Preservando lembranças

 

Mariângela Repolês

 

Nada tem suscitado tantas polêmicas como falar do passado. Há pessoas que não conseguem dormir sem dar uma mirada no passado,

mas há também os que não gostam  de recordar os episódios idos. Então questiono:  - será que esses últimos, escondem atrás de suas culpas ou querem apenas ser revolucionários modernos?

 

Se esqueceram com certeza, que o presente e o passado são amanheceres e entardeceres da vida e constituem espetáculos de grandeza e mistério que se despregam em cada ponto deste complexo tecido que é o viver.

Não há delito quando nessa altura da vida, se releia o passado como um ato de alegria gratificante, como um tempo demasiado simples, às vezes quase ingênuo que ficou armazenado na memória gustativa, com tantos olores e aromas, ao longo da vida que se gravou em cenas comoventes e por isso perduram.

 

Já dizia Guimarães Rosa: “Deus nos dá pessoas e coisas para que aprendamos a alegria, depois Ele nos tira pessoas e coisas para ver se somos capazes da alegria sozinhos.”

 

Quando se volta ao tempo, a atmosfera das lembranças se altera em arritmia cardíaca e o eco se ressoando ao presente, a temperatura da alma acelera o metabolismo, se consegue fazer um streeptease dela e das lembranças do corpo.

 

As lembranças do passado me retratam um tempo em que não bastava pontear engatinhando um violão. Era necessário ter habilidades acima das partituras, da música gerida com texturas e timbres de conteúdo artístico.

Sou hospede de uma época , onde o divino pecado de roubar frutos nos quintais vizinhos ou cigarros dos fumantes nos era afrodisíaco, que em sua charutaria , José Rodrigues - com o colarinho de sua camisa clerical com abotoaduras de ouro - se vendia cigarros e com seu espírito e perfil empreendedor , - com grande relevância - caixas de madeira com rótulos de importados eram exibidos os charutos cubanos, em verdadeira excentricidade.

 

Ah... e na loja de armarinhos de Sr. Ernesto, com os cotovelos inclinados

no antigo balcão, contando os casos de seu jornal - O progresso – cativava a clientela adulta e distribuindo balas de côco queimado, realizava os sonhos dos meninos menos abastados.

 

 

Sou testemunha de um tempo que o “chorinho” do cavaquinho de João De Vina, se incorporava com a sinfonia em passarela dos pés dos meninos que em ingênua aragem  respiravam entre os buracos do sapato,  rumo à escola Monsenhor Bicalho;  que nas pescarias se amarrava com barbante a garrafa - de vidro – cheia de água  e a jogava no rio para que saísse cheia de gotinhas mais geladas.

 

Ah… os refrigerantes - tão desejados - eram feitos de limonada com bicarbonato de sódio ocasionando assim o borbulhar do líquido que povoava o imaginário fantasioso dos olhos inocentes dos meninos.

Ah... nesta infância, se cantava para os caracóis tentando um diálogo, junto com seu cheiro úmido, na esperança de vê-los sair de sua casca alongando seus chifrinhos. Aí se via toda a poesia em constante e duradora alegria.

 

Sou testemunha de um tempo em que as residências, com honrarias recebiam em sua sala principal - as visitas que vinham à procura de um dedo de prosa ou mesmo degustar o tradicional café - com gosto adocicado de rapadura - aromatizado com toques e sabores diferenciados, servidos em xícaras de louça esmaltada .

E noite a dentro - de maneira peculiar- ouvir as conversas animadas, cantorias e poetas com versos rimados, declamados em delírios delirantes ao redor do fogão a lenha.

 

Tempos de inocência onde se bastava o olhar do pai para que as pernas torneadas da menina morena, pele de canela, se escondessem entre o murmúrio de seu vestido e anáguas azuladas.

Esses eram os pequenos milagres diários testemunhados pelas paredes de outrora.

