Luzes que se apagam ao sorrir

 

Mariângela Repolês

 

 

 

Tudo começa na hora certa: nem antes, nem depois. Por isso durante meses senti em minha própria pele a gravidez de minha caçula e por que não dizer, com um pouco de nostalgia e uma certa inquietação quando me recordo de minha ansiedade pela espera de meus quatro filhos ainda residindo em um forno climático agradável e confortável dentro de mim.

Não vou mentir que minhas sólidas lágrimas não se derreteram e que não chorei, que não tive insônia e outras características inquestionáveis não me acometeram. Isso é o preço que se paga por ser mãe aflita e amorosa. Nada, absolutamente nada que acontece em minha vida poderia ter sido de outra forma. Tão sabiamente Einstein disse um dia que: “Se um dia você tiver que escolher entre o mundo e o amor, se lembre: se escolher o mundo ficará sem amor, mas se você escolher o amor, com ele conquistará o mundo”.

 

Com uma  pitada de medo em meu coração adquiro a dimensão de uma alegria imensa que me invade. Já conhecia esta verdadeira dimensão anteriormente, mas descobri que sou capaz de ir muito mais além e sair dissimulada de um quarto para chorar escondida nos corredores de um hospital.

Vejo com mais cuidado e olho não apenas a benção do amor que se fortalece, mas também a celebração da vida que renovada passa a habitar a alma de minha família.

Comprovo o quanto vale a pena minha dedicação a essa família minha que me tem feito ver com outros olhos tudo a meu redor, que me tem dado um retorno que me deixa completamente em estado de graça.

Agradeço o quanto Deus tem sido generoso comigo.

E on-line passei a sorrir.

 

Em um universo diferente certo anjo se espremeu durante nove meses em um ambiente aconchegante onde reinava o silêncio cósmico - que só pertence à maternidade -  e vai além da vã imaginação humana. Uma força infinita cedeu ao tempo determinado por leis divinas e este país das maravilhas rompeu o primeiro laço de carinho, amor e cumplicidade para dar continuidade a outros sentimentos aglomerados onde um leque de emoções variadas serão deflagradas. Ah, este tempo que possui seu prazo de validade por quarenta semanas se abriu e se desaguou dessa acústica uterina serena e sonora.

O sonho de viver para sempre neste ventre divino havia se extinguido. Na entranha materna havia esgotada sua permanência. Era chegada a hora de vir para uma terra ainda desconhecida e misteriosa que sob um manto diáfano busca esconder - ainda que furtivamente - toda a felicidade que o aguarda.

 

 

As formas geométricas do útero de minha filha já não são suficientes, a topografia desta terra se tornou mínima e até os móbiles coloridos e sonoros suspensos na barriga de sua mãe já não chamam a atenção de meu neto e sem ignorar a linguagem e os sinais maternos ele quer interagir-se com outro mundo físico e real. Seu tempo se escorreu e ele deixou as luzes se apagarem a sorrir e – por não ser egoísta nem latifundiário- veio para meus braços também.

As águas bilíngües - diálogo sincero entre filho e mãe-  se fizeram ousadas, desaguaram em alegres arco-íris e em gotas inocentes, como o orvalho da madrugada, você vem serenar toda a esperança de um mundo melhor, tal qual a água benta em um batismo surreal.

Dentro deste oráculo sagrado as águas amnióticas exigiram ser poliglotas e vieram se misturar com as águas dos olhos de seus avós encharcando de alegria suas vidas.

 

Seja bem-vindo José Bento!

Com um som um pouco abafado ele chora a todos os pulmões e sua mãe tenta dublar um acorde de ninar.

Finalmente suas retinas rastrearam com imperfeita precisão os rostos sorridentes - entre lágrimas - de seus futuros pais.

Suas lentes visuais medem o novo espaço, esta nova galáxia terrena a ser habitada e ele percebe que a cena intra-uterina se volta igual : cheia de calor, de ternura e de amor.

As imagens desfocadas e tridimensionais desviam seus olhos indagadores e ele reconhece a surda voz da alma de Cristina e Cadô que em muda alegria gagueja e suspira.

 

Aqui cito Freud que usando da razão disse um dia que “a vida é uma dádiva entre tantas

dádivas que recebemos” por tanto lhe digo José Bento: venha brincar comigo, venha esvoaçar seus cabelos sobre todos os cantos dos fios prateados em minha cabeça, venha derramar seu pranto por minhas madrugadas de insônia. Venha José Bento subir pelas montanhas de minha cidade como se elas fossem montanhas russas e voejar na felicidade de seus avós, venha correr entre meus versos e me balbucie suas rimas inocentes para enfeitar meus poemas, ponha seus pés pequeninos na água doce do rio de minha rua, divirta-se bastante com os seus tios, primos e peixes coloridos da fazenda Das Peneiras.

 

Quero ainda que você e Francisco assustem o silêncio de minha casa que mais se parece a  um suspiro a gemer e venham - como frutos de amor- somar seus sonhos a meus sonhos fazendo arruaça pelos dias que me restam.

 

E o que mais eu poderia querer?

Ah! Espero que você saiba esperar para ser beijado pelos ventos marinhos de Caraíva -seu novo lar -  que de vez em quando deixe de lado as praias baianas, deixe um pouco seus pais -os caçadores de sossego - e venha fazer arruaça em minha vida.

 

Faça uma incrível caminhada pelas planícies florescidas, desde Caraíva até minha terra e me traga um girassol ou uma flor amarela colhida no jardim de sua casa.

Espero que em breve você venha mergulhar em minhas lágrimas à deriva de tanta saudade e venha escaramuçar esta saudade que residirá em nós, devolvendo a nossos rostos a gargalhada perdida que cedeu lugar a um riso tímido diante de sua ausência.

Quero que busque nestas vindas retemperar minhas forças e eu ainda possa ter o comando da felicidade que sempre reinou emaranhada na minha própria história.

Agora com olhos lacrimejando em mel, minha alma solfeja e canta anunciando um novo tempo.

Mariângela Repolês é alvinopolense, educadora e poetisa.

Contato : mariangelarrepoles@hotmail.com