixou as luzes se
apagarem a sorrir e – por não ser egoísta nem
latifundiário- veio para meus braços também.
As águas bilíngües - diálogo sincero entre filho
e mãe- se fizeram ousadas, desaguaram em
alegres arco-íris e em gotas inocentes, como o
orvalho da madrugada, você vem serenar toda a
esperança de um mundo melhor, tal qual a água
benta em um batismo surreal.
Dentro deste oráculo sagrado as águas amnióticas
exigiram ser poliglotas e vieram se misturar com
as águas dos olhos de seus avós encharcando de
alegria suas vidas.
Seja bem-vindo José Bento!
Com um som um pouco abafado ele chora a todos os
pulmões e sua mãe tenta dublar um acorde de
ninar.
Finalmente suas retinas rastrearam com
imperfeita precisão os rostos sorridentes -
entre lágrimas - de seus futuros pais.
Suas lentes visuais medem o novo espaço, esta
nova galáxia terrena a ser habitada e ele
percebe que a cena intra-uterina se volta igual
: cheia de calor, de ternura e de amor.
As imagens desfocadas e tridimensionais desviam
seus olhos indagadores e ele reconhece a surda
voz da alma de Cristina e Cadô que em muda
alegria gagueja e suspira.
Aqui cito Freud que usando da razão disse um dia
que “a vida é uma dádiva entre tantas
dádivas que recebemos” por tanto lhe digo José
Bento: venha brincar comigo, venha esvoaçar seus
cabelos sobre todos os cantos dos fios prateados
em minha cabeça, venha derramar seu pranto por
minhas madrugadas de insônia. Venha José Bento
subir pelas montanhas de minha cidade como se
elas fossem montanhas russas e voejar na
felicidade de seus avós, venha correr entre meus
versos e me balbucie suas rimas inocentes para
enfeitar meus poemas, ponha seus pés pequeninos
na água doce do rio de minha rua, divirta-se
bastante com os seus tios, primos e peixes
coloridos da fazenda Das Peneiras.
Quero ainda que você e Francisco assustem o
silêncio de minha casa que mais se parece a um
suspiro a gemer e venham - como frutos de amor-
somar seus sonhos a meus sonhos fazendo arruaça
pelos dias que me restam.
E o que mais eu poderia querer?
Ah! Espero que você saiba esperar para ser
beijado pelos ventos marinhos de Caraíva -seu
novo lar - que de vez em quando deixe de lado
as praias baianas, deixe um pouco seus pais
-os caçadores de
sossego - e venha fazer arruaça em minha vida.
Faça uma incrível caminhada pelas planícies
florescidas, desde Caraíva até minha terra e me
traga um girassol ou uma flor amarela colhida no
jardim de sua casa.
Espero que em breve você venha
mergulhar em minhas lágrimas à deriva de
tanta saudade e
venha escaramuçar esta saudade que residirá em
nós, devolvendo a nossos rostos a gargalhada
perdida que cedeu lugar a um riso tímido diante
de sua ausência.
Quero que busque nestas vindas retemperar minhas
forças e eu ainda possa ter o comando da
felicidade que sempre reinou emaranhada na minha
própria história.
Agora com olhos lacrimejando em mel, minha alma
solfeja e canta anunciando um novo tempo.