 

Longe lá se vão as noites que nos bailes, para dar o ar de boate, de penumbra, se colocava um escuro papel celofane nas lâmpadas, dando um ambiente de aconchego aos enamorados, que entre os olhos marrons enigmáticos de Billy e os castanhos invisíveis de uma menina morena, havia um alinhavo em conexão apaixonada, ao som de um piston em surdina; que nos pés de Repolês e Mariângela, - independente do segmento musical – havia um DNA de ritmos, suing e harmonia e que dançavam como lapidassem o piso do salão, transformando-o em pedra preciosa.

 

E como era agradável, no cinema - São Geraldo, Alhambra ou do Padre - ser roubado de seu lábio um beijo - de cereja- com olor de menta anestesiando sua boca desconfiada!

 

Como era afrodisíaco o beijo ambíguo - difusor de vários sabores - roçando o paladar com seu gosto etílico, liberando os hormônios, ao mesmo compasso quente e refrescante, cítrico e picante, surpreendendo as sensações gustativas que provocavam gotículas orvalhadas pelo corpo, já que era proibido, era vetado demonstrar desejos libertinos.

E essa alienação pertencia só ao inconsciente porque enquanto o desejo se escondia nos recônditos do ser, as mãos pelo corpo se usufruíam de um dialogo conspirador.

 

Se apresse leitor controverso, que breve vai amanhecer, vai clarear e daqui

a pouco tudo será passado e não se pode matá-lo com um silencio

apocalíptico porque já disse Christiane Seigman:
 

“A vida é continuidade, é fluxo incessante

entre o passado, o presente e o futuro.

Trazer o passado para o agora é encontrar a própria essência.

É perceber características familiares, que nos permitem transformar a vida e se descobrir eterno.”

 

Ao escrever se baila comigo a dança mais difícil da vida: reter a magia do passado ao presente, antes que na metade da música, o declínio físico do corpo se lembre que sua história e o tempo passara por ele.

Preservar as lembranças - mesmo na saudade- é necessário, porque se se perde as lembranças inocentes, se perde a alegria do viver.

 

 

 

Preservando los recuerdos

 

 

 

Nada ha suscitado tantas polémicas como hablar de lo pasado.

Hay personas que no consiguen dormir sin dar una mirada en lo pasado,

pero hay también los que no les gusta recordar los episodios idos. Entonces cuestiono: - será que esos últimos se esconden atrás de sus culpas o quieren apenas ser revolucionarios modernos?

Se olvidaron, con certeza, que lo pasado y lo presente son amaneceres y atardeceres de la vida y constituyen espectáculos de grandeza y misterio que se despliegan en cada punto de este complejo tejido que es lo vivir. No hay delito cuando en esa altura de la vida, se relea lo pasado como un acto de alegría gratificante, como un tiempo demasiado simple, a veces casi ingenuo que se quedó almacenado en la memoria gustativa, con tantos olores y aromas, al largo de la vida que se grabó en escenas enternecedoras y por eso perduran.

Ya decía Guimarães Rosa:

“Dios nos da personas y cosas para que aprendamos la alegría, después Él nos tira personas y cosas para ver si somos capaces de la alegría solos.”

 

Cuando se vuelve al tiempo, la atmosfera de los recuerdos se altera en arritmia cardíaca y el eco resonándose al presente, la temperatura del alma acelera el metabolismo, se consigue hacer un streep-tease d e ella y de los recuerdos del cuerpo.

Los recuerdos de lo pasado me retratan un tiempo en que no bastaba puntear gateando una guitarra. Era necesario haber habilidades arriba de las partituras, de la música hecha con texturas y timbres de contenido artístico.

Soy huésped de una época donde el divino pecado de robar frutos en los huertos vecinos o cigarros de los fumantes nos era afrodisíaco, que en su tienda, José Rodrigues con la gola de su camisa clerical y botonadura de oro -se vendía cigarros y con su espíritu y perfil emprendedor , -con grande relevancia - cajas de madera con rótulos de importados eran exhibidos los puros cubanos, en verdadera excentricidad.

 

Ah… y en la tienda de abacería de Sr. Ernesto, con los codos inclinados en lo antiguo balcón, contando los casos de su periódico - El progreso – cautivaba la clientela adulta y distribuyendo caramelos de coco quemado, realizaba los sueños de los niños menos abastados.

 

 

Soy testigo de un tiempo que el “llorito” del cavaquinho de João De Vina se incorporaba con la sinfonía en pasarela de los pies de los niños que en ingenuo céfiro respiraban entre los orificios del zapato, rumbo a la Escuela Monseñor Bicalho y en las pescarías se amarraba con cordón la botella - de vidrio - llena de agua y la jugaba en el río para que saliese llena de gotitas más heladas.

 

Ah… los gaseosos - tan deseados - eran hechos de limonada con bicarbonato de sodio ocasionando así lo burbujear del líquido que poblaba lo imaginario fantasioso de los ojos inocentes de los niños.

Ah... en esta infancia, se cantaba para los caracoles tentando un diálogo, junto con su olor húmedo, en la esperanza de verlos salir de su cáscara alongando sus cuernitos.

Ahí se vía toda la poesía en constante y duradera alegría.

 

Soy testigo de un tiempo en que las residencias, con honores recibían – en su sala principal - las visitas que venían a la procura de un dedo de prosa o mismo degustar lo tradicional café con gusto endulzado de rapadura, aromatizado con toques y sabores diferenciados, servidos en taza de loza esmaltada.

Y noche a dentro - de manera peculiar- oír las conversas animadas, canturías y poetas con versos rimados, declamados en delirios delirantes alrededor del fogón a leña.

Tiempos de inocencia donde se bastaba lo ojear del padre para que las piernas torneadas de la niña morena, piel de canela, se escondiesen entre el murmullo de su vestido y enaguas azuladas. Esos eran los pequeños milagros diarios testificados por las paredes de otrora.

 

Lejos allá se van las noches que en los bailes, para dar el aire de “boate”, de penumbra, se ponía un oscuro papel celofán en las lámparas, dando un ambiente de “aconchego” a los enamorados, que entre los ojos marrones enigmáticos de Billy y los castaños invisibles de una niña morena, había un hilván en conexión apasionada, al sonido de un pistón en sordina;

que en los pies de Repolês y Mariângela, - independiente del segmento musical - había un DNA de ritmos, suing y armonía y que danzaban como lapidasen el suelo del salón, transformándolo en piedra preciosa.

¡Y cómo era agradable, en el cine - San Geraldo, Alhambra o del Padre - ser robado de su labio un beso - de cereza- con olor de menta anestesiando su boca desconfiada!

¡Cómo era afrodisíaco el beso ambiguo - difusor de varios sabores - rozando el paladar con su gusto etílico, liberando las hormonas, al mismo compaso caliente y refrescante, cítrico y picante, sorprendiendo las sensaciones gustativas que provocaban gotitas rociadas por el cuerpo ya que era prohibido, era vetado demostrar deseos libertinos.

Y esa alienación pertenecía sólo al inconsciente porque mientras lo deseo se

escondía en los recónditos del ser, las manos por el cuerpo se usufructuaban de un diálogo conspirador.

 

Se aprisa lector que breve va amanecer, va clarear y de aquí a poco todo será pasado y no se puede matarlo con un silencio apocalíptico porque ya dice Christiane Seigman:
 

“La vida es continuidad, es flujo incesante entre lo pasado, lo presente y lo futuro. Traer lo pasado para lo ahora es encontrar la propia esencia. Es percibir características familiares, que nos permiten transformar la vida y descubrirse eterno.”

 

Al escribir se baila comigo la danza más difícil de la vida: retener la magia del pasado al presente, antes que en la mitad de la música, la decadencia física del cuerpo se recuerde que su historia y el tiempo pasara por él.

Preservar los recuerdos - mismo en la saudade- es necesario, porque si se pierde los recuerdos inocentes, se pierde la alegría de lo vivir. 

Mariângela Repolês é alvinopolense, educadora e poetisa.

Contato : mariangelarrepoles@hotmail.com